O INSUSTENTÁVEL PESO DO NADA – por Paulo Rato

INTREVISTA DE UM JORNALISTA IDIOTA A UM PROFESSOR TARALHOUCO, PRESIDENTE DE UMA ENTIDADE FANTASMAGÓRICA, DESIGNADA POR CGI (DE ALGO NÃO IDENTIFICADO), TRANSMITIDA NO DIA 21 DO CORRENTE, NA RTP INFORMAÇÃO

Ontem, durante uma hora, aguentei, penosamente, mas em nome da ciência e do saber, o que me pareceu ser um documentário de divulgação científica sobre a prova experimental de como a intersecção orbital (fenómeno para o qual, não se tratando, logicamente, de uma verdadeira entrevista, ouso propor a designação de “intrevista”) de dois asteróides de estupidez produz o vazio absoluto, com total absorção de qualquer forma de matéria ou energia, mesmo negras, enfim: o NADA.

Apresentado sob a forma de entrevista, o referido documentário colocava em rota de colisão um simpatizante (Baptista Bastos dixit) de jornalista, Vítor Gonçalves, e o professor António Feijó, presidente de um órgão ectoplásmico, que o referido simpatizante designou por Conselho Geral Independente da Televisão Pública, que é cousa que não existe. Esta apresentação desvendou de imediato a nulidade intelectual do suposto jornalista de uma empresa de serviço público, comummente designada pela sigla RTP, que significa, já há uns bons anos (mas o Vítor não sabe e deve pensar que não lhe compete saber), “Rádio e Televisão de Portugal”, empresa que – mais mal que bem, mas isso são outras contas – resultou da fusão da RDP (Radiodifusão Portuguesa) com a RTP (Radiotelevisão Portuguesa). Claro que a confusão tem origem numa invencionice marquetingueira, mal pensada, como quase tudo o que é parido no reino do marquetingue. No entanto, se o tal Vítor fosse mesmo jornalista, saberia (pelo menos!) o nome da empresa em que trabalha. Como seria de esperar, o senhor professor-presidente do mitológico órgão não emendou a asneira, provavelmente por também não ser capaz de descodificar tão complexo criptograma. Aliás, nunca, no programa, foi proferida a palavra “rádio”, nunca a qualquer dos interlocutores ocorreu a existência deste sector da ReTdeP (é assim que eu insisto em escrever, para que o cidadão comum, que não é jornalista nem académico, nem mesmo simpatizante, não caia no erro – previsível por qualquer ser pensante – que assinalei). E o professor-presidente, de cujo recheio mental retive apenas uma fixação obsessiva na expressão “é muito simples”, perfeitamente adequada, de resto, à ausência de nexo do seu discurso, apenas se referiu a “espectadores” e a “audiências” (cuja origem etimológica há muito se perdeu na discursata dominante): jamais a “ouvintes”.

Sublinhe-se, a propósito, como esta notável construção dos objectos da experiência permite a fácil caracterização dos asteróides nela utilizados, tornando-a evidente para a generalidade do público.

Ora, ao consultar a programação da RTP Informação, pensara eu que iria assistir a uma entrevista real sobre o que se passa, actualmente, na empresa de serviço público DE RÁDIO E TELEVISÃO, empresa a que dediquei a minha vida profissional (na vertente radiofónica, antes e depois da malfadada fusão), cujos Conselhos de Opinião (da RDP e da RTP,SGPS) integrei, além de ter exercido funções de representação dos trabalhadores, em CTs e no seu sindicato maioritário. Pelo que, sendo essa entrevista sobre um tema pelo qual me interesso particularmente, imaginei estar agora ocupado em analisá-la.

Mas isso foi antes de me aperceber de que, quiçá por erro de coordenação ou de redacção da sinopse, o horário previsto fora ocupado por um programa de divulgação científica, dedicado a um fenómeno ainda praticamente desconhecido da respectiva comunidade e de difícil apreensão para os leigos.

Vejo-me, portanto, sem assunto para comentar, dado que perguntas e respostas não passavam de elementos de uma experiência, cujo produto final, como ficou brilhantemente provado, é o VAZIO.

Não posso dizer que o documentário me tenha desagradado, pois adivinha-se que as implicações deste revolucionário resultado não se ficarão apenas pelas ciências, antes se estenderão à própria filosofia.

Mas tenho de manifestar a minha insatisfação pelo erro de programação do canal e pelo facto de ninguém se ter apercebido do que estava a acontecer, embora admita que se trate de uma consequência da escassez de trabalhadores, decorrente da acumulação de “reestruturações”, sempre traduzidas pela dispensa de profissionais, cujo volume de trabalho vai sendo chutado para os poucos que restam, o que inapelavelmente se reflecte na qualidade de tudo o que integra o serviço público que a empresa prestava e que, hoje em dia, já foi possível impedi-la de prestar, de acordo com os mais profundos anseios dos actuais governantes e perante a indiferença acéfala dos parlamentares que os apoiam.

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