BISCATES – “O direito à felicidade dos gregos e os tacanhos corifeus da austeridade” – por Carlos de Matos Gomes

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Gosto de ler o El País. Encontro frequentemente matéria prima de pensar. Uma entrevista com o filósofo francês Roger-Pol Droit, um rapaz quase da minha idade, que fez investigação sobre as tradições filosóficas chinesas, indianas e tibetanas, assim como obras de divulgação como 101 experiências de filosofia cotidiana, que ele designou com humor, um livro de fitness filosófico. Roger-Pol Droit considera ser humano ignorante, incrédulo, e que tem algo de demente (eu diria que tem muito). Para ele a humanidade vive numa contradição entre a capacidade tecnológica que cresce, enquanto a capacidade moral se mantem. Digo eu que é o drama do sapo fumador. Acaba mal. “Muitas guerras e catástrofes são desencadeadas por formas de sem razão, de loucura”. (Temos abundantes e recentes exemplos bem perto). Sustenta que em França o modo de encarar a vida mudou depois do atentado contra o Charlie Hebdo. «Houve a tomada de consciência da existência de uma guerra que não é entre Estados, nem entre militares e exércitos”.

Num outro ponto fala daquela que eu considero ser uma das causas desta guerra. Diz Roger-Pol Droit: “Há una espécie de imperativo de ser feliz, em toda parte, permanentemente. Aconselham-nos de manhã à noite. É suspeito: quando te repetem tantas vezes é porque uma coisa não funciona. Ainda me admiro quando oiço os americanos dizerem: enjoy! Porquê? Não necessito que me digam que disfrute de minha comida! A obsessão actual pela felicidade é um sintoma do desejo de eliminar o negativo. A ideia de uma felicidade perfeita, sem stress, sem preocupações, sem angústias, não me parece muito humana, nem interessante.

É aqui que entra a causa da nova guerra. Roger-Pol Droit fala da nossa civilização, aquela que erigiu como fim último ser feliz em casa, com o parceiro ou a parceira, no trabalho, na cama, nas férias… A mim parece-me uma boa filosofia querer ser feliz em casa, com os meus, na cama, no trabalho e nas férias. Quero viver assim e sinto-me ameaçado. Entendo que estamos numa guerra porque há uma civilização inimiga que tem a ideia de felicidade num Paraíso construído sobre a minha infelicidade, sobre a minha falta de liberdade.

Ao contrário de Roger-Pol Droit não me sinto nada constrangido numa cultura e numa civilização que elege a felicidade como imperativo social e político. Pelo contrário, aplaudo e sou defensor. Considero que uma das causas da guerra que deixámos entrar no nosso original espaço civilizacional se deve ao facto de não estarmos a defender esse nosso princípio e a impô-lo aos que querem viver connosco. Não temos de ter medo da felicidade, mesmo da felicidade que nos dá o gozo, o disfrute, o tal enjoy, das coisas comuns da vida. Não tenho que me culpar por querer viver numa civilização que me permita disfrutar da vida. Também devemos essa herança do direito ao prazer aos gregos, por muito que custe aos jihadistas da austeridade, os fiéis da madrassa de Passos Coelho e de Cavaco Silva e dos exércitos ditirâmbicos de que são os corifeus.

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