EDITORIAL – Mudar a vida, transformar o mundo?

Imagem2Os acontecimentos políticos das últimas semanas, na  Grécia e, antes, no Estado vizinho com as vitórias eleitorais do Syiriza e do Podemos, parecem trazer alguma esperança de mudanças positivas. Porém, talvez não haja motivos para grandes júbilos. Atente-se num pormenor. Obtida a vitória nas urnas com uma percentagem de votos que não lhe confere uma maioria parlamentar absoluta, o Syiriza, à revelia dos seus eleitores, permite-se negociar com uma formação de direita à qual terá necessariamente de fazer concessões, inquinando o programa eleitoral que levou ao voto os cidadãos. É o chamado «jogo democrático». Não se estranha, embora seja uma aberração. O jogo democrático é a negação da democracia. Onde está situado o mal que determina estas disfunções? O que fazer? O que transformar e mudar?

Num dos seus ensaios, Simone de Beauvoir coloca a eterna questão – mudar a sociedade ou tranformar o homem? Sabemos que as tentativas, experiências ou o que lhes queiram chamar, de implantação de uma sociedade nova, não foram bem sucedidas – em parte por imperfeições internas e noutra parte não menos substancial, por pressões e sabotagens externas. Porém, não se pode dizer que não houve, no decurso dessas experiências – a mais duradoura manteve-se por mais de sete décadas – alterações profundas das estruturas sociais – alterações que incidiram nas relações entre as pessoas, nas relações familiares, na vida, para tudo dizer numa palavra.  «Mudar a vida» disse  Jean-Arthur Rimbaud, «Transformar o mundo», proclamou Karl Marx. A questão que Simone de Beauvoir nos apresenta vai mais ao fundo do problema central do que Rimbaud e Marx foram nas suas consabidas frases. Em Les Belles Images, uma obra editada em 1966, ela verifica que, quer sob o socialismo, quer sob o capitalismo, o homem é esmagado pela técnica, alienado ao seu trabalho, estupidificado. O marketing criou-lhe falsas necessidades e uma noção de felicidade e plenitude ligada à posse de bens materiais supérfluos e que não é possível proporcionar a todos os que habitam o planeta.  E refere o caso de algumas comunidades muito pobres, na Sardenha e na Grécia, onde as técnicas não entraram e o dinheiro não corrompeu as pessoas. Aí, vive-se uma felicidade austera, pois os valores verdadeiramente humanos foram preservados – os valores da dignidade, da fraternidade, da generosidade; valores que conferem à vida um sabor único.

E Simone de Beauvoir localiza o mal das sociedades contemporâneas no momento em que se preferiu a ciência à sabedoria e a utilidade à beleza. Com o Renascimento, o racionalismo, o capitalismo, o cientifismo e conclui: Soit. Mais maintenant qu’on est arrivé là, que faire ? Essayer de ressusciter en soi, autour de soi, la sagesse et le gout de la beauté. Seule une révolution morale, et non pas sociale ni politique ni technique, ramènerait l’homme à sa vérité perdue.

Um capitalismo que concentra em poucas mãos o poder e a riqueza e um socialismo que preconiza o direito de todos aos bens que só alguns possuem, baseiam-se ambos no pressuposto de que o ter se deve sobrepor ao ser. Mudar a vida e transformar o mundo, só é possível se os seres humanos ultrapassarem a sua natureza animal e ascenderem a um patamar superior. Somente uma revolução moral, e não uma revolução social, política ou técnica, restituiria ao homem a sua verdade perdida.

1 Comment

  1. Bravo, Carlos Loures! Foi ótimo ter lembrado Simone de Beauvoir, injustamente esquecida ultimamente,
    de quando se pensava na existência humana e no sentido que devemos lhe dar, quando Gabriel Marcel, também tão esquecido, discutia brilhantemente sobre o Ser e o Ter. Saudade de quando se pensava menos em técnica e em economia e nos preocupávamos em como viver plenamente e melhor.
    Será que nem o apavorante aquecimento global vai contribuir para conscientização da nossa triste humanidade?
    abraço solidário da
    R

Leave a Reply