CARTA DE PARIS – Menezes Ferreira – tenente na Grande Guerra – III – por Manuela Degerine

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Menezes Ferreira verifica, quando regressa a Portugal, o desinteresse não só pelos sobreviventes do CEP[1], seu sofrimento na guerra, suas consequentes dificiências, mas também pelas viúvas, pelos órfãos dos que foram mortos, por isso vai dispersando no texto, aqui e ali, frases pouco explícitas nas quais insinua o que não pode mais claramente desenvolver:

“o seu esforço nos campos de batalha tão ingratamente esquecido por uns, tão miseravelmente apoucado por tantos”[2]

“aquele português que nas horas difíceis tudo fez para maior glória da Pátria e a quem muito esqueceram, chegada hora dos benefícios e compensações”[3]

“perdidas todas as esperanças de seres rendido nas “trinchas”, abandonado pelos egoístas da tua terra, esquecido de todos”[4]

“é, porém, quasi sempre esquecido nas terras de Portugal”[5]

“perante a Ingratidão Humana”[6]

Há nestas frases uma repetida (e voluntária) imprecisão. Quem são os ingratos que esquecem e apoucam os soldados do CEP? Quem são os que “muito esqueceram”? Quem são os “egoístas”? Quem é responsável por “todos” esquecerem? Quem esquece “quase sempre” o soldado? Notemos a repetição do verbo “esquecer”. Quem encarna toda esta “Ingratidão Humana”? Para bom entendedor, meia palavra basta… A Nação portuguesa decerto, através dos seus dirigentes: dos deputados aos presidentes.

(Continua)

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[1] CEP: Corpo Expedicionário Português.

[2] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, 2ª edição, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, p. 14.

[3] Idem, p. 14.

[4] Idem, p. 26.

[5] Idem, p. 43.

[6] Idem, p. 58.

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