CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – QUE CEIA DE NATAL NOS ALIMENTA OS AFECTOS? – por Mário de Oliveira

quotidiano1

Já não bastavam as minúsculas estátuas da marca menino-jesus do Cristianismo, misturadas, ultimamente, com as dos pais-natais, made in China, a trepar pelas paredes das casas, mai-las dos pais-natais motards com prendas para criancinhas de bairros pobres. Acaba de se lhes juntar, este ano, a estátua gigante, em bronze, da marca CR7, erguida na Madeira, com o presidente do Governo regional a presidir, e a mãe que a pariu, a chorar de emoção, como manda o guião dos eventos rascas. A plebe local, a que se juntaram alguns turistas de ocasião, que gostam de fotografar o insólito e o esotérico, correu a aplaudir, que para isso é plebe. Desde que o Cristianismo criou a marca menino-jesus e conseguiu vendê-la, urbi et orbi, a humanidade que já então se encontrava condenada, por força das religiões, suas deusas, seus deuses, a ter de comer, diariamente, o pão do obscurantismo e do medo, num nível abaixo do dos outros animais, nunca mais conseguiu encontrar-se consigo própria e hoje é pau para toda a colher. Tudo isto perfaz um crime sem perdão e a prova é que, por ocasião destas datas, acabamos reduzidos a plebe, mascarados de festa, no reino dos mitos. Só a realidade nos faz, plena e integralmente, humanos e nos garante desenvolvimento integral, a partir de dentro para fora. Porém, desde que o Cristianismo se tornou imperial e engoliu todas as outras religiões, suas deusas, seus deuses, tem-nos impedido de conhecer a realidade, de a vivermos, comermos. E sem este pão substancial, crescemos em anos, infantilidades, obscurantismos, medos, quando deveríamos crescer em sabedoria, reciprocidade, sororidade, liberdade, autonomia. Deste pão substancial que é a realidade, faz parte integrante a ceia de natal do Solstício de inverno que urge recuperar, contra os natais do menino-jesus do Cristianismo e suas igrejas, da Caridadezinha dos pais-natais motards e da marca CR7, que faz golos e junta milhões. Só essa Ceia, que é a da realidade, não dos mitos, nos alimenta os afectos, sem os quais ficamos reduzidos a estátuas de gelo.

22 Dezº 2014

1 Comment

Leave a Reply