CRÓNICA DE DOMINGO – Da calúnia no tempo que passa – por Joaquim Palminha Silva

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Em vão se procurará a existência da calúnia na galeria dos sete pecados capitais!            Creio que isto só acontece por que a calúnia é suplemento que agrava os sete pecados e, por isso, mais os embrutece, mais os torna horríveis, diabólicos.            Debrucemo-nos um pouco sobre a história da palavra calúnia.            Supomos que a maioria sabe que a palavra vem do latim «calumnia», que quer dizer ao mesmo tempo, chacota e falsa acusação. Os dois sentidos podem encontrar-se nos escritos de Cícero. Todavia, o sentido mais acintoso da palavra calúnia, no que se refere a destruição de uma reputação, encontra-se no latim de origem eclesiástica: detractio!            Seja como for, estas palavras latinas não fazem mais do que justificar o que já sabíamos sobre a natureza da calúnia. No entanto, a língua grega parece ser mais específica. Os autores cristãos (1) servem-se quase sempre da palavra grega χαταλαλία, termo injurioso em relação a alguém.            A calúnia inaugura um processo social, através do qual a palavra modifica o real para o transformar em algo pior do que ele é. Convém precisar que não é propriamente a palavra que actua no sentido da calúnia, mas antes o pensamento que vai colado a ela, por assim dizer. Far-me-ei entender melhor, mencionando que o típico caluniador é aquele que actua por “meias palavras”. Nesta ordem de ideias, verificamos que o importante não são as palavras, mas o sentido que se insinua ao dizê-las. Como se pode concluir, o caluniador é aquele que diz sem o dizer, saboreando assim a força de que dispõe, sem contudo se comprometer abertamente, ao mesmo tempo que conserva distanciamento suficiente no que se refere à sua maledicência, de forma a servir-se dela habilidosamente: – A calúnia só é “útil” ao caluniador se penetra aos poucos, como um veneno, no pensamento corrente das multidões, portanto, para alcançar tal objectivo, só há um método seguro, a insinuação!            Dito de outra forma… Não vivemos no universo transparente da verdade, mas sim no mundo tenebroso da opinião. Na verdade, a palavra utilizada como meio de acção pode levar a uma transformação, não certamente da realidade concreta, mas sim a uma transformação do pensamento das pessoas sobre essa mesma realidade, bem como pode levar a eventuais transformações das relações sociais entre as pessoas. Se o caluniador introduzir alusões não comprovadas, empregando palavras dúbias, etc., em relação a A ou B, contaminará as relações sociais com a dúvida sistemática, a maledicência e, neste sentido, a insinuação, as meias-palavras, tornam-se meios eficazes de malvadez!            De princípios morais degredados ou completamente desajustados da ética social corrente, o caluniador só se consegue afirmar pela calúnia e, assim, tenderá a degradar todas as relações sociais em seu redor, envenenando-as com as suas constantes insinuações.            As palavras têm o poder de dizer e, sobretudo, de maldizer, pelo que podem ser usadas para que a sociedade se molde devido à sua intervenção Podem as palavras servir para ajudar a tornar o mundo melhor, mais justo, mais cristão e, por conseguinte, mais humano; mas o uso insinuante de outras palavras pode conduzir a ignomínias e a proferir calúnias…            Vem aí o tempo das eleições autárquicas… Tempo de grande uso de palavras, de insinuações, de calúnias… Não é fenómeno novo, pois já o conhecemos de outras eleições, porém acontece que agora, no centro de terrível e desgraçada crise, a calúnia encontra terreno propício para germinar, e a maledicência tem condições para prevalecer sobre o são espírito crítico e o interesse colectivo! – Sejamos, pois, moderados e honestos, uns para com os outros!            Podemos sempre criticar as ideias, mas não a vida privada das pessoas; podemos sempre criticar o pensamento cultural-político-social deste ou daquele, mas sem que isso seja necessário para a crítica, não tentar adivinhar as suas inclinações, e assim de seguida…            Lembremos que o caluniador desdenha muito especialmente a objectividade. Desde o início, ser humano degradado, o caluniador tem forte inclinação para visionar o mundo social e político de acordo com a sua própria degradação.

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(1) – 2 Coríntios, XII, 20, 6 ; 1, Pedro II, 1.

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