UMA NOTA DE ALMEIDA GARRETT, de uma memória a propósito da obra FREI LUÍS DE SOUSA.

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Em 6 de Maio de 1843, Almeida Garrett, numa conferência  do Conservatório Real de Lisboa, leu uma memória sobre a elaboração da peça Frei Luís de Sousa, que se estreou esse ano, numa representação privada. A certa altura resume as dificuldades na concepção das personagens assim:

… A bela figura de Manuel de Sousa Coutinho, ao pé da antiga e resignada forma de D. Madalena, amparando nos seus braços entrelaçados o inocente e mal estreado fruto de seus fatais amores,  formam naturalmente um grupo, que se eu pudesse tomar nas mãos o escopro de Canova ou de Torwaldson – sei que desentranhava de um cepo de mármore de Carrara com mais facilidade, e decerto com mais felicidade, do que tive em pôr o mesmo pensamento por escritura nos três actos do meu drama.

A respeito desta passagem Garrett escreveu uma nota, a B, de entre as treze com que completou a memória. Assim:

Se eu pudesse tomar nas mãos o escopro de Canova ou de Torwaldson…

Não escrevi esta frase à toa; é uma convicção minha que na poesia da linguagem o género paralelo à estatuária é a tragédia: assim como a epopeia à grande arquitectura: e os outros géneros, espécies e variedades literárias aos seus correspondentes na pintura: ode à alegoria, idílio à paisagem, epigrama à caricatura, romance e drama ao quadro histórico, e assim os mais. A música segue as divisões da poesia falada, cuja irmã gémea nasceu. A cabo, a ARTE é uma só, expressada por variados modos segundo são variados os sentidos do homem. Em vez de tantos mestres de retórica e poética, ou de literatura como agora creio que se chamam, um só que desenvolvesse esta doutrina tão simples como verdadeira, aproveitava no curso de um ano o que eles perdem e têm perdido em muitas dezenas.

In Doutrinas de Estética Literária, uma antologia editada por Textos Literários, com prefácio e notas de Agostinho da Silva.  A segunda edição é de 1961.

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