CONTOS & CRÓNICAS – “MAURÍCIO VILAR SENTE-SE OPTIMISTA E DIZ O QUE PENSA” – por João Machado

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Meu caro amigo, venho mais uma vez maçá-lo. Hoje é domingo, a Heloísa está na cozinha a preparar o almoço, e eu tenho estado aqui no meu quarto a preparar-me para mais uma frequência. Tenho trabalhado muito este fim de semana e, creia-me, estou optimista quanto às frequências que vou ter depois do Carnaval. Para a semana a Maria da Luz vai falar com o advogado que ela conhece. Da maneira como ela se lhe referiu deve ser pessoa importante. Espero que sim. Na nossa profissão, será vantajoso começar por um estágio rigoroso, com um bom acompanhamento. E com alguém que tenha muitos clientes.Tem razão quando diz que tenho muita confiança na Maria da Luz. Tenho a certeza que ela nunca me vai deixar ficar mal.

Sobre a questão da Maria Antónia já falamos; digo-lhe sinceramente que não vejo o que ela tem a ver com a Maria da Luz. Claro que espero que a minha amiga nunca venha a saber do meu envolvimento. A noite passada… pois é verdade, lá fui fazer a visita ao terceiro andar. Esta semana ainda só lá fui duas vezes. Sei que não concorda com estas andanças, mas que quer… Também concordo consigo em que não gostaria que a Maria da Luz tivesse para aí um António qualquer, escondido. Mas como ela não sabe das minhas escapadas, não é assim? Nem por sombras. Eu não lhe conto, de certeza. E ninguém lhe vai dizer. A Maria Antónia fica contente, recebe umas prendinhas que lhe dou, aliás com muito gosto, e é verdade que eu também fico contente. Em todo o caso, acredite que lhe estou muito grato pelos seus conselhos e observações. Desculpe-me por não os seguir, neste aspecto.

A Maria da Luz este fim de semana foi outra vez à Covilhã. Fui com ela até ao comboio na sexta-feira. Está já de volta na segunda-feira, apesar de ser Carnaval, porque temos muito trabalho. Diz que temos de ser como o Cavaco Silva, que, ao que parece, também não aprecia o Carnaval. Também com aquele ar sisudo, não espanta nada. Eu com certeza que me divirto mais do que ele, apesar de não ir a bailes, nem me mascarar. Ele é que tem sempre uma destas máscaras, caramba!Sempre muito sério. E daí quem sabe. Às vezes são os que abusam mais. Mas atenção, meu amigo, que eu de política não quero saber para nada. E acredite que, apesar de não gostar da cara dele, até lhe dei o meu voto. Aliás, tenho votado sempre nele. É que não gosto de confusões, como lhe tenho dito. E tanto quanto sei ele é dos que mandam. Como os do antes do 25 de Abril parece que eram. Era muito pequeno naquele tempo, já não me lembro de nada. Só sei o que me contam. Mas acho que tem que ser assim. Senão é a confusão total. Aliás, aqui na rua de Santo Ambrósio, todos pensam assim. Pelo menos aqueles com quem falo. A minha mãe, a D. Gertrudes Acabadinho, a D. Josefa, o Serafim do café… só a D. Henriqueta é que me parece que pensa um pouco de outra maneira. Faz sempre um ar irónico quando o pessoal fala de política. Mas não se pronuncia. A Maria Antónia cala-se muito bem calada quando a conversa aquece. Mas o meu amigo está a ver como é. Aqui não se faz política. Futebol,discute-se muito, mas eu também não ligo muito. Vejo um jogo, às vezes. E defendosempre o que ganha. É melhor assim. Quando se põem a discutir no café, ponho-me a olhar para a televisão, ou a ler o jornal. E a seguir, venho-me embora. Como vê, em política e futebol, sou dos que ganham. Assim ganho eu também. Acredite que não é comodismo. De modo nenhum. Sinto-me melhor assim. Na faculdade também fiz sempre assim, e tenho-me dado bem. Nunca me envolvi em questões. A D. Suzete Baião, aliás, aprovou sempre as minhas atitudes. Aliás, ela é quem me avisa, sempre que há confusões (sabe, aqueles protestos por isto ou por aquilo, greves, eu sei lá). Venho logo para casa. E a Maria da Luz concorda com isto. Só que ela gosta muito de trabalhar. E faz-me trabalhar. Estou-lhe muito grato por isso. Embora, aqui entre nós, às vezes me custe um bocado.

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