CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR FALA SOBRE O PASSADO, ENQUANTO PENSA NO FUTURO – por João Machado

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Admito que fiquei um pouco surpreendido com a pergunta da Maria da Luz. É verdade que tínhamos falado do assunto anteriormente, mas já há algum tempo e nunca mais voltámos a abordá-lo. Foi talvez em Maio ou Junho passado que ela me disse estar a contar abrir um escritório, quando acabasse o curso. Não me lembro bem do que ela disse, se seria em Lisboa ou na Covilhã, ou noutro lado qualquer.Pelo meu lado, nunca tinha pensado muito no assunto. Nem pouco… Sabe… a única coisa que realmente tenho por certo é que vou continuar a viver com a minha mãe. Mas deixe-me contar-lhe a minha resposta à Maria da Luz e a conversa que tivemos. Comecei por lhe dizer, após hesitar um pouco:

– Confesso que já tenho pensado no assunto. Terei que procurar um emprego. Teremos que fazer um estágio, não é? Antes de começarmos a exercer.

Ao dizer isto procurei pôr um ar muito sereno e compenetrado. A minha amiga olhou para mim, e pareceu-me que, também ela, hesitava. Mas passados mais uns momentos disse:

– Sim. Sabesconheço um advogado que costuma aceitar estagiários. Era amigo do meu antigo patrão. Estou a pensar ir falar com ele para a semana. Estamos em Fevereiro e eu gostava de começar o estágio logo a seguir às férias.

Procurei mostrar um ar interessado, mas não excessivamente. E fui dizendo:

– Eu não conheço ninguém. Seria abuso da minha parte perguntar-te se ele teria também um lugar para mim?

A Maria da Luz hesitou novamente. Pôs um ar de dúvida, primeiro, mas depois respondeu assim:

– Não abusas nada. Mas não falo com ele há muito tempo. Não faço ideia sobrecomo que me irá responder. Segunda-feira vou telefonar-lhe.

Ficámos por ali. Tomámos um chá na cozinha, que é grande e muito agradável. E voltei a interrogar-me sobre quanto custaria a casa á minha amiga. Pouco depois despedi-me. Combinámos encontrar-nos amanhã na faculdade. Ela mandou um beijinho para a minha mãe. Dei-lhe um grande, como retribuição antecipada. Tudo muito bem.

O meu caro amigo já me disse várias vezes achar impressionante a falta de interesse que manifesto sobre assuntos graves para a minha vida. Já tenho pensado que tem alguma razão. Mas tenho de lhe contar o que me aconteceu, já há bastantes anos, numa altura em que pensava deixar de estudar. Nunca lhe falei disto, porque detesto más recordações, e, por outro lado, hoje em dia, acho que talvez não tenha sido assim muito importante. Já lá vão uns vinte anos ou mais sobre o que lhe vou contar. Talvez mesmo vinte e cinco anos. Um dia, sem dizer nada à Heloísa, que na altura ainda trabalhava, e estava todo o dia fora, fui a um centro de emprego. Cheguei lá, seriam umas duas horas da tarde e estava imensa gente. Atenderam-me umas duas horas depois, e fui atendido por um sujeito forte, com a barba mal feita, com um ar bastante irritado. Mas pareceu até simpatizar comigo, depois de lhe contar que estava no segundo ano da faculdade, e que tinha de desistir do curso, porque não queria continuar a ser pesado à minha mãe. Disse-lhe que estava disposto a trabalhar em qualquer coisa, mas que preferia que fosse num escritório. Que a minha saúde não era muito boa. Ele aí olhou-me com um ar mais sério, e disse-me que ia ver as vagas que havia disponíveis. Falou-me numa série de artigos da lei que teria de ter em conta (não me pergunte quais, que não me lembro) e, por entre dentes, resmungou que a maior parte das colocações disponíveis eram para ajudantes de pedreiro. Fiquei sem pinga de sangue. Despedi-me do homem o mais delicadamente que pude e vim para casa muito atrapalhado.

À noite, depois do jantar, antes da Heloísa se meter à frente da televisão, que ela, na altura, já era fã de telenovela, um pouco trémulo, contei-lhe a minha aventura. Ficou a olhar para mim. Depois, foi-se sentar no sofá, no seu lugar habitual (ainda hoje o conserva) e esteve um grande bocado a olhar para a televisão. Num intervalo para anúncios, olhou para mim, que estava sentado, mudo e quedo, no outro canto do sofá, e disse, aos gritos, de uma maneira que eu raramente lhe tinha ouvido:

– Quem te mandou fazer isso? Ando eu aqui a trabalhar como uma escrava para tu seres alguém e, em vez de estudar, andas por aí, e vais ao centro de emprego! Eu ando a matar-me, não é para ires trabalhar para as obras. Pois se até à Josefa, que é muito minha amiga, e me veio perguntar se tu não poderias de vez em quando ajudar lá na mercearia, respondi que não podia ser, que tu não tinhas tempo…, tens de estudar, e tirar o curso, e tu agora vais ao centro de emprego! Andas a fazer pouco de mim?

– Mãe, desculpa! – respondi-lhe atrapalhadíssimo. Tremia da cabeça aos pés.

– Tens é que estudar. Descansa, que eu trato do resto!

Bem. Nunca mais voltei ao centro de emprego. Também nunca me deram notícias. Houve outras coisas, depois, mas por hoje chega de histórias antigas. Às vezes, penso que devia ter insistido, mas…, bem, continuamos a falar sobre isto qualquer dia. Desculpe-me, a recordação deixou-me enervado.

Vou interromper agora a carta. Não me leve a mal. A minha mãe dorme em frente à televisão. Eu vou fazer o mesmo, mas na minha cama. Não vi a Maria Antónia, hoje. Mas tudo bem, amanhã é outro dia.

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