A CHACINA SOBRE CHARLIE HEBDO NO CONTEXTO DA CRISE EUROPEIA – 8. ATENTADOS ISLAMITAS: A MOBILIZAÇÃO SÓ AGORA COMEÇOU. DA UNIÃO SAGRADA À TOLERÂNCIA ZERO – por GIL MIHAELY

Charlie_Hebdo_logo_svgSelecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A chacina sobre Charlie Hebdo no contexto da crise europeia.

Atentados islamitas: a mobilização só agora começou

Da união sagrada à tolerância zero

Gil Mihaely, Attentats islamistes: la mobilisation ne fait que commencer. De l’union sacrée à la tolérance zéro.

Revista Causeur.fr., 12 de Janeiro de 2015

charlie hebdo - V *Photo : SEBASTIEN SALOM-GOMIS/SIPA. 00701436_000003.

É todo um  símbolo, repetiram em coro os comentadores  sobre as  palcos, ver o Palestino Mahmoud Abbas e o Israelita o Benyamin Netanyahou à distância de   alguns  metros um do outro, na primeira fila do cortejo dos chefes de Estados. Estes dois homens encarnam perfeitamente a união consagrada nascida  dos “Três terríveis” dias que acabámos de  viver: um comunhão na emoção, por conseguinte extremamente frágil, que esconde divisões profundas. Todos nós acabámos de receber um forte murro na barriga,  todos nós nos sentimos mal. Mas nós não estamos  de acordo sobre a identidade do inimigo, e ainda menos sobre a marcha  a seguir para pôr fim a este desfilar  de violência e de ódio. Sobre este ponto, os Franceses não estão mais  unidos  que Netanyahou e Abbas.

Para tanto, tão precário que  seja este momento de graça e de comunhão, numerosos Franceses gostariam de viver outros bem semelhantes e mais frequentemente. Ora, o desafio lançado pelos terroristas islamitas que  nos atingiu duramente em  7, 8 e 9 de Janeiro, exige não somente que se  tomem  rapidamente medidas de segurança, mas também que se ponha em questão  o funcionamento da nossa sociedade.

No que respeita à dimensão securitária, a primeira lição a tirar é a necessidade de reforçar, ou mesmo de refazer  o nosso dispositivo de protecção contra os atentados. Certamente, trata-se de apoiar os nossos serviços de informação para lhes dar  os meios para impedir as passagens à acção. Mas o novo terrorismo é infelizmente muito mais rudimentar, por conseguinte,  mais difícil de detectar, que os seus precursores que se sucederam desde os anos 1960. Consequentemente, é necessário que as forças defensivas disponíveis sobre o terreno todos os dias – polícias, gendarmes, guarda-costas  – estejam  em condições de agir a partir dos primeiros segundos, neste muito curto lapso de tempos que faz a diferença entre um incidente e uma catástrofe nacional, ou mesmo mundial

Não é por falta de coragem: o polícia do Serviço de protecção das altas personalidades encarregado da protecção próxima  de Charb, como o seu colega caído sob as balas dos irmãos terroristas depois de  ter disparado  sobre eles, coragem não lhes faltava. Infelizmente, nem um nem o outro puderam  alterar o curso da história. Tudo deve ser posto em prática de modo a que, no futuro, tais encontros de azar  entre os representantes armados do Estado e os terroristas tenham uma qualquer outra saída. Façamos ao menos de forma a  facilitar a tarefa  do RAID ou GIGN,  unidades de muita elevada  qualidade que por definição chegam muito tarde aos locais. Isto  supõe muitos meios, muitos  esforços, equipamentos e treino, mas não temos outra escolha.

Resta-nos a questão mais difícil: como passar de um combate contra os mosquitos à drenagem metódica dos pântanos. A única maneira de o conseguir  é convencer os Franceses muçulmanos a efectuarem a sua autocrítica de modo a que ninguém nunca mais se sinta legitimado a  cometer actos terroristas em nome do Islão. Ora, hoje, uma minoria demasiado importante entre os muçulmanos da França tem-se estado a mostrar exageradamente compreensiva em relação aos assassinos. Eles são  demasiado numerosos a pensar que Charlie “o tinha  efectivamente estado a pedir”, que o 11 de Setembro é apenas uma conspiração da Mossad, que Merah é um herói. Há um terreno próprio, sobre o qual crescem aqueles que acabam por passar aos actos terroristas.  A escola republicana não nos salvará se as famílias, os vizinhos, os meios nos quais crescem as crianças muçulmanas na França não forem  republicanos.

Por último, será  necessário levar a sério o termo “de guerra”. Se, numa guerra, a primeira vítima é a verdade, a segunda é a liberdade. Se quisermos vigiar  5.000 djihadistas, prevenir atentados e impedir os meios de comunicação social de  fornecer preciosas informações aos terroristas como se viu nestes últimos dias, será  necessário resolver-se a limitar a liberdade de informação.

Para que a formidável expressão de  energia nascida no  Domingo se transforme  em estado de espírito duradouro e em  políticas nacionais perenes, é necessário enfrentar um debate doloroso, encontrando ao mesmo tempo a força de ultrapassar a discórdia que se sucederá necessariamente à união nacional. Respeitar e ouvir os que não pensam como nós, responder aos argumentos por argumentos: no fim dos fins, é isto  a República.

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Ver o original em:

http://www.causeur.fr/manifestation-charlie-hebdo-securite-31029.html

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