Na partida do CEP (Corpo Expedicionário Português) verificamos um pormenor importante:
“E deste modo, num feio dia de Janeiro, quasi em segredo, partiram barra fora, de sacos de ramagem ao ombro e guitarra sob o braço, os pequenos soldadinhos portugueses, fardados da cor da bruma e nela levando já embrulhada a sua alma dolorida de saudades”[1].
Os soldados – descritos com um pitoresco que distrai deste pormenor – partem “quasi em segredo” provavelmente por, mesmo em Lisboa, onde a propaganda de guerra é intensa, a população não aprovar a partida; são portanto embarcados sem publicidade. Restam no Arquivo Fotográfico de Lisboa imagens nas quais vemos familiares dos mobilizados e sem dúvida alguns curiosos.
Às poucas afinidades com os militares ingleses, que “não quadram nas primeiras impressões ao feitio do nosso “João Ninguém”[2], Menezes Ferreira contrapõe o acolhimento francês na região de Calais.
“E assim, por este desinteressado auxílio prestado aos camponeses, pela sua boa conduta, pelas afinidades da sua linguagem com o emaranhado “patois” destas regiões, é o nosso “João Ninguém” mimado pelas boas velhotas de touca branca”[3].
E pelas louras raparigas. Porém no verão de 1917, após a instrução militar, o CEP passa a defender uma frente de doze quilómetros num terreno alagado pelos canais do rio Lys.
Começam “os avinagrados dias da trincha”.[4] Se na guerra tanto podem morrer os soldados como os oficiais subalternos, a vida ao ar livre nos parapeitos e trincheiras muito mais penosa é para os praças, que são sentinelas, que fazem rondas, que desempenham missões e tarefas na Terra de Ninguém, por exemplo, do que para os oficiais, acomodados na retaguarda, com ordenanças ao seu serviço, beneficiando de mais conforto, mais liberdade, mais motivações, mais auto-estima… Os soldados portugueses são prisioneiros da guerra. Não podem sair das primeiras linhas onde, de maneira ininterrupta, aguentam o stress – e o risco – da morte. Onde vestem fardas que, mesmo em Portugal, nas noites de inverno, não garantiam a temperatura necessária; ora em 1917 e 1918 há na Flandres temperaturas abaixo dos 10° negativos e a humidade permanente – os terrenos são pantanosos – mais agrava o sofrimento quotidiano.
Começam sobretudo os gases e bombardeamentos. Os praças alcunham todos os “cachapins”, isto é, os menos expostos ao perigo, a começar pelos mais graduados (os “palmípedes”[5]) cujo heroísmo expõe a vida dos outros sem arriscar a deles. Privado de todos os direitos e liberdades, resta a João Ninguém este último recurso: a subversão verbal.
[1] MENEZES FERREIRA, “João Ninguém – soldado na Grande Guerra”, 2ª edição, ed. Folhas e Letras, Lisboa, 2003, p. 20.