Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Kurt Von Schleicher: a última possibilidade da república de Weimar contra Hitler (2)
Woyzeck, Kurt Von Schleicher : la dernière chance de la République de Weimar contre Hitler
L’Espoir, 7 de Junho de 2014
(continuação)
Continuamos a nossa série sobre Kurt Von Schleicher, o último Chanceler antes da ascensão de Adolf Hitler ao poder. Trata-se da tradução de uma biografia de Von Schleicher, que nunca foi traduzida para o francês e que Woyzeck nos oferece uma tradução inédita. Apesar da brevidade da sua passagem à frente dos destinos da Alemanha, o interesse de Von Schleicher reside na sua compreensão do impasse económico constituído por uma política de rigor e por querer aplicar uma política de expansão económica efectuada pelo Estado e apoiada pelo Reichsbank.

Também é difícil saber onde Zehrer e a sua rede foram capazes de obter as suas informações. Os rumores apontam para um informador dentro do serviço de segurança de Hitler. O que é certo, é que Zehrer enviou dois funcionários a Colónia para a reunião em que conseguiram fotografar Hitler e von Papen antes deles entrarem na casa de von Schröder. Na noite seguinte, a 5 de Janeiro, apresentaram estas fotos a von Schleicher.
As notícias desta entrevista também apareceram no mesmo dia na imprensa, de forma sensacional no jornal de Zehrer “A Tribuna diária” («Täglicher Rundschau») sob o seguinte título:” Hitler e von Papen contra von Schleicher. Surpreendentemente, encontra-se na edição de 6 de Janeiro uma transcrição pertinente de diversas hipóteses sobre o conteúdo desta entrevista de Colónia, que arrastou um verdadeiro sismo político.
Von Papen apresentou este evento nos dois volumes das suas memórias apenas como uma tentativa para saber se ele ainda poderia convencer Hitler a participar do governo de von Schleicher. Desta forma, ele teria procurado fazer o papel de mediador para ajudar von Schleicher. Assim, ele sempre pretendeu quando lhe colocavam a difícil questão da escolha do Chanceler num tal governo, que teria sido possível constituir um Duumvirat Hitler – von Schleicher. Mais ainda, ele argumentava que o objectivo desta reunião nunca foi o de considerar a formação de um governo de Hitler como uma alternativa ao governo de von Schleicher.
Há um número muito grande de relatos e de declarações contraditórias que nos provam que as explicações de von Papen são à posteriori falsas. Kurt von Schroder, como o Secretário de Estado Meissner, que actuou como mediador nesta reunião, foram duas testemunhas directas do acontecimento e disseram que o plano de von Papen de Duumvirat não tinha nada a ver com uma qualquer participação dos nazis no governo de von Schleicher, mas sim sobre a criação de uma coligação entre o NSDAP e os Alemães Nacionais (“Deutschnationalen”) sob a liderança de Hitler e de von Papen. Von Papen e Hitler ter-se-iam assim entendido sobre um acordo de princípio.
«Von Papen sempre pretendeu que a finalidade desta reunião nunca tinha sido a de considerar a formação de um governo de Hitler como uma alternativa contra o governo de von Schleicher.»
Muito mais importante e rico em consequências que as hipóteses sobre o conteúdo desta entrevista, é que devemos considerar que por esta iniciativa bem irresponsável e nas costas de von Schleicher e sem ter informado o Presidente do Reich, von Papen ofereceu a Hitler e ao partido nazi, uma via real para chegar ao poder. Quando Goebbels teve conhecimento desta reunião secreta, escreveu no seu jornal que se tratava de uma “oportunidade”.
Este acontecimento deu-se no momento em que Hitler e o seu partido estavam numa má situação. As sondagens de opinião indicaram uma tendência em recuo da adesão da população em aderir ao NSDAP, o fardo da dívida estava-se a tornar cada vez mais pesado; aqui as perspectivas eram menores que nunca quanto às possibilidades do o partido de Hitler chegar ao poder, e o chefe do Partido Nacional-Socialista não sabia como responder à estratégia de von Schleicher de desgaste e do afastamento de Hitler da vida política, visando com isso assim manipulá-lo completamente.
É a partir deste momento que Hitler recebeu uma oportunidade inesperada que lhe foi proporcionada por von Papen, conselheiro não oficial, mas muito íntimo de Hindenburg, de novo poder voltar a discutir com o Presidente do Reich e contar como um parceiro de negociação para a constituição de um novo governo.
Não pode haver perdão para o comportamento de von Papen. Pouco importa se ele agiu com a intenção de se vingar contra von Schleicher – que se tinha oposto à sua declaração de governo no início de Dezembro de 1932 quando von Papen era ainda Chanceler – ou até, mais provavelmente, se se tratava de uma tentativa ambiciosa para provocar o seu regresso a um cargo de alta responsabilidade. Von Papen tentou afirmar que, ao procurar um acordo com os nazis, tinha unicamente agido no interesse do país e do governo que, na sua opinião, estava numa situação muito complicada, afirmando que ele não poderia continuar por mais tempo a manter os nazis longe de poder. No entanto, o facto de que von Papen tenha tomado essa iniciativa tendo uma incidência política de tão grande impacto sobre o governo, sem ter informado e sem consultar o chanceler von Schleicher, representa uma violação das regras mais elementares de lealdade. É claro que é apropriado falar aqui de uma verdadeira difamação política e de grande estilo se considerarmos em simultâneo ambas as reivindicações altivas de von Papen feitas pela sua suposta qualidade de liderança de governo e se também levarmos em consideração as consequências da discussão sorrateira que teve lugar em Colónia.
(continua)
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Ver o original em:
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Para ler a Parte I deste trabalho de Woyzeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
KURT VON SCHLEICHER: A ÚLTIMA POSSIBILIDADE DA REPÚBLICA DE WEIMAR CONTRA HITLER – por WOYZECK – I


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