Há dias, no Especial de Natal da Porta dos Fundos, um tarado que se faz passar por Jesus Cristo respondia assim a uma pergunta sobre a cristandade: “Cristão? Eu não sou cristão. Eu sou Cristo”. Em tempo de bolo-rei, e se me permitem a brincadeira etimológica, o que a produtora brasileira de vídeos humorísticos fez com isto foi Cristalizar a heresia. Ao estabelecer para ela um paroxismo, também lhe fixou um limite, um ponto para além do qual ela já não pode ir. Não porque a lei o determine, não porque a tensão actual o desaconselhe, mas tão simplesmente porque cortou o “mal” pela raiz. Separou Cristo, a raiz, da religião Cristã, a árvore, e ao fazê-lo desresponsabilizou o Primeiro dos frutos gerados pela segunda. Ou seja: por um lado foi sumamente herética e por outro sumamente fiel. E isto desconcerta os beatos. Nada naquela afirmação está fora do sítio: um homem como Cristo, que, diz-se, sempre procurou orientação no silêncio, não ia querer que os seus apóstolos a procurassem noutro lado, pelo que fomentar uma legião de seguidores seria um contrassenso. Ora, nestes tempos de fanatismo, é preciso sabermos o que atacamos quando atacamos a religião cristã: atacamos um edifício construído sobre a campa do seu arquitecto. No caso do islamismo, o que vemos hoje são homens a matar outros homens para honrar o homem que os desonrou, ao assenhorar-se da parte divina que a cada um deles cabia. Não é Alá que está em causa, é a legitimidade de Maomé para limitar o pensamento e o alcance do seu povo. O cristianismo, o islamismo e os outros ismos todos, mais ainda se forem de índole religiosa, para expurgarem os seus pecados deveriam reivindicar a autoria moral, quando não prática, dos principais crimes da humanidade ao longo dos tempos. Tal como a arte, a espiritualidade é da esfera do sujeito, criando em cada ser diferentes caminhos. Haja liberdade para os descobrir. Mas já se viu que se não houver, ninguém mata ninguém por isso.