Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O ataque a Charlie Hebdo e o que ele revela acerca da sociedade
Zygmunt Bauman, Charlie Hebdo Attack And What It Reveals About Society
Social Europe Journal, 13 de Janeiro de 2015
O senhor viveu as tragédias do século XX – duas guerras, Shoah, estalinismo. Qual é, na sua opinião, a especificidade da ameaça islâmica extremista que estamos hoje a enfrentar?
Os assassinatos políticos são tão antigos quanto a humanidade e a probabilidade de estes acabarem antes de a humanidade desaparecer é muito ténue. A violência é um companheiro inseparável dos antagonismos e dos conflitos humanos– e estes, por sua vez, fazem parte integrante da condição humana. Em certas épocas, no entanto, os assassinatos políticos tenderam a ser dirigidos a diferentes tipos de vítimas.
Há cerca de cem anos, estes assassinatos eram dirigidos principalmente contra os políticos – personalidades como Jean Jaurès, Aristide Briand, Abraham Lincoln, Arquiduque Fernando e inúmeros outros; ideologicamente variados, situados em diferentes pontos do espectro político, mas, em todo o caso, todos eles pertencendo à categoria dos detentores do poder, actuais ou potenciais. Acreditava-se geralmente naquele tempo que, com essa morte, o mundo (ou o país) se afastaria do que era visto como a causa do mal-estar e mudaria para melhor – para condições mais agradáveis e mais confortáveis.
No 11 de Setembro de 2001 os assassinatos políticos foram dirigidos, não a “personalidades” políticas específicas, identificáveis e de nomeada na cena política, ou, por, essa razão, contra pessoas pessoalmente responsáveis por actos condenáveis que os assassinos pretendessem punir, mas sim dirigidos contra instituições simbolizando o poder económico (no caso do World Trade Center) ou o poder militar (no caso do Pentágono). Notoriamente, nesta operação política coordenada, esteve, além disso, ausente um centro de poder espiritual.
Há dois aspectos dos assassinatos no caso Charlie Hebdo que se diferenciam dos casos anteriores:
Primeiro: em 7 de Janeiro de 2015, os assassinos políticos seleccionaram um elemento dos media de grande visibilidade mediática. Conscientemente ou não, planeado ou não, os assassinos assumiram – explicitamente ou indirectamente – o sentido público generalizado e de rápida consonância de que o poder efectivo está a mudar dos decisores políticos para os centros considerados responsáveis pela criação e moldagem da opinião pública. Foram pessoas que exercem este tipo de actividade que os assaltantes quiseram visar como culpados a serem punidos por causarem o ressentimento, o rancor e o desejo de vingança dos assassinos.
E segundo: virando paralelamente o alvo para um outro domínio institucional, o da opinião pública, o assalto armado contra o Charlie Hebdo foi também um ato de vingança personalizada (regressando ao anátema do Ayatollah Khomeini na Fatva de 1989 promulgada contra Salman Rushdie). Se a atrocidade de 11 de Setembro estava alinhada com a tendência de então para “despersonalizar” a violência política (seguindo a “por assim dizer ”democratização” da violência pela publicidade dada pelos meios de comunicação social que lhe concediam atenção em função da quantidade das vítimas – principalmente anónimas e casuais – e da quantidade de sangue derramado), a atrocidade cometida a 7 de Janeiro coroa o longo processo de desregulamentação – na verdade a “desinstitucionalização”, a individualização e a privatização da condição humana, bem como a percepção da deslocação dos assuntos públicos mudando da abordagem de instituições reconhecidas para a esfera da ” vida política ” a nível do indivíduo. E deslocando-se da responsabilidade social para a responsabilidade individual…
Na nossa sociedade da informação dominada pelos media as pessoas empregadas na preparação e distribuição de informação deslocaram-se ou foram deslocadas para o centro da cena em que o drama da coexistência humana é ensaiado e visto a ser representado.
Muito tem sido dito sobre este ataque: uma sequência da guerra santa entre cristãos e muçulmanos, um ataque à liberdade de expressão, um desafio simbólico a Paris enquanto berço dos valores ocidentais. O que pensa disto?
Cada uma das causas sugeridas como podendo ter tido papel na inflamação do antagonismo entre cristãos e muçulmanos contém um grão de verdade, mas nenhuma encerra toda a verdade. Muitos factores contribuem para este fenómeno que é profundamente complexo. Um deles, talvez o mais decisivo, é o desenvolvimento actual da diáspora a nível mundial, que leva a transformar o estrangeiro distante, ou o visitante estrangeiro, ou o estrangeiro de passagem, num vizinho da porta ao lado – partilhando as ruas, as instalações públicas, os locais de trabalho e as escolas. A grande proximidade de um estrangeiro tende sempre a ser um pouco perturbadora. Não se sabe o que esperar de um estrangeiro, não se sabe quais são as suas intenções, como é que reage a uma acção nossa. Mais importante ainda– e ao contrário do que acontece quando nos movimentamos no seguro mundo “exclusivamente online”– não se pode ignorar as diferenças, todas elas bem reais, muitas vezes chocantes e repelentes, que se manifestam na nossa vizinhança como incompatíveis com o nosso modo de vida habitual, que nos faz sentir em família, confortáveis e seguros.
Como é que reagimos a essa situação? O problema é que nós até aqui falhámos em desenvolver uma resposta satisfatória, para não dizer que nos deixámos entrincheirar. A estratégia considerada largamente como progressista é uma política conhecida sob o nome de “multiculturalismo”. No seu livro “Trouble with Principle” (Harvard University Press, 1999) Stanley Fish distinguiu dois tipos dessa estratégia: um multiculturalismo de “boutique” e um multiculturalismo “forte” . O multiculturalismo de “boutique”, como o define Fish, consiste num fascínio superficial relativamente ao Outro: comida étnica, festivais de fim de semana, e flirts de grande exposição com o Outro. O multiculturalismo de “boutique” é exactamente aquilo que se encontra traduzido em todo este consumismo global sem sentido no Facebook. Os promotores deste tipo superficial do multiculturalismo apreciam, simpatizam, têm satisfação e “reconhecem a legitimidade ” de culturas diferentes das suas. Mas ficam sempre longe de as aprovarem radicalmente. Segundo refere Fish “um multiculturalista de boutique” “não leva, nem pode levar, a sério os valores fundamentais da cultura que tolera.” Por similitude, diria eu, um multiculturalista de “boutique” junta ofensa ao sofrimento: junta uma humilhação à ferida, a ofensa de desprezar, ou de rejeitar categoricamente, o que o “estrangeiro” da porta ao lado considera mais sagrado; a humilhação de um jovial e benevolente descartar do tipo “não pode estar a falar a sério, não pode estar a querer dizer isso”. Fish escreveu o seguinte:
O problema de estipular a tolerância como o seu primeiro princípio (…) é que possivelmente não se poderá ser fiel a este princípio porque, mais cedo ou mais tarde, a cultura cujos valores nucleares se está a tolerar revelar-se-á ela própria intolerante no quadro desses mesmos valores nucleares. A característica distintiva que marca essa cultura como única e com autodefinição própria resistirão ao apelo da moderação ou da incorporação num âmbito mais vasto. Confrontada com a exigência de abandonar o seu próprio ponto de vista ou alarga-lo para incluir as práticas de seus inimigos naturais – outras religiões, outras raças, outros géneros, outras classes – uma cultura sitiada ripostará com tudo o que puder, desde a legislação discriminatória até à violência.
É próprio da natureza da ofensa e da humilhação procurar um escape através do qual possa descarregar e um alvo. E quando acontece , como acontece por toda a Europa crescentemente envolvida pela diáspora, que as fronteiras entre o humilhador e o humilhado coincidem com as fronteiras entre os privilegiados e os socialmente desprovidos, seria ingénuo não esperar que, quer os escapes quer os alvos, sejam avidamente procurados e meticulosamente identificados. Vivemos presentemente num campo de minas do qual sabemos (ou, pelo menos, deveríamos saber) que está salpicado de minas. As explosões ocorrem, embora não haja nenhuma maneira de prever quando e onde.
Ideologia islâmica radical ou desigualdades económicas “estruturais”: qual destas componentes desempenha maior papel na determinação deste fenómeno da radicalização e do terrorismo na Europa e no mundo?
Porque é que reduz a questão da “radicalização e do terrorismo na Europa” ao fenómeno “da ideologia islâmica radical”? No livro “Soumission” de Michel Houllebecq, uma segunda grande distopia em que é imaginada uma evolução alternativa (ao triunfo do consumidor individualizado) para o desastre, em que as eleições francesas de 2022 são ganhas por Mohammed Ben Abbes numa disputa taco a taco com Marine Le Pen. Esta dupla é tudo menos acidental. Profético? Poderia acontecer assim, caso não formos capazes ou não tivermos vontade de mudar de trajectória.
As esperanças na liberdade de auto-afirmação e no controlo do aumento das desigualdades sociais, que foram investidas na democracia, falharam redondamente em concretizar-se. As políticas democráticas, e mais ainda a confiança na democracia como a melhor via para a solução da maioria dos mais graves problemas sociais, estão em crise. Como diz Pierre Rosanvallon,
“Aqueles que estão no poder já não gozam da confiança dos eleitores; eles simplesmente colhem os benefícios da perda de confiança dos eleitores nos seus opositores e nos seus antecessores.”
Testemunhamos por toda a Europa uma vaga de crescimento do sentimento antidemocrático – e uma massiva “secessão dos plebeus” [referência ao abandono da cidade pelos plebeus na Roma antiga] (na sua reencarnação actual como trabalhadores precários ) deslocando-se para o campo dos extremos opostos do espectro político que em todo o caso prometem em uníssono substituir as já desacreditadas elites pensantes pelas ainda não tentadas mãos de alto coturno da autocracia. Os actos de violência espectaculares podem ser considerados como arranques exploratórios nesse sentido. A palavra do Profeta, o porta-voz de Allah, é precisamente uma das bandeiras desfraldadas para mobilizar os desesperados (os humilhados e os desprovidos, os esquecidos e abandonados, os ostracizados e excluídos, amedrontados, irados e frementes de vingança).
Afirmou que a ética requer sempre um “Eu” e não um “Nós” . Isso é o oposto do fundamentalismo. É o “Eu”, a afirmação da identidade individual, a via para que a ética derrote o fundamentalismo?
Na sua primeira “Esortazione Apostolica”, o papa Francisco restaurou a esquecida dimensão moral da submissão – capitulação – ao capitalismo dissoluto, desenfreado, sem açaime a nível social, cego pela ganancia do lucro e cego à miséria humana. Não se encontrará uma resposta mais profunda e mais detalhada à sua pergunta:
No nosso tempo, a humanidade está a viver um momento decisivo de viragem na sua história, como podemos ver pelos avanços que estão a ser feitos em muitos campos. Nós podemos somente elogiar os passos que estão a ser dados para melhorar o bem-estar das pessoas em áreas tais como cuidados médicos, educação e comunicações. Ao mesmo tempo nós devemos relembrar que a maioria das pessoas de hoje está a viver com extremas dificuldades, dia após dia, e com consequências brutais . Um enorme número de doenças está-se a espalhar. Actualmente, muita gente sente o coração apertado pelo medo e pelo desespero, mesmo nos países chamados ricos. A alegria de viver desvanece-se frequentemente, a falta de respeito pelos outros e a violência estão a aumentar e a desigualdade é cada vez mais evidente. É uma terrível luta para se conseguir viver e, frequentemente, para se viver com a mínima preciosa dignidade.
Tal como o mandamento “Não matarás” estabelece um limite claro a fim de salvaguardar o valor da vida humana, hoje nós temos igualmente que dizer “ não matarás” a uma economia de exclusão e de desigualdade. Uma tal economia mata.
Como é que é possível que não haja nenhuma notícia quando uma pessoa idosa e sem abrigo morre pela sua exposição ao frio, mas quando o mercado de valores de acções perde dois pontos isso já é notícia? Este é um exemplo da exclusão. Podemos nós continuar a estarmos calados quando, por exemplo, os produtos alimentares são atirados fora quando há tanta gente a passar fome ? Este é um exemplo da desigualdade. Hoje tudo está a ser submetido às leis da concorrência e à sobrevivência dos mais aptos, onde a riqueza é alimentada pela cada vez maior pobreza. Como consequência, as pessoas consideram-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem nenhum meio de escape à precariedade absoluta.
Os seres humanos são eles mesmos bens de consumo considerados para serem como tal usados e depois descartados. Nós criámos “uma cultura de exclusão” que se está agora a espalhar.. Já não é somente uma questão de exploração e de opressão, mas é também algo de novo. A exclusão tem em última análise a ver com o que significa fazer parte da sociedade em que vivemos; aqueles que são excluídos já não são os das camadas mais baixas da sociedade ou das suas franjas ou as pessoas sem voz ou voto – os excluídos já nem sequer fazem parte da sociedade. . Os excluídos não são os “explorados” mas os banidos, “os que estão a mais”.
Nada a acrescentar, nada a retirar.
Fragmentos desta entrevista foram primeiramente publicados em italiano no Corriera della Sera.
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Sobre Zygmunt Bauman:
Zygmunt Bauman é Professor Emérito na Universidade de Leeds e um dos mais destacados sociólogos europeus. É autor de ‘Liquid Modernity’ (Polity 2000) e de muitos outros livros sobre a sociedade contemporânea.
Ver o original em:
http://www.socialeurope.eu/author/zygmunt-bauman/


