Leigos católicos de todo o país, certamente, também leigas católicas, porventura, até mais leigas do que leigos (o título da convocatória não o diz), encontram-se este sábado, 24, no edifício da Alfândega, Porto. De positivo, dois pormenores. 1, Nenhum bispo figura entre as oradoras, os oradores convidados. 2, O encontro decorre num espaço laico, não, por exemplo, na Casa Diocesana de Vilar. Duas opções, ou simples coincidência, que são de saudar. Surpreende, ainda assim, e pela negativa, que a conferência de abertura, com a presença de todas as pessoas inscritas, tenha sido confiada ao filósofo-teólogo, Fabrice Hadjadjd, membro do Conselho Pontifício para os leigos. Se o encontro é nacional, não europeu, menos ainda, mundial, melhor seria que esta conferência de abertura, fosse confiada a uma leiga, um leigo do país, dois-num-só, especializados em antropologia e com provas dadas de serem “fermento na massa”. A temática do encontro, “Recolocar o Homem [e a Mulher, certamente] no centro da sociedade, do pensamento e da vida”, assim o exigia, exige. Só que não foi esta a escolha, porque, analisado mais ao pormenor, constata-se que o Encontro nacional é de leigas, leigos, sim, mas apenas de elite, uma mão-cheia de nomes sonantes, por isso, manifestamente, erudito, teórico-doutrinal, pouco ou nada terra-a-terra, todo ele passado a pairar sobre a realidade, quando a urgência, hoje, é mergulhar na realidade e transformá-la de dentro para fora. Sem receio dos inevitáveis e saudáveis conflitos sócio-políticos-eclesiáis que semelhante opção pastoral sempre desencadeia.
São seis, os ateliers ou oficinas, em simultâneo, com início a partir do meio-dia, com pausa para almoço (12,50€ por pessoa). Tudo muito a correr, porque, às 17 horas, para cúmulo, na soturna igreja de S. Francisco, não no próprio edifício da Alfândega, já terá início a missa de encerramento, pelos vistos, inevitável, neste tipo de encontros eclesiásticos. De leigas, leigos que se digam, como este se diz. Ora, quem diz, Missa, diz coisa de clérigos, não de leigas, leigos, para mais presidida, como esta vai ser, pelo Bispo D. António Taipa, Auxiliar do Porto, quando a CNAL-Conferência Nacional das Associações de Apostolado dos Leigos, conta com a colaboração institucional de um padre assistente. Certamente, para se ocupar de assuntos fundamentais, mas mais discretos, concretamente, o controlo ideológico-moral, no dia a dia da organização.
Entre os palestrantes dos ateliers ou oficinas, contam-se nomes sonantes, como Walter Osswald, médico, prof universitário aposentado, com cátedra de bioética da Unesco; Bento Amaral, enólogo, campeão para-olímpico; José Souto Moura, juíz conselheiro no STJ; Joana Araújo, investigadora, vice-presidente ddo Instituto de Bioética do Porto; Raquel Vaz Pinto, profª universitária; Pedro Mexia, escritor; Maria de Lurdes Correia Fernandes, profª universitária; Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014; Luiz Macieira Fragoso, almirante, chefe do Estado Maior da Armada. Tudo pessoas, cujo quotidiano está longe de ser de aflição, como o da grande maioria da população portuguesa. Facilmente, se apreende, deste rol de personalidades, que a erudição/retórica, será muita, os frutos traduzidos em transformação da sociedade, serão poucos, ou nenhuns. Uma pena. Pura perda de tempo.
Coisa que ninguém das, dos participantes estranhará, pelo contrário, porque de leigas cristãs, leigos cristãs, com um viver quotidiano de privilégio, não se pretende obter quaisquer frutos, a não ser sair deles com mais nome, mais privilégios, mais oportunidades de subir na vida, de abrir portas, porventura, antes fechadas. O mesmo é dizer, Fazer figura, marcar a agenda e, porventura, ter direito a um directo ou pequena reportagem, nalgum dos 4 canais generalistas, pelo menos, nalgum dos três canais de notícias. Assim vai a igreja católica em Portugal. Inclusive, ao nível das leigas, dos leigos. Discursos, muitos, frutos de transformação do ser-viver das pessoas/sociedade e das estruturas económicas e políticas de pecado institucionalizado, nenhuns. Lá se iriam, água abaixo, os privilégios deste tipo de leigas, leigos, cooperadores dos clérigos de proa!.