CARTA DE PARIS – Menezes Ferreira – tenente na Grande Guerra – I – por Manuela Degerine

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Em 1921 João Guilherme de Menezes Ferreira presta homenagem aos soldados do CEP (Corpo Expedicionário Português) num livro com texto e desenhos.

“Por mim, na ideia firme de glorificar os heróicos soldadinhos de Portugal, resolvi escrever um dia este livro de bom humor, numa linguagem simples e pitoresca para que mais facilmente fosse compreendida pelas crianças e por toda a gente da nossa terra”[1].

O diminutivo evoca os “soldadinhos” de chumbo com os quais os meninos brincavam porém, se os desenhos e o tom humorístico buscam captar a atenção de um público infantil, é provável que não ocupem apenas esta função; o livro destina-se afinal a “toda a gente da nossa terra” e por conseguinte os desenhos, o bom humor e, como veremos, a ênfase laudatória, podem constituir a farda de camuflagem daquilo que o autor não coloca no centro da narrativa – sendo militar de carreira – mas esboça na margem: o pouco caso que Portugal fez dos combatentes durante e após a guerra.

A dedicatória aos capitães Humberto de Ataíde e Viriato de Lacerda mortos em África e “A todos os simples soldados de Portugal” junta uns e outros, embora o protagonista seja o soldado do CEP ao qual, sem justificar a escolha, Menezes Ferreira dá a “modesta alcunha”[2] de João Ninguém. “João” decerto por ser um nome banal, mas provavelmente também por o autor se chamar João e ter feito parte do CEP, o que sugere haver ele próprio partilhado, ainda que sendo então tenente, os riscos e a miséria dos soldados, sentido o abandono na Flandres e o posterior esquecimento em Portugal; um desprezo que o capitão Menezes Ferreira denuncia no qualificativo: “Ninguém” é aquele cuja vida, cuja vontade, cujo sofrimento e cujo presente não contam para quem manda. João Ninguém é – na guerra – o filho de Zé Povinho.

A partilha de riscos e glória entre os soldados e os oficiais que de perto os enquadram aparece mais adiante de maneira explícita. “João Ninguém”, herói e mártir das trincheiras, conduzido durante tanto tempo, suprema glória dos “raids”, por esses bravos oficiais que são a fina flor do arrojo e do “panache” lusitano”[3]… A complementaridade heróica sugere uma dedução simétria: se João Ninguém foi “mártir”, também alguns destes oficiais o terão sido. (Jacques Meyer, um historiador que combateu na Grande Guerra, igualmente admite tal contiguidade: “O alferes chefe de secção vive nas trincheiras quase como os seus rapazes, em todo o caso vê-os viver e morre como eles”[4].) Deste modo, a uma distância que lhe permite compreender o grupo e delegando a João Ninguém algumas das suas queixas, o capitão Menezes Ferreira oferece do CEP um ponto de vista interessante para quem se interessa pela Grande Guerra.

(Continua

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[1] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, 2ª edição, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, p. 14.

[2] Idem, p. 14.

[3] Idem, p. 53.

[4] MEYER, Jacques, “La vie quotidienne des soldats pendant la Grande Guerre”, ed. Hachette, Paris, 1966, p. 44; tradução minha.

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