(um conto reconstituído da História verdadeira)
A cidade de Évora tem proporcionado a vários escritores os mais curiosos títulos. Como se os “estados de alma” dos autores fossem ditados pela atmosfera urbana de cada época e, metafisicamente falando, pelos vários “estados de alma” da própria urbe. Tivemos, pois, a História da antiguidade da cidade de Évora, de André de Resende (impressa em Évora pelo impressor e livreiro André de Burgos,1576), a Évora Ilustrada, do Padre jesuíta Manuel Fialho (cód. CXXX/1-8, da Biblioteca Pública de Évora), a Évora Gloriosa, do Pe. Francisco da Fonseca (1728), a Évora No Seu Abatimento, Gloriosamente Exaltada […], de António Mexia Fouto Galvão Pereira (1808), a Évora Lastimosa […], do Pe. José Joaquim da Silva (1809-1814), uma romântica Évora encantadora, de Celestino David (1923); entretanto, apareceram na galeria de títulos duas obras denominadas simplesmente Évora, a primeira (hoje espécie bibliográfica rara) da autoria de Matos Sequeira, com desenhos e esplêndidas aguarelas de mestre Alberto Sousa (1931 ou 1932), a segunda, da autoria de Túlio Espanca (1993), síntese histórica e roteiro prático, para ajudar o visitante a percorrer a cidade com proveito. Finalmente, quando tudo parecia decidido, aparece em 2005 uma obra intitulada Évora, Cidade Esotérica e Misteriosa, produzida pelo autor destas linhas (Joaquim Palminha Silva), convencido de que há segredos na cidade e, portanto, a urbe tem “mistérios” e “esoterismos” por uma pá velha. Sem fadiga alguma, todos estes autores com apetite intelectual mais exigente que o apetite gastronómico, fundiram as suas volições, as suas maneiras de ser, o seu coração em prol de Évora. Criticaram usos e abusos da cidade e seus diversos mandantes? – Sem dúvida! Porque muito a amaram! O leitor trivial pode enfadar-se com os folhetins deste ou daquele, mas se lhe colocarem na frente o volume do Pe. Amador Patrício, História das Antiguidades de Évora (1739), de certeza que fica perplexo com o à vontade todo-poderoso do autor, capaz de enfrentar a fantasia criativa de Conan Doyle, Wells e Júlio Verne! A obra, quase trabalho de Hércules, à primeira vista parece a escrita de um lunático, pois tudo o que seja diminuir-lhe a asa é arredado com prontidão. Há quem advogue que o bom do Pe. Amador Patrício pretendeu satirizar o livro de mestre André Resende, e se este fabricou lápides latinas (de escopo e martelo!) para poder fortalecer, a posterior, os seus argumentos sobre a antiguidade da cidade de Évora, o nosso autor do séc. XVIII, arrancou do seu espírito para oferecer aos leitores, mãos cheias de fantasias febris, e uma intriga que se bordou de fina renda, com sua sinuosa psicologia. Seja como for, por detrás das atribulações dos figurantes desta História das Antiguidades de Évora, existe matéria suficiente com que entreter caçadores de simbologias esotéricas e outras artimanhas do género. Logo a abrir, diz-nos o Pe. Amador Patrício que, depois do bíblico Dilúvio, foi Évora uma das primeiras cidades a ser edificada… – Que o leitor perdoe a pouquidão! Na paleta deste padre jesuíta e escritor, há riqueza fantasmagórica e ficção que podem rivalizar com o célebre califa Harun Al-Rachid e suas histórias das mil e uma noites. Esta sua História… tem uma remota cronologia para a nossa língua, a começar logo na bíblica confusão dos idiomas, no tempo dos pretensiosos construtores da Torre de Babel!
Mas saiba-se ainda mais: – Se uma das línguas faladas na construção da Torre de Babel era o português, aconteceu-lhe que, atravessando essa época de opacidade espiritual, não se afundou como as outras línguas no crepúsculo dos primeiros tempos! Segundo o Pe. Amador Patrício, Évora edificou-se num monte ou outeiro, e o seu primeiro Rei, é claro, aí construiu um castelo… Morreu este Rei, mas deixou uma filha como Rainha do lugar, de nome Elbora. E assim de seguida… Diz o Pe. Amador Patrício que o lugar foi fundado cerca de 200 anos depois do Dilúvio, mas que antes desta fundação se tem por certo que o sítio era habitado por gigantes. Moravam estes últimos, assegura o nosso autor, no local onde está edificado o palácio dos Condes de Basto porque, certo dia, cavando-se na base da torre mais alta, encontrou-se uma grande pedra com inscrições (letras estranhas) e figuras, tudo a condizer com a história do autor. Enfim, para o materialista civilizado poder acreditar, o Pe. Amador Patrício aventa-nos â face com uns desenhos supostamente inscritos na tal pedra… – Afinal de contas, o Pe. Amador Patrício trabalhou com o mesmo piedoso ludíbrio que mestre André de Resende! Porém, o Pe. Jesuíta não jogava ao ar a albarda da sua prosa, assim, sem mais nem menos. Tinha as suas fontes, tão fiáveis como as nossas… Só que não as podemos consultar, pois os livros velhos, pergaminhos e manuscritos do tempo da ocupação romana, citados aqui e ali, «estavam na livraria do Bispo do Algarve, que os ingleses roubaram, e levaram para Inglaterra, onde hoje estão»! Estamos em crer que o nosso autor se deve referir ao saque e incêndio de Sagres, bem como algumas localidades do Algarve em 1587 (durante a ocupação castelhana), por uma frota de navios corsários ingleses comandada pelo pirata Francis Drake, numa tentativa de colocar no trono de Portugal o infortunado D, António, Prior do Crato, o tal que, no rifoneiro popular, ficou legendado com esta máxima: – «Não faças como o Prior do Crato que para salvar um, matava quatro», querendo referir-se talvez ao fracasso das ramas portuguesas na “batalha” (ou escaramuça?) de Alcântara (1580). Deste ataque do inglês Drake a Sagres, entre outras desgraças, também ficou na tradição indocumentada a destruição da biblioteca do Infante D. Henrique, que na fortaleza se conservaria… Ao certo, ninguém sabe se isso foi ou não assim, mas o Pe. Amador Patrício insuflou qualidades de fonte histórica de primeira água à tradição e, como no talento há sempre o seu pouco de mistério e invenção, com estes e outros deliciosos ingredientes, ficamos com o inédito e o sensacional, combinado um pouco com a vida e a história verdadeiras… Os inúmeros praticantes dos nossos dias da modalidade “romance histórico”, não perderiam o seu tempo a ler (e a estudar!) os esquemas do Pe. Amador Patrício e, talvez assim, nos poupassem umas quantas páginas sem imaginação em péssimo português… Terminado o livro em 1614, o nosso autor rodeou-se dos cuidados da praxe, para que não fosse o Regimento do Santo Ofício de 1613 actuar contra a sua obra, colocando-a no rol dos livros de pensamento ousado e, assim, o jesuíta submeteu o livro à censura eclesiástica, prevenindo-se com as licenças necessárias. Mesmo isto feito (o padre jesuíta era ladino!), havia que estabelecer barreiras, pois nunca se sabia o que era livre hoje e defeso amanhã, pelo que acrescentou nas páginas da obra: « […]me sujeito com toda esta história; e havendo nela cousa que não seja bem dita ou escrita, e repugne aos bons costumes, eu as dou por não ditas, e me desdigo, e torno a sujeitar à correcção, dos que bem o entendem, e sou obrigado a obedecer, dando com isto fim ao último livro.». Em síntese, o irónico Pe. Amador Patrício, mordendo os lábios, desfazia-se em salamaleques face ao tribunal da Inquisição, como quem diz (piscando o olho ao leitor?), albarde-se o burro à vontade do dono! A vida deste padre jesuíta é mal conhecida. O próprio livro nos informa que o autor morreu numa sexta-feira dia 13 de Maio de 1614, em Salvaterra. Se assim aconteceu, foi desplante exagerado da má sorte! Enfim, por todo este acervo de fantasias, peripécias e outras façanhas pitorescas que calamos, a obra do Pe. Amador Patrício merecia uma simpática reedição (pró-Évora)… Mas ele há lá hoje editores nacionais e regionais de obras antigas, portadores de uma natureza tão generosa como o foi a oficina impressora da Universidade de Évora, nesse recuado século XVIII!


