BISCATES – A raiz do mal – Coitado do Profeta – por Carlos de Matos Gomes

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Os assassinos de Paris e do Charlie Hebdo disseram ter agido para reparar as ofensas ao Profeta! É uma estupidez: o dito Profeta não está em condições de ser ofendido e, menos ainda, de exigir reparações. O que os jornalistas do CH faziam e pelos vistos vão continuar a fazer era e será expor o ridículo dos seguidores do Profeta, as insanidades que proferem e praticam em nome do Profeta, os crimes que cometem em nome do Profeta, as fortunas que alguns fizeram em nome do Profeta, os luxos obscenos dos que vivem à custa do Profeta.

Afirmam alguns crentes portadores de várias especialidades da fé, tolerantes e bem intencionados, que os do CH ofendiam o sagrado dos seguidores do Profeta ao caricaturem Maomé. E daí? Porque não haviam de o caricaturar se, para eles, Maomé era um mercador árabe que aos quarenta anos apareceu em casa a contar a extravagante história de lhe ter aparecido um anjo que o transformou num vidente declamador de versos enviados por Deus?

É compreensível o mal-estar dos crentes de qualquer fé perante as caricaturas do CH, porque elas os confrontam (e aos fiéis de qualquer religião) com uma verdade insuportável: a de que o sagrado não passa de uma fantasia do medo. O sagrado é o medo fantasiado de esperança em vencer a morte, a dor, a injustiça. Em vencer os males do mundo. O sagrado é a forma que os homens encontraram para enganarem a realidade. A irracionalidade do sagrado resulta da impossibilidade de explicar e aceitar que todos vivemos para morrer, e que a vida é uma luta violenta e definitiva pela sobrevivência. É por termos muito medo da realidade do fim que aceitamos o ridículo das fantasias do sagrado que nos explica o aparecimento do mundo e dos deuses. O Genesis, a criação do homem do barro, da Eva da sua costela são tão pueris como a do nascimento de um deus de uma virgem, ou de um profeta receber versos de deus trazidos por um anjo, numa primitiva versão da DHL! O facto de milhares de milhões de seres humanos estarem dispostos a acreditar nestas fantasias e, pior, de haver milhares dispostos a matar por elas e poucos a olhá-las de frente e a retratá-las a traço grosso não faz delas verdade, nem respeitáveis, ou mais respeitáveis que qualquer fábula.

Sem preconceitos, os jornalistas do CH desenham um pobre homem que apareceu a recitar versos que dizia terem sido escritos por Deus e trazidos por um anjo chamado Gabriel quando estava num monte a meditar sobre a vida. O louco da aldeia, ou um tipo que bebeu demais. Que outros o tenham tomado como o seu profeta não faz dele mais do que é. Pela mesma noção de respeito também o bispo Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da TV Record mereceria igual veneração, nada de o mostrar nos seus palácios de Miami. Nada de ofensa ao milionário brasileiro que tem milhões de crentes a pagar o dízimo. E o mesmo quanto a Nana Kwaku Bonsam, um vivaço de 40 anos, do Gana, considerado o maior feiticeiro da África Ocidental, que lançou nos Estados Unidos um projeto para modernizar os ensinamentos da religião tradicional africana, passando a divulgá-los pela internet, com direito a reportagem no New York Times. Já tem mais de 1700 pastores para a “ajuda espiritual”. Casado pela terceira vez (fica a perder para Maomé, que teve 16 mulheres, 2 escravas concubinas e mais 4 que lhe satisfaziam os desejos sexuais), já tem 14 filhos (9 deles adotados) e coordena um império religioso, formado por uma rede de templos e uma escola de feiticeiros, além de casas, carros e uma fazenda de gado em seu nome. Também ele merecedor do maior respeito para não ofender a fé dos seus seguidores. E o Belzebu, um anjo que caiu em desgraça, segundo a mesma história, porque poderá ser retratado e sempre com cornos? E o Buda, porque não o poderia os santeiros e pintores sujeitá-lo a uma dieta ou a uma lipoaspiração? Teriam os infiéis de qualquer religião, como os do CH, de se abster de qualquer referência a todos estes santos símbolos? Ninguém os poderia tratar como aldrabões, charlatães, doidos, cornudos, obesos ou apenas tipos que fazem pela vida, sem o risco de ser metralhado?

Criar um interdito – um sagrado – e punir quem o viola (a questão da blasfémia ou do sacrilégio) tem sido o método de todos os poderes totalitários se imporem. Ninguém pode dizer que o rei vai nu. Ninguém pode levantar os olhos à passagem da divindade (ainda hoje é assim nas procissões).

O assassínio dos jornalistas do CH é um crime encomendado sob a forma de vingança divina. Despido do sagrado, foi uma acção à distância, ordenada por alguém bem terreno que queria avisar os seus fiéis de que não podiam nem podem duvidar dos seus poderes. Os assassinos são drones enviados por um poder com objectivos materiais. Sabe-se onde está a base destes artefactos com forma humana, a fábrica que os produz e quem os está a telecomandar. Todos sabem. Mas os donos da fábrica são os aliados que os dirigentes que desfilaram em Paris criaram e alimentaram, a quem vendem os seus produtos mais caros. O cérebro destas metralhadoras humanas do Profeta é frito nas escolas e nos campos de treino sob responsabilidade, patrocínio e financiamento da Arábia Saudita, o grande aliado do Ocidente no Médio Oriente.

Quem não pode caricaturado não é o coitado do Maomé, são os reis da Arábia e os seus clérigos waabitas. Quem não pode ser caricaturado são os que vendem petróleo e compram os arsenais caríssimos que permitem o funcionamento dos complexos militares-industriais dos EUA, da França, da Inglaterra, os Mercedes da Alemanha, as mulatas brasileiras, as loiras eslavas… Coitado do Profeta que tais crentes tem…

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