CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – E TUDO, SÓ PORQUE NÃO SOU FILHO DA PUTA! – por Mário de Oliveira


 

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Quando, ontem, já um pouco atrasado em relação à hora marcada, entro, finalmente, na sala grande da Casa da Beira Alta, no Porto, como autor convidado para a estreia do Programa PERCURSOS, iniciativa da Seda Publicações, em parceria com a Poeta Ana Albergaria e a própria Casa da Beira Alta, fico surpreendido com a presença de tantas pessoas, para mais numa gelada tarde soalheira de domingo de inverno. Oiço a Ana ler, logo a abrir a sessão, os traços mais marcantes do meu ser-viver de presbítero-jornalista menino, ordenado a 5 de Agosto de 1962, só possível, porque, desde 8 de Março 1937, sou filho de ti Maria do Grilo, jornaleira. Fico surpreendido com o que me é dado ouvir e pergunto-me, Como pode um simples ser humano como eu, estar, ao mesmo tempo, em tantos sítios/situações, suscitar tanta admiração/ódio, tantas expectativas/conflitos, tantos ostracismos/desprezos, e continuar cada vez mais menino, clandestino, invisível? Muitas são as perguntas formuladas pelo Editor Jorge Castelo Branco, para que me desnude perante as pessoas presentes, a fim de que todas me possam conhecer, para lá dos livros já editados e do diz-se, diz-se. Só que as minhas respostas deixam-me ainda mais clandestino, invisível, mistério. Todo eu me experimento cada vez mais corpo animado, corpo vento/sopro. Quanto mais me dou a conhecer, mais se adensa o Mistério que sou. Como, de resto, é timbre dos seres humanos que não se vendem, não se mascaram, simplesmente crescem em maiêutica de dentro para fora. O encontro de mais de duas horas suscita liberdades, autonomias, interrogações, inquietações, deslumbramento, desassossego, ilumina as mentes/consciências. Vejo sol nos rostos das pessoas, sem darmos conta do passar do tempo. Até que de dentro de mim vem a palavra mais teologicamente humana do encontro, que tudo ilumina/esclarece: –: – Todo o ostracismo/incomodidade que o meu ser-viver de presbítero-jornalista suscita, é porque eu sou filho de Ti Maria do Grilo, jornaleira, não sou filho da Puta, filho do Poder!

 

9 Fevº 2015

 

 

 

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1 Comment

  1. Assim é que se fala padre Mário! O que há mais por aí é filhos e filhas da puta que não pensam, não questionam, não sentem, não são verdadeiramente seres humanos. Andam por aí, por andar. Dominam e são dominados por outros, seus iguais. Vegetam, sem ofensa para os vegetais. O padre Mário suscita tantos sentimentos antagónicos porque é um ser humano, porque, como afirma, não é um filho da puta, que se vende por tuta e meia. Não é um filho da puta que vende a alma ao dinheiro, ao poder e à escuridão. Muito obrigado por ser assim e por partilhar com todos esta sua forma de ser. HUMANO.

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