A GALIZA COMO TAREFA – Gente de Ourense- Ernesto V. Sousa

Há uns anos, convidado pelo bom do José Barbosa e o Artur Alonso Novelhe, fui em Ourense participar numas jornadas de história, onde eu falava da invasão e guerra com o francês na Galiza a princípios do século XIX.

Aquelas jornadas foram duplamente interessantes; primeiro pelas palestras, segundo pela conversa e a tertúlia compartilhada. Das comunicações emergia e ainda destaca uma ideia de conjunto e de continuísmo da Galiza, surpreendente e fresca, com a centralidade dada ao Território e à sua organização da antiguidade à modernidade, tanto mais que os estudos, as épocas, as disciplinas e as escolas não eram apenas diferentes, quanto os trabalhos absolutamente independentes. Sairiam aí contributos instigadores, como o do Camilo Nogueira, e inúmeros dados e perspectivas nos do André Pena Granha, Marcial Tenreiro e Anselmo Lopez Carreira.

Do convívio e da conversa, dos vinhos e os cafés guardo excelentes lembranças, especialmente dos projetos, mais projetos e projeções de Artur e Barbosa, do carinho, humor e lucidez desarmante do Xico Paradelo, sempre retranqueiro, da grande Irene Veiga, da encantadora Noemi Vazquez, entre outros, e da tertúlia intensa, na hora de jantar com o saudoso, já infelizmente, Francisco Carballo.

Política, história, memória, atlantismo, território, continuum, militâncias, gargalhadas, saudades, ironia, entusiasmo. Aquelas Jornadas, felizmente foram gravadas, disponibilizadas na rede e ainda continuam ecoando, mais e mesmo no meu caso, que aquela palestra ficou famosa, ainda que tenha de declarar que eu naquela vez fui suplente e que o tema foi, mais que da minha especialidade, pedido pela organização.

Ourense, já que estou, é sempre é vivificador, pois lá há sempre gente ativa e grande conversadora. Um dos prazeres da vida é dar um bom passeio terminado com uns vinhos e uns petiscos, e mais se é numa manhã de Domingo ourensão, a conversar com o Vitor Lourenço, pessoa que cala mais do que devera e trabalha mais do que é possível, mas de quem sempre se aprende.

Por vezes não sabemos dar valor aos projetos da gente nossa, nem sabemos tirar partido dos encontros. Ficamos mirando para fora, na procura de referentes e alimentando desencontros que muitas vezes são meros acasos, mal-entendidos e contratempos. Mas, para os que estamos fora, ir à Galiza, a qualquer cousa cultural e em qualquer parte é sempre uma experiência: a gente lá é ativa, detalhista, generosa com o seu tempo e amizade. Por muito que não se saiba, ou queira ver, há vida e o ativismo bole por qualquer parte.

2 Comments

  1. Não existem as palestras suplentes. Todo texto (oral ou escrito) é de importância se tem valor para a nossa sobrevivência. E a tua palestra teve e tem. Não nos serve o que todo o mundo diz. Interessa-nos aquilo que nutre e revitaliza a nossa memória.

Leave a Reply