Não sei se a divisa latina da Comédia (castigat ridendo mores, “corrigir os costumes rindo”) foi adoptada por Eça de Queirós, para elucidar o público sobre as intenções do seu folheto «As Farpas» (redigido de parceria com Ramalho Ortigão), mas no editorial de apresentação (1871) o escritor anuncia: «Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.».
Em meu entender, nada autoriza que me reduza a esta benéfica ideia sobre o riso, pois ele proporciona, no tecido espesso das mentalidades correntes, outros conteúdos que, infelizmente, nada têm que ver com coragem moral e probidade intelectual. Por isso, esta breve viagem sobre o riso.
Existe o sorriso dos anjos, que é puro e sintoma de alegria pela alegria dos humanos, tal como ficou esculpido na fachada da catedral gótica de Reims (França). Os santos sorriem no êxtase. Os criadores sorriem na descoberta, mas nunca riem. As grandes e verdadeiras alegrias não se manifestam com exterioridades teatrais, como julga o vulgo.
Anjo da Catedral de Reims
O homem é o único ser vivo que ri, com perfeita consciência das razões porque o faz. Diga-se, todavia, que quem sorri está feliz, vivendo sem receios, mas não desce à vulgaridade obscena do riso comum, que surge no rosto dos atormentados e atormentadores e, muita vez, desemboca na casquinada, no desapiedado riso trocista, próprio dos desesperados, provocado por mesquinhas intenções, sinal dos medíocres com receio de serem desmascarados, diminuídos. Vindo da noite dos tempos, deve ser este o sentido do rifão popular: «Ri-se o roto do esfarrapado e o sujo do mal lavado». O risível não nasce das coisas, dos objectos, está em nós, na nossa mente. Mais uma vez, o rifoneiro popular, tão velho quanto esta nossa gente outrora chamada lusitana, sentencia: «Ri com quem ri e chora com quem chora». Isto é, recomenda-se a cada um que se molde às circunstâncias, seja oportunista… e deixe os pruridos morais para outra “altura”: – Às vezes, a “sabedoria” popular aponta-nos direcções pouco exemplares!
Na verdade, tudo pode ser considerado cómico, mesmo as cerimónias mais solenes, os acontecimentos mais dolorosos, inclusivé as crenças religiosas de milhões e milhões de fiéis, que com elas vivem e por elas sofrem e esperam a salvação espiritual. Quando se tem o coração de pedra e o espírito sem barreiras éticas, que travem a desnecessária zombaria sobre crenças que nos são estranhas, o humorismo cínico, niilista, apresenta-se destemperado, fazendo-se passar por espírito crítico, de forma a ser aceite pelas multidões irrefletidas. Mais uma vez, o rifoneiro popular nos avisa: «Tanto ri o insensato como chora o timorato»!
A ignara multidão ri de tudo o que sai da mediania, do usual, do geralmente aceite, do que ao seu olhar, de curto alcance, é diferente… Assim foi com Jesus Cristo: «…os sumos sacerdotes e os doutores da Lei troçavam dele entre si: “Salvou os outros mas não pode salvar a si mesmo!”», (Mc., 15. 31).
Ideias que, com o rodar do tempo, amanhecerão como maravilhas do Homem, utopias que, com séculos e séculos de experimentalismo e, muita vez, de sofrimento, se tornarão verdades universais perfeitamente realizáveis, pensamentos generosos que contribuirão para transformar a sociedade, são inicialmente acolhidos com o riso trocista e desdenhoso dos incrédulos, da turba enfada, da multidão filha do abatimento moral e intelectual. S. Paulo, no areópago, fazia rir os filósofos. Cristóvão Colombo, na audiência de Salamanca, fazia rir os cosmógrafos.
Face ao novo, ao inesperado, costumam ser duas as atitudes do vulgo: – 1º, o riso desdenhoso; 2º, depois, a marginalização do diferente, logo seguida da perseguição. Nenhuma multidão aceita deserções ou admite a diferença, por isso teme quem quer sair da “tribo”. Enfim, receia a individualidade e procura reprimi-la pelo ridículo, disparando sobre a diferença as balas do riso. A multidão necessita de se sentir tranquila, por uma questão de comodismo e segurança, uniforme, unida. Tem medo, portanto, que a diferença a enfraqueça e arraste para fora da rotina. O riso neste caso é a defesa contra a alteração da banalidade, contra a mudança dos hábitos. O riso, assim acontecido, é a suposta “punição” dos medíocres reservada aos prometeus de todas as épocas, aos que querem impor à sociedade novas fadigas espirituais, aos que pretendem elevar a alturas “arriscadas” a multidão rastejante.
Ri-se das coisas trágicas para evitar a pena da emoção!
Ri-se das coisas venerandas para fugir ao peso da reverência!
Ri-se das coisas graves e sérias para poupar o esforço do pensamento!
Rir, assim, é como cantar de noite, caminhando na estrada, pelo escuro, para afastar o medo de fantasmas: – Queremos libertar-nos do pesadelo dos deveres, das obrigações da vida, dos tormentos e remorsos das nossas faltas!
Mas o riso, este franzir de lábios (indício de esgares interiores, d’alma), pode ser substituído pelo sorriso, na medida em que nos reconciliemos connosco mesmo e com o próximo, na medida em que nos perdoarmos uns aos outros.
Na maioria das vezes, as grandes felicidades manifestam-se de mansinho, pelas lágrimas. A estas lágrimas chamava o matemático e filósofo Blaise Pascal (1623-1662) les pleurs de joie!


