MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 60 – por José Brandão

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CONCLUSÃO 

Em 1920, no rescaldo do sidonismo, Homem Cristo, sempre ao seu melhor estilo, botava opinião sobre este tema:

«As democracias monárquicas ou republicanas são os partidos famintos, os deputados vadios, os interesses torpes dos banqueiros, a escalada do poder feita, em massa, por toda a gente que tudo pode ser, desde regedor a ministro.

Numa democracia a Pátria é simplesmente a arca do tesouro público, a dividir pelos partidos, e os seus maiores estadistas são aqueles que, mais hábil e demoradamente, compensem os partidários, adiando a subida dos contrários ao poder por discursos palavrosos no parlamento, que é a feira franca dos negócios pessoais.[…]Vê-se, pois, que a salvação de Portugal não está na mão de um homem, por maior que ele seja, nem na intervenção de uma turba, por mais numerosa que seja.

Uma monarquia constitucional que não vingou com o grande D. Carlos não mais pode vingar. Uma república que não se robusteceu e dignificou com Sidónio Pais, jamais pode viver e governar-nos.

O salvamento do país está, pois, na nação organizada, forte, a trabalhar em todos os órgãos, desde os mais complexos aos mais simples, reconstituindo as forças corporativas e as vitalidades regionais, porque, então, o assassino, ao fuzilar o chefe de Estado, sabe duas coisas: que a forca o espera e que o seu gesto é inútil, porque o país continuará trabalhando e vivendo, visto não ser possível fuzilar todas as forças organizadas da nação».

Basílio Teles que, tal como Homem Cristo, chegou a fazer parte do Diretório do Partido Republicano e esteve implicado na revolta de 31 de janeiro de 1891, tinha dito em 1905: «Mil vezes um tirano, duro e frio, contando que inteligente e patriota, prendendo, deportando, perseguindo, mas impondo à estima do mundo um povo (…) do que um bando de politicantes histriões, atascados em torpeza e estupidez.»

Neste instante, em que se cruzam personagens tão diferentes entre si, uma explicação se impõe: Embora expostas aqui em pé de igualdade, as opiniões dos diversos autores não podem, nem devem ser consideradas com igual intenção por parte de quem as produziu. As menções utilizadas devem ser encaradas com o devido respeito que cada citado merece e conforme a sua vida e a sua obra ficou para a História.

Em Portugal nunca se morreu de amores por tudo o que tinha a ver com o Poder. Á semelhança do que se verificava com os reis, também a classe política – fosse ela qual fosse – sempre foi vista com pouco afeto pelos que exprimiam a sua opinião. No livro Galeria de Figuras Portuguesas, editado pela Perspetivas & Realidades, em 1989, Luís Augusto Palmeirim definira assim O POLÍTICO:

«Quando um homem qualquer não tem que fazer, e receia por um resto de pudor passar por vadio, mete-se a político.

Ser político, em Portugal, significa falar no orçamento e não o ler; na Carta Constitucional, e não saber onde ela se vende; no poder executivo, e confundi-lo com todos os outros poderes, menos com o próprio poder executivo.

Para se ser político, precisa-se: primeiro, audácia; segundo, ignorância; terceiro, ociosidade. Com estes três predicados, a leitura de alguma folha periódica, e o conhecimento pessoal de dois ou três homens que já fossem ministros, está o político feito.

O político é geralmente um homem enfastiado e fastidioso, a quem correm mal os negócios públicos e pior ainda os domésticos. O primo de outro primo que já foi pretendente e não obteve lugar que pretendia, é político: é político o mandrião que precisa de um arranjo para se casar; é finalmente político o empregado que duplicou os recibos dos seus vencimentos; o lojista em vésperas de falência; o artista sem fregueses, o operário que não chega nunca à hora de ponto.»

Sobre este tema, Sampaio Bruno tinha uma opinião bem ousada. Nas suas Memórias Raul Brandão conta que o que ouvira de Bruno:

« – Escusam de procurar… a nossa ruína não vem dos políticos nem do regime. Mudaremos o regime e ficaremos na mesma. O mal é mais profundo – o mal é da raça.

– O mal é da raça. Se quisermos modificar o País, temos de fazer exatamente o mesmo que se faz com os cavalos, temos de mandar vir homens do Norte, ingleses, escandinavos ou suecos, e de montar aqui e além postos de cobrição.»

Também Ramalho Ortigão, no artigo «O Sebastianismo Nacional», escrito em 1911, fala sobre o povo português. A sua versão é que este «tendo por influição do seu sangue amouriscado a noção lazarónica de que todo o trabalho é uma condenação, uma iniquidade, ou – em mais consagrada e corrente metáfora – uma tremenda espiga, ele não vê nem jamais viu com bons olhos que outros lhe passem pela porta passeando-se de carruagem enquanto ele, como eu, trabalha ao seu tear, ao seu torno ou na sua tripeça; e a sua augusta e longínqua visão de uma justiça social resume-se filosoficamente nisto: – que ele passeie de carruagem e que trabalhem os outros. Para se apropinquar quanto possível da realização desse ideal, a que por decência o ensinaram a chamar o «ideal socialista», acreditou por algum tempo na coadjuvação da Providência, e invocou-a piedosamente em ladainhas e novenas, em promessas e romagens.» […] Assim como, libertado de reis, ele não quer mais ser escravo senão de charlatães, assim também, uma vez descarregado do sofisma divino e precisando de algum outro símbolo a que se apegar, encomenda-se devotadamente ao acaso, ao desconhecido, ao inescrutável, e filia-se na política, bajula o cacique e compra cautelas de três vinténs.»

Logo após o regicídio, em 1908, Miguel Unamuno viaja até Portugal onde conta com a amizade de algumas das mais destacadas figuras da vida cultural e política. Das impressões dessa deslocação, o prestigiado escritor espanhol haveria de publicar um livro que só passados setenta e cinco anos seria traduzido e publicado em Portugal. Por Terras de Portugal e da Espanha, é dos mais interessantes documentos que alguma vez foi escrito sobre este pedaço de chão que tem Lisboa por capital. Ler este livro de um estrangeiro ajuda a conhecer melhor quem somos e o que somos. Ajuda-nos a compreender os nossos regicídios, os nossos sidonismos, as nossas noites sangrentas. Unamuno fala deste país com palavras de uma verdade crua, sincera e ao mesmo tempo arrasadora. Diz este autor:

O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo paciente e resignado, que tudo suporta sem protestar mais que passivamente. E contudo, com tais povos há que ter muito cuidado. A ira mais terrível é a dos mansos. […] Nem o rei D. Carlos, pois, nem João Franco conheciam o seu povo. E aquele provou muito bem não o conhecer nas suas famosas declarações ao redator de Le Temps, declarações que eram uma verdadeira provocação à mansidão de um povo. Este dormia e o rei e o ditador 0acordaram-no.

Isto é muito doloroso, mas a verdade é que a consciência dos povos adormecidos não desperta senão com atos de violência. E ainda mais doloroso é que, vulgarmente, não basta uma só dessas sacudidelas; o que está adormecido volta a adormecer, embora com um sono mais ligeiro, e precisa de uma nova excitação.[…]E para concluir deve dizer-se: descanse em paz o infortunado D. Carlos, mas descanse também Portugal em paz. Se é que a um povo, e a um povo como Portugal, pode desejar-se-lhe descanso.

Salamanca, fevereiro de 1908.»

E, naquela que é seguramente a parte mais eloquente do seu testemunho sobre Portugal e sobre o povo que nele vive, ficaria o registo de um capítulo a que o autor quis dar o título de UM POVO SUICIDA: «Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, inclusive, a sua literatura cómica e jocosa, é triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Querem viver talvez, sim; mas para quê? Vale mais não viver.»

Neste mesmo capítulo, e com a data de novembro de 1908, Miguel de Unamuno dá a conhecer uma carta de Manuel Laranjeira, seu amigo de grande afeto e que algum tempo depois será suicida:

«Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.

Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram – de crer.

Crer…! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora.

É horrível, mas é assim.[…]Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levarem os maus ventos do destino. Para onde? Vamos…[…] Não falta mesmo quem diga que isto não é já um povo, mas sim – o cadáver de um povo.»

Manuel Laranjeira haveria de se suicidar passados menos de quatro anos sobre esta carta a Unamuno. Seria o último de uma lista aterradora de suicidas que começa em 1876 com José Fontana e que continua com o médico Francisco da Cruz Sobral, em 1888, com o escultor Soares dos Reis, em 1889, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado e o sertanejo Silva Porto em 1890, Antero de Quental, em 1891, o militante operário Luís de Carvalho, em 1893, o escritor operário Henrique Verdial, em 1900, Mouzinho de Albuquerque, em 1902, o escritor e jurista Trindade Coelho e o jornalista Alberto Costa, o «PadZé», em 1908, o almirante Cândido dos Reis, membro da Carbonária Portuguesa, em 1910, Guedes Quinhones, velho militante socialista e jornalista operário, em 1911. E, depois de Manuel Laranjeira, em 1912, suicida-se o poeta Mário de Sá-Carneiro, em 1916.

Portugal é um desespero trágico que aflige os melhores filhos do seu possível orgulho nacional. Alexandre Herculano exclamara: «isto dá vontade da gente morrer!». Rodrigo da Fonseca murmurara: «nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste»? E no final de um soneto António Nobre apregoa: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal! […] Todos nós falhamos… Nada nos resta. Somos uns perdidos. Choremos, abracemo-nos, unidos! Que fazer? Porque não nos suicidamos?»

Portugal é assim. Quando não mata, mata-se. Quando mata, morre.

Em 1908, em 1918 e em 1921 uma violência que está fora de qualquer conceito de brandos costumes abalou um País que se considera a si próprio exemplar. É um Portugal besta que mata e morre matando. É um Portugal trágico. É o nosso Portugal.

«Pobre desgraçado país, – escreverá Raul Brandão – que sem dinheiro e com uma população diminuta, depois de correr mundo, colonizou o Brasil, coloniza África e faz todos os dias esforços inconscientes e extraordinários para encontrar um caminho. Foi sempre o que é hoje, capaz de todos os sacrifícios, com tanto que haja quem o dirija e se sinta enquadrado.»

Nas Memórias de Raul Brandão pode conhecer-se aquilo que os estrangeiros diziam no dia do funeral régio, em 8 de fevereiro de 1908:

– Ainda bem que foram portugueses os que executaram o rei. É a primeira vez que um rei português morre às mãos do seu povo. Até agora acabavam às mãos das camarilhas.

Nas mesmas Memórias, pode ainda ler-se o seguinte relato:

«A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:

– Foram os portugueses?

– Foram.»

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