UM GRITO D’ALMA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O ano de 2014, como todos os anteriores, está cheio de imagens que nos surpreendem pela sua crueza e injustiça.

Não esqueço uma imagem que vi, num telejornal, de um enfermeiro que se despedia, no aeroporto, do pai porque ia procurar trabalho em Espanha. As lágrimas de ambos faziam lembrar as lágrimas de algumas famílias que iam para França, nos anos 60, à procura de uma vida melhor, porque o país não soube, ou não quis aproveitar as apetências laborais destas famílias.

Em 2014, o governo não só não sabe como não quer os jovens especializados e, para os “ajudar” a resolver a falta de emprego na sua terra, manda-os para fora do país.

Ei-los que partem / novos e velhos /buscando a sorte / noutras paragens / noutras aragens /entre outros povos /

Ei-los que partem / de olhos molhados / coração triste / ……………….

Manuel Freire

E milhares de jovens especializados – enfermeiros, engenheiros, informáticos,…..- foram para as mais diversas partes do mundo. Levaram consigo o conhecimento que tanto custou à Escola que os escolarizou, porque ela mesma se transformou numa escola democrática e inclusiva, mesmo contra os “Velhos do Restelo”. Levaram consigo o investimento que o Estado fez no ensino para que houvesse mais licenciados do que até então.

2014 foi o pior ano lectivo, que se conhece, desde 1974! Resistentes da Escola Democrática tentaram, através dos meios ao seu alcance, demonstrar que esta escola, a escola do Professor Nuno Crato, não é uma escola democrática, mas elitista. O lema deste ministério foi dar mais a quem tem mais, avaliar uniformemente todos os alunos e professores. Foi o ano das avaliações e da total falta de respeito pelos professores!

As condições de vida, a crise deixou os pobres mais pobres, os da classe média empobrecidos, e os ricos mais ricos.

Trabalhadores e trabalhadoras levam todos os dias uma lancheira com o almoço porque já não podem ir almoçar fora!

A Luísa de António Gedeão continua a subir a calçada, a chegar a casa, mas agora com a conhecida agravante de ser vítima de violência doméstica que, em 2014, matou 40 mulheres!!!

 Saiu de casa /de madrugada; / regressa a casa / é já noite fechada.

Na mão grosseira, /de pele queimada, / leva a lancheira / desengonçada.

Anda, Luísa, / Luísa, sobe, / sobe que sobe, / sobe a calçada.

António Gedeão

Os meninos e as meninas do mundo, em 2014, continuaram a ser vítimas de violências várias: recrutados para a guerra, morte por doenças, por fome, por maus tratos, por raptos, por exploração sexual, por tráfico de seres humanos, por abandono!

Os meninos e as meninas do mundo, em 2014, continuaram sem direito a ir à escola, as meninas são castigadas, se for preciso, até à morte, se o ousarem fazer!

Os meninos e as meninas do mundo deveriam andar ao nosso colinho, deveriam sorrir, deveriam aprender que nascemos para ser felizes e transformar o mundo para melhor…

Menino sem condição  / Irmão de todos os nus  / Tira os olhos do chão  / Vem ver a luz

Zeca Afonso

Por trás daquela janela / Por trás daquela janela / Faz anos o meu amigo / E irmão / Não pôs cravos na lapela / Por trás daquela janela.

Zeca Afonso

 Zeca Afonso fez este poema a um amigo seu que estava preso pela PIDE.

Não vivemos no tempo da ditadura, mas vivemos um tempo em que muitas das liberdades fundamentais podem ser retiradas a um cidadão ou a uma cidadã. Quantos dos 4000 presos, em prisão preventiva, não poderiam aguardar as investigações sem lhes ser retirada a liberdade física e a liberdade de expressão?

Falo em nome de 2014, mas mais correcto seria dizer “NÓS”.

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