CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR EXPLICA-SE – por João Machado

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Meu caro amigo, quero que fique tudo claro entre nós. A sua ajuda para mim é indispensável. Os nossos contactos já duram há quase um ano, e para mim são preciosos. Tenho melhorado muito graças a si. E quero merecer toda a sua confiança. Deixe que lhe diga o seguinte: os seus conselhos são preciosos. Mas não percebo a sua censura. Acha mal que continue a “dar-me” (chamemos assim ás visitas que faço de vez em quando ao andar de cima) com a Maria Antónia. Não acha bem que me “dê” com a Maria da Luz, e continue a “dar-me” também com a Maria Antónia. Acha então que devia deixar de “visitar” uma delas. E acha que devia ser a minha vizinha.

Não percebo porque diz isso. Se posso fazer assim, porque hei de fazer de outra maneira? Acha pouco honesto, já percebi. Mas eu não tenho nenhum compromisso com a Maria da Luz. Vou-lhe ser muito franco: acho que ela não se quer casar comigo, nem nada de parecido. Nunca quis entrar muito a fundo no assunto. Estou muito contente por ela se dar bem com a minha mãe, gosto muito dos pais (são tão simpáticos comigo! E com a Heloísa!!), mas creio que já lhe disse ter percebido que a ideia de vir a viver na mesma casa connosco não a entusiasma. E já agora, vou-lhe dizer mais uma coisa: eu também não quero sair daqui da rua de Santo Ambrósio, e deixar a minha mãe sozinha. Digo-lhe mesmo que nem quero pensar nisso.

Fala-me da Natália, de ter querido ir viver com ela. É verdade, mas isso já foi há tanto tempo. Talvez há mais de quinze anos. Fiquei muito chateado na altura (desculpe, devia ter dito muito aborrecido. Acredite que não gosto nada de falar de modo rude). Mas hoje já não sei se teria feito bem. Penso mesmo que teria sido mau para mim deixar a minha mãe. Já pensou em como ela teria ficado?

Já sei o que vai dizer. Aliás já mo disse várias vezes. Há alturas na vida em que é preciso avançarmos. Que eu devia ter uma vida autónoma, e que a Heloísa acabaria por se habituar. Que ela até gostaria de ter netos, coisas assim. Pois sim…

Vou contar-lhe uma coisa. Há para aí uns quatro anos fui lá baixo à avenida, a uma loja de móveis, buscar duas cadeiras que tínhamos comprado, para a nossa sala. Só tínhamos quatro, e a Heloísa pensou que, um dia, poderíamos precisar de mais. De modo que passou na loja, escolheu as cadeiras, e disse-me para as ir buscar. E eu lá fui. Peguei nas cadeiras, que ainda pesavam (sabe que não sou muito dado a fazer força), e vim de volta. Ainda na avenida, já estava um bocado cansado, parei e sentei-me numa das cadeiras, a recuperar, e então passa um miúdo, aí de uns seis anos, com um ar maroto. Imagine que resolveu sentar-se na outra cadeira. Disse-lhe para se ir embora, ele olhou em frente, e levantou-se. Olhei eu também em frente, e vejo uma senhora gorda, com um ar muito cansado, com uma menina ainda mais nova que o garoto pela mão. Ela, por sua vez, olhou para mim, muito fixamente, e disse:

– Zezinho, anda-te embora! – Isto com uma voz forte e zangada. De tal modo, que as crianças ficaram a olhar para ela, espantadas.

Levantei-me e balbuciei:

– Natália!

Ela foi-se a toda a velocidade, arrastando os miúdos, avenida acima. Nem olhou para trás. Mas… como lhe hei de explicar? Sabe, durante muitos anos, a lembrança da Natália vinha-me à cabeça, no dia em que nos separámos, e ela arrancou, também pela avenida acima, muito direita, a olhar em frente, com certeza que para que eu não lhe visse as lágrimas. Mas o que me lembrava sempre, era de como as pernas dela eram bonitas e bem torneadas. Que ela tinha umas pernas que me punham fora de mim, sempre que nos encontrávamos. E neste dia, em que a encontrei com as crianças, reparei que as pernas dela estavam pelo dobro, e bastante inchadas. Fiquei aterrado. Como tinha sido possível uma modificação assim?

Não ralhe comigo. Vai dizer que é de um grande egoísmo e muita superficialidade, só dar valor a uma rapariga, com quem até quis ir viver e casar, apenas em função da beleza das pernas. Mas que quer?

Imagine que a Maria da Luz daqui a uns tempos também fica com as pernas assim? E ela, que não é muito nova, conforme já lhe contei.

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