O exército dos arruaceiros ao serviço do mercado toma posições estratégicas no campo de batalha, como já todos demos por isso, mas está apenas a aquecer os motores dos blindados, a distribuir os mísseis pelas zonas de tiro, a disfarçar as suas “enolagays” nos bojos dos bombardeiros. A ofensiva trauliteira contra o povo da Grécia, em boa verdade contra todos os povos da Europa, está em marcha mas longe ainda de revelar as capacidades da parafernália que os seus generais em Bruxelas Berlim e Washington guardam no arsenal de chantagens e malfeitorias. Tudo em nome da democracia, pois então.
Os gregos vão escolher o seu Parlamento, nada mais natural em democracia. E, segundo as sondagens, desta vez preferem um partido que não pertence ao famoso “arco da governação”, a bendita coligação entre socialistas e as direitas – se forem fascistas, encapotados ou não, cada vez há menos problemas nisso – que vai tomando o lugar dos partidos únicos de outros tempos.
O Syriza, partido da “esquerda radical”, que no espectro político grego se coloca entre os socialistas e os comunistas mas cujo programa de governo pode considerar-se social- democrata, que não se veja nisto qualquer ofensa, é o grande favorito das eleições gregas. Sem maioria absoluta, o que o obrigará a negociar coligações, para as quais se manifesta absolutamente disponível. Nada que ofenda a democracia, portanto.
Ninguém como o povo grego conhece tão bem as razões para esta inclinação, embora todos saibamos quais são. Nos anos mais recentes, a pretexto de uma dívida soberana elevada, a Grécia foi vítima da mais trágica guerra humanitária provocada por um regime de democracia formal, obedecendo a instâncias europeias e mundiais, todas elas invocando as necessidades do intocável Mercado. E os gregos, pelos visto, fartaram-se. Dizem as sondagens que vão votar para serem governados por outra gente. Como é próprio da democracia, não é?
Deveria ser, mas deixou de ser. Entre as previsões das sondagens e as “necessidades” do Mercado percebe-se que chegou a hora do primeiro choque exemplar entre a democracia e o Mercado, entidade que só tolera a democracia enquanto a democracia lhe servir. O Syriza não é anti-democrático, não é sequer anti-europeísta, não come criancinhas, não injecta os velhinhos atrás da orelha, aliás quem se ocupou de arrasar esses sectores da sociedade e todos os outros, nos últimos anos, foram os socialistas, os seus parceiros das direitas e, claro, essas coisas ungidas pela modernidade que são os tecnocratas.
O Syriza não põe em causa a democracia; o que põe em causa, pela primeira vez na União Europeia, é o regime vocacionalmente totalitário instaurado através de mecanismos ilegítimos pelo sistema neoliberal, a versão mais selvagem do capitalismo. Na Grécia não é a democracia que está sob ameaça, o que surge por detrás das sondagens é a denúncia dos resultados nefastos provocados pelo regime de anarquia capitalista imposto, em nome de uma democracia subvertida, por uma corte de dirigentes políticos amestrados e pelos gangs da corrupção, sustentados pelo coro dos papagaios da propaganda a que chamam comunicação social. Por isso, a vontade que parece ser maioritárias entre os gregos – e já o foi nas eleições europeias do ano passado – transformou-se numa causa de todos os europeus, de todos os cidadãos do mundo fartos de serem tratados como escumalha, como escravos de novo tipo. É um desafio exemplar, alguma vez teria de chegar e chegou na Grécia, por ironia – ou talvez não, quem sabe? – considerado o berço da democracia.
As máscaras que cobrem os defensores de uma democracia pervertida vão caindo e no domingo, caso se cumpram as sondagens, começará uma nova fase da guerra do Mercado contra a democracia, a fase em que os resultados de umas eleições legítimas e normais serão considerados errados porque contrariaram o que Mercado pretendia. Hoje ouvimos políticos sibilando ameaças entre dentes, pivots de telejornais atroando os ares com profecias macabras para a Grécia e a Europa, recebemos cartas dos bancos advertindo-nos para o mau exemplo grego e aconselhando-os a fazer tudo para que a maleita não se torne contagiosa. Renegociar a dívida? Defender os direitos das maiorias, mesmo que sejam os mais elementares direitos humanos? Terrível! Subversivo! Anti-democrático! Afinal o Mercado só quer a democracia, isto é, o seu dinheiro de volta, e com juros criminosos, doa a quem doer porque democracia, a sua democracia, é coisa do dinheiro, não das pessoas.
Por isso andam pirómanos políticos à solta e, se até lá a chantagem não triunfar, a partir de domingo vamos identificá-los sem disfarces, e nem precisaremos de tirar cursos acelerados de Sherlock Holmes.