Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Kurt Von Schleicher : A última possibilidade da República de Weimar contra Hitler (5)
Woyzeck, Kurt Von Schleicher : la dernière chance de la République de Weimar contre Hitler
L’Espoir, 28 de Junho de 2014
(CONTINUAÇÃO)
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A 6 de Janeiro, Otto Braun e von Schleicher tiveram uma longa discussão juntos. Braun era então Ministro-Presidente destituído da Prússia desde o golpe de estado “prussiano” de 20 de Julho de 1932, embora ele mantivesse ainda oficialmente a sua posição dado que o Tribunal Constitucional Federal tinha-o confirmado nos seus direitos soberanos no exercício do seu posto numa decisão de Outubro de 1932.
Braun diz-nos nas suas memórias que o Chanceler, então, começava a sentir claramente o peso e as preocupações relacionadas com o exercício do seu cargo. Von Schleicher ter-lhe-ia confiado que ele não se sentia muito bem na Chancelaria e que pensava retirar-se na primavera na «Bendlerstrasse», o que significava querer voltar para o Ministério da Defesa.
Após essa conversa com von Schleicher sobre os contornos da situação política de então, Braun apresentou-lhe uma proposta concreta. Ele fez-lhe essa proposta , de acordo com as suas próprias palavras, ” em consideração de certas dúvidas de ordem pessoal e política”.
Aqui está a proposta: “Revogue o regulamento imperial relativamente ao Comissário do Reich na Prússia (nota do Tradutor: Regulamento que tinha retirado a Braun os seus poderes para um Comissário do Reich).» Então, sem consideração pelo meu estado de saúde assumirei novamente e com firmeza as rédeas do poder. Dissolva o Reichstag, eu então dissolverei o Landtag (nota do Tradutor: Parlamento regional sob a República de Weimar). Nós ganharemos as eleições até à primavera seguinte pois governaremos entretanto por decreto e faremos frente comum na luta contra os nacional-socialistas.
Estes já perderam quase 2 milhões de votos nas eleições de Novembro de 1932, eles atingiram o seu nível de clímax e agora estão já em declínio. Temos necessidade de uma última e forte pressão para lhes preparar uma esmagadora derrota nas próximas eleições na próxima primavera. Porque um movimento político, tão profundamente oco, impulsionado por tanta demagogia, formado e liderada principalmente por um conjunto de desesperados e oportunistas de todos os tipos, alimentados por um financiamento oculto, afunda-se tão rapidamente quanto rapidamente prosperou, desde que sofra uma derrota e que os financiamentos não os acompanhem nas suas necessidades crescentes.
A partir do momento em que o espectro nacional-socialista seja exterminado, teremos os parlamentos a funcionar e poderemos ser capazes de enfrentar os graves problemas que temos pela frente e tanto mais quanto a crise económica parece ter chegado ao seu ponto máximo e que já vemos sinais de alguma melhoria económica. »
Von Schleicher soube honrar esta oferta sincera e corajosa por parte deste político social-democrata. Von Schleicher anunciou que o Presidente do Reich Hindenburg não aceitaria a revogação do Regulamento imperial relativo ao Comissário do Reich na Prússia, nem uma qualquer dissolução imediata do Reichstag. Braun, propôs então, em conjunto com o Chanceler, tentarem os dois convencer o Presidente do Reich da necessidade de tomar essas medidas.
A suposição de Braun segundo a qual von Schleicher teria podido recear a sua grande tarefa no caso do restabelecimento da soberania governamental na Prússia não é muito verosímil.
Em primeiro lugar, parece estranho quando lemos as obras de Rheinbaben dedicadas a von Schleicher, que von Schleicher tenha tido em grande consideração esta oferta de Braun para em seguida não a ter aprofundado mais, por estar afogado na gestão da enchente de assuntos a tratar pelo Governo. Aparentemente, von Schleicher acreditava ter que esperar ainda pelo desenvolvimento de alguns assuntos e tanto mais quanto a realização, total ou parcial, da proposta de Braun não foi estava ligada à sua gestão imediata no executivo e que ele a poderia reservar para mais tarde. Sem a isso ser forçado, von Schleicher recusou desviar-se da sua política de erosão e de irritação contra o partido nazi que estava, então, numa situação desconfortável, o que representava estar antes de mais a ganhar tempo.
Isso foi-lhe censurado na altura por alguns, como Zehrer ou outros membros do seu círculo privado, e mesmo por certos colaboradores, que interpretaram a sua estratégia como um sinal de uma certa incapacidade em tomar decisões. Só apenas muito mais tarde é que se reconheceu que esta táctica teria muito bem podido conduzir ao sucesso esperado, se esta não tivesse sido destruída mais tarde pela ingerência de von Papen e por aquele que von Papen cortejava tanto, o marechal Hindenburg.
(continua)
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Ver o original em:
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Ver a Parte IV deste texto de Woyzeck, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
KURT VON SCHLEICHER: A ÚLTIMA POSSIBILIDADE DA REPÚBLICA DE WEIMAR CONTRA HITLER – por WOYZECK – IV




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