Como é sabido, o papa Francisco escolheu e nomeou novos cardeais. D. Manuel III, patriarca de Lisboa, é um deles. O que prova que ele acertou em cheio, quando, ao fim de seis anos como bispo do Porto, desistiu dos seus “queridos diocesanos” nortenhos e correu a tomar posse como bispo-patriarca de Lisboa. O barrete e o anel cardinalícios não vieram, logo, no conclave seguinte, como ele próprio esperava e, com ele, a própria CEP. O que o deixou visivelmente constrangido, de certo, modo ferido no seu humilde orgulho, até deprimido. Nunca mais voltou a ser em Lisboa o que, antes, era no Porto. De repente, amorteceu-se a sua chama e, desde então, parece que se arrasta, em lugar de andar. Entretanto, o cardeal então ainda em exercício fez-lhe o favor de apressar a hora da sua morte, chocado, certamente, com tanto carreirismo clerical que lhe era dado ver à sua volta, e com tanta avidez pelo poder, suas honrarias e prebendas. Não resistiu a tanto e deixou o lugar vazio.
Quando deixou o Porto, D. Manuel Clemente passou a ser, em Lisboa, D. Manuel III, que isto de patriarcas, bispos, cardeais, é uma feroz monarquia. Sagrada. Nem a República de 1910 lhe pôs termo, pelo contrário, deu-lhe ainda mais realce. Mataram o rei, extinguiram a monarquia real. Com isso, a monarquia episcopal, patriarcal, cardinalícia ganhou ainda mais brilho, porque já não tem rivais no trono. Acima de D. Manuel III, só o papa de Roma, lá longe, sem tempo nem disposição para controlar os negócios e a corrupção que o patriarcado e o cardinalato ajudam a encobrir, branquear. Ou pensamos que estes títulos são apenas isso? Ignoramos que são outras tantas máscaras sob as quais o inominável institucional circula, pé ligeiro e sem quaisquer interferências da PJ?! Ainda não nos apercebemos que o cristianismo é o maior sistema de branqueamento de todo o tipo de sujidades, clericais e paraclericais? Trono e altar não andaram sempre casados? Acham que foi só porque sim, ou porque era moda?! Mas adiante, que se faz tarde.
Depois de escolher e nomear os novos cardeais, o papa Francisco fez mais uma das suas muitas piruetas que tanto gozo desperta nos grandes media do mundo. Num dia, depois da missa na capela privada da casa-palácio onde reside, decidiu escrever uma carta e enviá-la a cada um dos novos cardeais. A dizer-lhes o quê? A formular-lhes um pedido. Em síntese, assim: Senhores cardeais, façam o favor de serem humildes! Esqueceu-se o papa que, antes de o ser, também foi cardeal e, só por isso, é hoje o papa de Roma, humilde que se farta, mas ao modo do poder monárquico absoluto e infalível, que se permite saltar fora do protocolo e fazer-se à fotografia que irá, depois, correr mundo. Humildade não rima com cardeal. É incompatível com a vaidade dos cardeais.
Esqueceu-se ainda o papa que um careal humilde é uma contradição nos termos. Nunca a Cúria romana se aguentaria de pé, se os seus cardeais, de repente, fizessem questão de ser humildes. Deixariam de ser cardeais, ficavam simplesmente seres humanos, nascidos de mulher, em lugar de cardeais, filhos do Cristo-Poder, eleitores do futuro papa, precisamente, um deles. Qualquer que seja a idade avançada que tenha na ocasião do conclave. Como ser humilde, com barrete cardinalício na cabeça, anel cardinalício no dedo, todos aqueles ouropéis dourados sobre o corpo e uma corte de bajuladores, prontos para o servir, executar as suas ordens?
E ainda há quem, fora do acanhado e invejoso universo clerical, insista em admirar e louvar o papa Francisco. É inegável que tem um estilo desconcertante, nada mais do que isso. Leva a água ao seu moinho e a Cúria romana agradece. Nunca ela esteve tão blindada aos grandes media, como desde que o cardeal arcebispo emérito de Buenos Aires aceitou ser bispo residencial de Roma e papa da igreja universal. Já não tinha idade nem idoneidade para ser bispo titular de Buenos Aires, mas tem mais do que idoneidade para ser o Bispo de Roma e papa da igreja universal.
Eis o cúmulo da humildade, tal como um papa a concebe, pratica, divulga. Aos novos cardeais basta-lhes seguir o exemplo do cardeal Bergóglio. O mais humilde de todos será, certamente, o próximo sucessor de Francisco. Terá de resistir à fortíssima vaidade que se apoderará dele, quando receber das mãos de Francisco o anel cardinalício no dedo, o barrete cardinalício na cabeça. Os seus bajuladores sejam contidos, de contrário, corre o risco de rebentar como a rã da fábula que queria ser maior do que o boi lavrador. Para já, sejam cardeais ao gosto da Cúria. O que de vós vier a passar de cardeal eleitor do papa, a papa eleito e empossado, terá toda a oportunidade para inchar, inchar de orgulho e rebentar como a rã da fábula Eis o cristianismo, no cume da sua hipocrisia. Quem ainda puder fugir, fuja!