EDITORIAL – E NÓS, PODEMOS?

logo editorialGrécia e Espanha estão a pagar a divida que tinham para connosco. Há quarenta anos, uma Grécia dominada por um regime de extrema-direita e uma Espanha sob a garra de um dos derradeiros ogres da saga nazi-fascista, bebiam as notícias que de Portugal lhes chegavam e ganhavam alento para sacudir a tirania. O nosso 25 de Abril terá precipitado a queda da ditadura dos coronéis três meses depois. E, no Estado vizinho, serviu de exemplo a não seguir na chamada «transição para a democracia» que Adolfo Suárez conduziu, com a preocupação de tudo mudar para que tudo ficasse igual.   Hoje, dia do aniversário de Damião de Góis, damos-lhe um presente – elogiamos a Europa – uma Europa, mosaico de nações, de culturas, cadinho de ideias… uma Europa anti-europeísta.

Há cinco séculos, tínhamos gente no centro dos acontecimentos mundiais – porque o nosso mundo se aninhava em torno do Mediterrâneo – Ásia, África, Américas, significavam para um europeu algo semelhante ao que hoje significaria para um habitante da Terra a descoberta de vida noutros sistemas solares. Não faz sentido julgar os nossos antepassados à luz dos conhecimentos actuais – é perfeitamente ridícula e redutora a ideia de que não houve descobrimentos, mas sim «achamento», encontro – os europeus encontraram-se com os outros povos. Pergunta-se, não fora a ciência náutica de portugueses e castelhanos (apoiada em legados científicos de árabes, na experiência de mestres nas nevagações no mare nostrum), quando é que os ameríndios, nas suas pirogas esculpidas a fogo no ventre de árvores, nos «achariam»?

Quando em 1535  Francisco Sforza morreu, a sucessão do ducado de Milão, deu lugar a que  Carlos V reclamasse a soberania sobre o território. Os franceses invadiram a Itália e tomaram Turim, em Abril de 1536. Em 1542 desencadeou-se a guerra entre Francisco I e Carlos,  tendo a Flandres e o Rossilhão como campos de batalha. Quando os franceses atacaram Lovaina, Damião bateu-se contra os invasores. Todas as tentativas, castelhanas, francesas, alemãs, para «unificar» a Europa têm falhado. A diversidade europeia é a sua maior riqueza. A federalização dos estados que integram a União Europeia seria um erro fatal. A Europa tem uma capacidade incomum de se autoregenerar e de encontrar soluções para os seus problemas.

Os resultados eleitorais na Grécia e em Espanha, são sinais de esperança para Portugal. E aqui deparamos com um paradoxo – os partidos neo-liberais, PSD, sensibilidade dominante do PS, CDS, são os maiores catalizadores para a assunção de uma esquerda que se organize como alternativa ao seu poder. Com os seus erros, corrupção e espírito oligárquico, abrem as portas à criação de uma força que se lhe oponha. Os partidos e movimentos de esquerda, convencidos de que têm potencial para vencer, constituem uma barreira – objectivamente são aliados do sistema que dizem combater. São parte do problema e obstaculizam a solução. Mas, estamos convictos, a solução surgirá. O espírito europeu triunfará sobre o drone Merkel que os Estados Unidos lançam sobre o continente.

 

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