EDITORIAL – Debater ideias, em vez de as querer impor-

Imagem2Não falaremos hoje sobre o chumbo parlamentar de ontem  dos projectos de lei que visavam a legalização de os casais gay adoptarem crianças, projectos do Bloco de Esquerda, dos Verdes e do PS. Pensamos ser um tema que justifica a abertura de um forum, de uma discussão aberta e sem o recurso a ideias feitas, a chavões homofóbicos e, no pólo inverso, a princípios do “pensamento único” e do “politicamente correcto”. Nesta matéria, tão sensível por ter como objecto a vida de crianças, nada é óbvio – só o é para quem parte para a abordagem de um problema com “certezas” e “ verdades” que apenas o são para quem não quer debater ideias, mas impor a sua subjectividade. Generalizou-se um comportamento integrista que seria urgente erradicar – lançar anátemas sobre quem pensa de maneira diferente, é uma forma cómoda de não pensar – tudo é discutível, menos o direito que todos têm ao livre pensamento.

Nesta votação, ficou bem clara a dissonância que divide os grupos parlamentares. Os temas verdadeiramente importantes, os que têm a ver com a vida das pessoas, percorrem transversalmente toda a sociedade e dificilmente se enquadram em esquemas partidários. E recordamos as palavras de Agostinho da Silva: Eu não voto por rótulos. […] Eu não quero saber das campanhas eleitorais para nada. Eu quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar. […] Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as «tuas» ideias políticas, não as ideias do teu partido; o «teu» comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de «toda» a Humanidade, não os interesses de uma «parte» dela. E lembra-te de que «parte» é a etimologia de «partido».

Temos defendido por diversas vezes este conceito – o papel dos partidos políticos deveria ser o de informar e educar politicamente os seus militantes. Quando se confia aos partidos a missão de representar a parte do eleitorado que leva ao parlamento os seus deputados, estes quebram o contrato que estabeleceram com os cidadãos e seguem as directrizes partidárias. Num certo sentido, democracia representativa, não é democracia – e aqui temos outro tema digno de ser debatido.

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