Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
FRANÇA: A GRANDE ILUSÃO
Sucesso da operação «mobilização sideração » da opinião
Raoul Fougax e Jean Ansar, LA GRANDE ILLUSION – Succès de l’opération «mobilisation sidération» de l’opinion
Revista Metamag, 12 de Janeiro de 2015
A prova mais uma vez foi apresentada. O sistema incapaz de defender o país e os seus cidadãos é muito forte a defender-se a si-mesmo e atribuir-se a si próprio um papel bonito. É evidente. Contudo, o sistema sai reforçado com a mobilização popular.
Ter-se-ia podido pensar o contrário. Ter-se-ia podido pensar que este desencadear do sangrento ataque terrorista seria atribuído aos que dele são largamente responsáveis: a classe politico-mediática. Porque este terrorismo é o fruto, todo ele e mesmo assim, do malogro total do controlo da imigração o que levou à islamização crescente da sociedade acompanhada de uma radicalização terrorista.
Ora, é o contrário que se produziu, em todo caso a nível da mobilização popular que foi visível e impressionante. Uma parte do povo francês desfilou sob as palavras de ordem dos valores da esquerda ideológica. Poderia haver uma marcha nacional anti-terrorista não, esta foi uma marcha republicana, subentendida uma marcha dos valores da república da esquerda universalista. Podem-se notar já diversas consequências.
O presidente François Hollande também participou. Teve, é verdade, um comportamento sem erros, o que é objectivamente notável. O homem dos 12 a 16% tornou a ser o Presidente. Era assobiado, é agora ovacionado pelo povo de esquerda e mesmo para além deste. Isto muda tudo, politicamente. A Frente Nacional sem ser diabolizada foi, no entanto, marginalizada. O que triunfou, foi a vontade de mostrar uma unidade nacional que aceite com efeito, embora dizendo o contrário, o comunitarismo. Os meios de comunicação social afixaram uma preferência islamita judaica evidente por detrás de um unanimismo hipócrita. Fez-se tudo para transformar em heróis o polícia árabe e o herói maliano e muçulmano do supermercado casher. Pôs-se igualmente em evidência as vítimas judaicas. O comunitarismo foi igualmente celebrado em nome da unidade nacional, impondo-se a imagem duma França diversa e diferente, era o grande desfile do grande ajuntamento de facto aceite e celebrado.
Mas o exercício tem os seus limites
A evidência mais óbvia é a de que tudo se concluiu na grande sinagoga pelo discurso aos judeus franceses de um dirigente estrangeiro, cujo nome suscita ainda o ódio de alguns muçulmanos. Vimos no desfile muitos políticos e chefes de estado, os representantes da Turquia e Qatar, o que é bem revelador da hipocrisia ambiente. Aqueles que financiam o terrorismo islâmico marcharam ao lado daqueles que têm sido incapazes de o controlar.
Todas estas contradições, serão amanhã incontornáveis. Mas ontem uma parte do nosso povo desceu sinceramente pelas ruas em nome de uma visão de liberdade largamente confiscada e impulsionado por uma ideologia mediática. Esta ideologia recuperou um drama para se fortalecer a si-mesma e fazer avançar a sua visão da França. E este foi um objectivo largamente alcançado o que mostra, aliás, o colapso do espírito crítico de um povo que sofre desde há décadas uma sideração do pensamento. Isto é desesperante, uma vez que a estrada para o inferno está cheia de boas intenções.
Os assassinos dos ímpios da Síria, do Iémen ou mesmo franceses gozam completamente com o se passou em Paris e na França. Um desfile de tipo rebanho não mete medo aos lobos. Eles vão continuar como se nada se tenha passado. Tudo isto vai recomeçar se não se tomam medidas politicamente impossíveis de assumir e face aos valores reafirmados, dogma dos dogmas. O crime de blasfémia já não existe para as religiões, com excepção da ideologia anti-racista. É a França que é necessário salvar para além da República confiscada. É por isto, após a grande ilusão, que mais dura vai ser a queda. Mas isto não é certamente uma consolação.
A emoção é compreensível. Quem é não a sentiu e fortemente, por vezes, mesmo que não quisesse? A mobilização também, mas esta sem a lucidez não serve para nada, a não ser para ficar em cena como os pequenos heróis das notícias, realidade mediatizada, fazendo a história por se fotografar e colocar na internet.
Todos bobos, todos charlots, todos Charlie, todos heróis.
O futuro dirá quem realmente foram os manifestantes de indignação recuperada e, provavelmente a ser bem mais revelador, que ficaram contentes de o serem.
Raoul Fougax e Jean Ansar, FRANCE: LA GRANDE ILLUSION -Succès de l’opération «mobilisation sidération» de l’opinion, Revista Metamag. Janeiro de 2015.
Texto disponível em:
http://www.metamag.fr/metamag-2562-FRANCE–LA-GRANDE-ILLUSION.html



