CARTA DO RIO – 36 – por Rachel Gutiérrez

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Há alguns dias, ou melhor: noites, decidi reler um pouco, antes de dormir, a correspondência de Lou Andreas-Salomé com Rainer Maria Rilke, que comprara em Paris, em 1992. Abri o livro ao acaso na página de uma carta do poeta datada de 20 de fevereiro de 1914. Deparei de imediato com um longo trecho assinalado e grifado por mim e percebi que estava fazendo uma experiência junguiana, quer dizer, a de uma coincidência altamente significativa. Pois dias antes, ao ler poesia de vários autores para as minhas alunas, li também este pequeno poema meu:

Pássaro

pedaço de silêncio alado

no Aberto…

no mais vasto

Útero.

 E uma aluna quis então saber: – De onde vem a poesia? Ora, essa pergunta foi justamente a que me havia determinado a pesquisar e tentar depreender da obra de Lou Salomé, de sua autobiografia e principalmente de sua correspondência com Rilke, uma espécie de “estética da poesia”. Pois, desde que na minha experiência o fenômeno poético se havia manifestado quando eu já estava com cinquenta anos, essa era a pergunta que me atormentava. Recentemente, já nem sei se por acaso ou por outro misterioso ardil de Carl Gustav Jung, vi na TV uma entrevista do nosso excelente compositor Edu Lobo, em que ele respondeu à pergunta do jornalista – “Como nasce uma melodia?”- com um suspiro e: – “Ah! quem dera que eu soubesse!” Depois explicou, ao piano, que não é ele quem faz a melodia, mas seus dedos.

Voltando ao trecho da carta de Rilke, o que está assinalado no meu livro é a descrição que o poeta faz de um pássaro como aquele que tem, entre todos os animais, “a relação afetiva mais confiante com o mundo exterior, como se nele se reconhecesse ligado pelo segredo mais íntimo. Eis porque canta no seio do mundo, como se cantasse dentro de si mesmo” (…) (isso eu havia grifado!)… “sentimos que o pássaro não distingue seu coração do coração do mundo.” E logo adiante, o poeta responde após perguntar de onde vem a interioridade da criatura: “(dos outros?) Do fato de não ter amadurecido em um corpo, o que imagina que jamais abandona, de fato, o corpo protetor. (Com o qual mantém toda a vida uma relação uterina).” Meu susto foi grande: uma relação uterina!

Se não me engano, foi no ano de 2001 que, tendo esquecido totalmente o que lera na carta do poeta, escrevi o pequeno poema sobre um pássaro para quem o espaço, esse Aberto (de que sempre falou Rilke), é um imenso útero! Plágio? Não! Penso que não. O que eu também esquecera é que o poeta já havia explicado como nasce a poesia, em famoso e belíssimo trecho de seu livro Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Em duas pequenas páginas, que valem como uma Arte Poética, Rilke diz o que não cito ipsis literis, apenas evoco e tento agora, um pouco canhestramente, parafrasear de memória:

Para escrever um só verso, não bastam os nossos sentimentos porque esses se manifestam cedo demais, (e aqui lembro muitos poemas de adolescentes que geralmente não passam de desabafos mais ou menos expressivos). Os versos são feitos “de experiências vividas”. É preciso, então, conhecer muitos lugares, muitas paisagens diferentes, campos e flores, ventos e nuvens, os mares menores e os mares maiores, precisamos viver e lembrar muitas noites de amor, sendo que nenhuma se compare a outra, precisamos ter acompanhado mulheres em dor de parto, ter permanecido ao lado de um moribundo ou de um morto, num quarto fechado… Enfim, precisamos também das lembranças da infância, de quando, por exemplo, adoecíamos e éramos tão importantes de repente. Mas nem com muitas lembranças estaremos prontos para a poesia. Porque as próprias lembranças ciosamente guardadas precisam depois ser esquecidas. Só assim, muito mais tarde, quando em nós tudo tenha se transformado em “sangue, olhar, gesto”, só então, “numa hora muito rara” do mais íntimo de nossa solidão e do nosso silêncio haverá de brotar a primeira palavra de um verso… Isso que lembro agora foi o que Rilke, na minha primeira leitura do “Malte”, me havia explicado há muito tempo.

É claro que há poetas que decidem escrever versos e sentam-se à mesa, tomam do lápis ou da caneta, ou ligam o computador e fazem um trabalho cuidadoso com as palavras. Outros, mais sofridos, com os quais me identifico, precisam esperar uma espécie de eclosão, um desabrochamento do que estava preso no inconsciente, onde o olvido e a memória se misturam. Esses têm a impressão de que não escrevem versos, são escritos por eles. E às vezes os poemas chegam inteiros, sem rasuras, precisando apenas da mudança de uma palavra ou pontuação, pormenores. É um quase milagre. Para esses, porém, a espera pode ser longa e dolorosa.

E foi pensando sobre tudo isso que me ocorreu que os poetas que dependem da maturação e da espera são, numa certa medida platônicos, pois, para Platão conhecer é recordar, conhecer é re-conhecer. Me ocorre ainda que de longe, muito de longe, é claro, e guardadas todas as diferenças, eles se assemelham aos religiosos, santos e profetas que recebem “revelações”.

Enfim, de assunto assim tão delicado e misterioso, só consigo respeitosamente me aproximar, sem nada concluir. E aceitando um velho conselho do próprio Rilke, me limito a “amar a pergunta”.

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