FRATERNIZAR -Cúria romana em conflito com 50 mil freiras EUA – por Mário de Oliveira

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O Cristo da Cúria romana contra Jesus, o filho de Maria?

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<ofereçam como vítimas pelos pecados da humanidade. Porém, se a base do conflito for, como parece ser, antropológica-teológica, então o acordo agora acabado de alcançar será o início de um novo e insanável conflito. Neste caso, é mais que certo que uma boa parte das freiras acabará expulsa como maldita, tal e qual como sucedeu com Jesus Nazaré. As freiras, esposas de Cristo, não suportam ouvir falar de Jesus Nazaré. Menos ainda, suportam ser confrontadas com o ser ser-viver histórico, nem com o porquê da sua morte crucificada como o maldito, segundo a Bíblia e o Deus da Bíblia.

Na prática, há hoje na igreja católica e nas igrejas protestantes uma guerra aberta entre duas antropologias-teologias. A que tem por referência última, Jesus Nazaré e a que tem por referência última, Cristo, o mito bíblico-davídico da casa/dinastia de David. Se for este o caso, no conflito entre as freiras e a Cúria romana, não há acordo possível, porque as duas antropologias-teologias são contraditórias. Onde se afirmar a de Jesus Nazaré, é de imediato recusada/diabolizada pela do Cristo, o poder invicto. A esta luz, tem de se dizer que, para a humanidade, é bom que o cristianismo desapareça por falta de praticantes. Concretamente, é bom que deixe de haver cristãs, cristãos, porque as cristãs, os cristãos são seres cujas mentes-consciências estão afectadas por um sopro/espírito de poder, na sua dupla face, a dos carrascos e a das vítimas, que leva a esmagadora maioria da humanidade a gostar de sofrer e a procurar/provocar o sofrimento como redenção do mundo, quando, para Jesus Nazaré, o sofrimento é o maior absurdo, o que há de mais inumano, intolerável na história.

O Cristo da fé é o pai do sofrimento como redenção do mundo. Enquanto durar, impede a humanidade de ser-viver em liberdade, em autonomia. Gera minorias privilegiadas, autoritárias (hierarquias) e maiorias submissas. As freiras dos conventos, são, nesta perspectiva, as mais infelizes dos seres humanos, porque mulheres castradas por opção, em honra de um Deus sádico, veementemente denunciado por Jesus Nazaré, o ser humano por antonomásia, cujo ser-viver na história é todo marcado pela luta contra o sofrimento e contra tudo aquilo que produz, justifica, valoriza o sofrimento. Precisamente, porque crê Deus que nunca ninguém viu, cuja glória é que os seres humanos vivam e vivam em abundância, em paz desarmada, reciprocidade maiêutica, senhores dos próprios destinos e dos destinos do planeta.

A ser assim, bem se pode dizer que, pela primeira vez, na sua história de vinte séculos, o cristianismo está seriamente posto em causa. Ele nasceu com o objectivo de fazer esquecer Jesus Nazaré, o primeiro ser humano que ousou interpelar, denunciar Deus, o dos seus antepassados e respectiva Bíblia. O seu ser-viver histórico, feito de proximidade e de maiêutica, que cura e liberta, de dentro para fora, as pessoas oprimidas pela idolatria das religiões e dos seus livros sagrados e as leva a auto-compreender-se sujeitos, como se Deus não existisse, foi institucionalmente declarado maldito, para que nunca mais o seu nome fosse sequer pronunciado e o seu ser-viver jamais fosse prosseguido na história. Até esta altura, o cristianismo conseguiu realizar esse objectivo. Já não está mais a conseguir. Jesus Nazaré está, de novo aí, mediante a sua Ruah, o seu Sopro maiêutico que gera um movimento outro, imparável, como o vento. E clandestino, também como o vento, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai.

As freiras norte-americanas, na sua fragilidade e rebeldia desarmada, estão a pôr a nu a perversão sistémica que é o cristianismo. A Cúria romana pode fazer sangue, se matar/esmagar, simbolicamente que seja, estas mulheres. Só revela, se o fizer, que é intrinsecamente perversa, mentirosa, assassina. Bom será, então, que as freiras rebeldes levem a sua rebeldia até para lá do limite. Porque Deus, o de Jesus, não nos quer cristãos, só nos quer humanos, a crescer de dentro para fora em ser e liberdade, autonomia e entrega recíproca maiêutica, ao ponto de Deus nem sequer ser invocado por nós, apenas praticado por nós, a toda a hora e instante. Vêm aí tempos de muita perseguição. Que o cristianismo não perdoa a quem, ao Deus dele, contrapõe o Deus de Jesus Nazaré. Preparemo-nos e coloquemo-nos na primeira linha, como prosseguidoras, prosseguidores de Jesus, agora, século XXI.

 

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