CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR OUVE UMA PERGUNTA INESPERADA – por João Machado

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 Meu caro amigo, peço-lhe que não fique impressionado com o que lhe contei na última carta. Fui muito sincero consigo, e peço-lhe que nunca, mas nunca, conte a ninguém o que lhe disse. É verdade que para mim, a beleza feminina é uma coisa essencial. Tanto a Maria da Luz como a Maria Antónia são muito bonitas e elegantes. Nunca poderia gostar de uma mulher feia. Diz-me que isso mostra uma grande superficialidade. Não percebo bem porque o diz. Então, como podemos estar com uma mulher se não a acharmos bonita e elegante? Diz-me que assim, não me posso casar e ter uma vida familiar estável. Que, se eu tivesse casado com a Natália, a teria deixado quando ela tivesse filhos e engordasse. Ou se a visse doente e mal disposta. Pois aí, talvez tenha alguma razão. Não me consigo imaginar a aguentar uma situação dessas.

Mas peço-lhe que me deixe mudar de conversa. Hoje, imagine, estive todo o dia na faculdade. Fui logo de manhã cedo, porque precisava de ir à secretaria pagar as propinas. A Heloísa tinha-me dado o dinheiro ontem à noite (cada vez percebo menos, ela parece cheia de dinheiro ultimamente, como acho que já lhe disse). Assim, lá fui à secretaria e aproveitei para ter um bate-papo com a D. Suzete Baião, com quem já não estava há que tempos. Foi uma simpatia comigo, aliás como sempre. Ainda era muito cedo para me encontrar com a Maria da Luz, que hoje só tinha aula às onze horas. Assim, a D. Suzete esteve a explicar-me que será de toda a vantagem que conclua o curso este ano, porque se esperam grandes aumentos de propinas para o ano. Disse-me que é para reduzir o número de alunos, porque há licenciados a mais. Acrescentou:

– Veja se não volta a perder o ano. Até porque já vai sendo tempo de ter o canudo.

E, com um ar brejeiro, acrescentou, numa voz mais baixa:

– E de juntar os trapinhos com a colega!

Como eu a olhasse com um ar duvidoso, piscou-me o olho e foi guardar no cofre o dinheiro que eu lhe tinha entregado. Despedimo-nos a seguir. Saí da secretaria e fui para a biblioteca passar apontamentos. Temos uma frequência daqui a duas semanas, a Maria da Luz e eu.

Seria já quase meio-dia quando a minha amiga chegou à biblioteca. Achei-a um pouco cansada. Saudámo-nos efusivamente, como sempre, e talvez até um pouco mais do que o costume, porque não havia ninguém na sala de leitura. Arrumei as coisas e saímos. Estava frio e ameaçava chuva. Eis que a Maria da Luz me lança um desafio:

– E se fossemos para minha casa? Sempre estávamos mais quentinhos. Compramos almoço no supermercado lá ao pé, e fazemos um almocinho mais comodamente.

Meu amigo, o tom de voz dela era de tal modo irresistível que nunca me lembraria de a contrariar. Sou realmente muito sensível ao charme de uma rapariga jeitosa, e, então, de uma que eu conheço tão bem… O que aconteceu foi que nos metemos logo a caminho. A Maria da Luz mora perto da faculdade. Atravessamos o parque (se não fosse o frio, tinha havido logo ali uns devaneios, já não era a primeira vez), passámos no centro comercial, e comprámos um strogonoff e uma garrafa de vinho. Como me tinha sobrado dinheiro do que a Heloísa me tinha dado, paguei a despesa, apesar dos protestos da Maria da Luz e fomos para casa dela. Confesso-lhe que me sentia muito bem. Como um senhor, diria a Maria Antónia.

O almoço, a tarde foram uma maravilha. Correu tudo agradavelmente. A casa da minha amiga é grande, e bastante confortável. Nunca lhe perguntei se é dela, ou alugada, e vou ser franco (como tem notado, ultimamente franqueza não me tem faltado): nunca me interessei pelo assunto. O facto é que me tenho sentido lá muito bem. E hoje não foi excepção. Acredite que até estudámos um bom bocado. A Maria da Luz disse-me, por duas vezes, estar muito surpreendida como eu tenho progredido.Aqui confesso que não sei o que pensar. Será que antes de a conhecer estava assim tão em baixo?

Já passava das quatro da tarde, quando, calcule, dormimos uma sesta. Foi curta, talvez não mais de meia hora. Sentia-me muito descontraído. Pensava no próximo fim-de-semana. Como havia de convidar a minha amiga. Entretanto, ela levantou-se, endireitou as costas, teve um leve bocejo, e fez uma pergunta:

– Maurício, tens pensado no que vais fazer quando acabares o curso?

 

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