DOIS TEXTOS EM TORNO DA ELEIÇÃO LEGISLAÇÃO PARCIAL EM FRANÇA – por JÉRÔME LEROY e RAUL FOUGAX – apresentação de JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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Dois textos em torno da eleição legislação parcial em França

Houve eleições em França onde o PS correria o risco de perder a sua maioria absoluta, dada a política servil da França face à Alemanha, a Frau Merkel e dada a ambição de alguns dos seus homens.   Como se assinala nos textos, o Presidente da República não hesitou considerar que a  Democracia corria riscos   fortes nestas eleições.  Mas não hesitou antes ao pretender o lugar de Comissário para Moscovici, sabendo o risco que se corria na sua República. Mas que importa isso se os lugares individuais são para conquistar, mesmo com este  a ficar  debaixo da pata de dois vice-presidentes de estirpe neoliberal. Possivelmente porque socialismo francês rima hoje bem com neoliberalismo!

Disse-nos o Presidente de todos os franceses:

“O sistema politico- mediático realizou uma campanha obstinada contra a Frente Nacional. Os meios de comunicação social produziram mais ou menos  uma pequena porcaria por dia. Os ministros do espírito do 11 de Janeiro deslocaram-se. O presidente ele mesmo, entre a ameaça do islamismo  e a da Rússia, não hesitou no estrangeiro em  declarar a República em perigo na eleição  parcial de Doubs. Os anti-frentistas  de profissão da UMP  exprimiram-se e Sarkozy falhou ele mesmo em  deslizar para o PS.”

Como assinalou o jornalista de Libération:

“A FN não esteve longe de ganhar neste velho distrito  socialista”, escreve  Laurent Joffrin (Libération).” “A esquerda apanhou um valente susto: esta deve fazer o mais rapidamente possível um exame de consciência.”

Sabendo-se hoje que consciência é que coisas que os dirigentes franceses no poder parecem não saber já o que é, tudo mostra que fortes nuvens se estão a formar em França, com tempestades a despontar e fortes para as próximas eleições? Será que vamos assistir à criação de um novo sistema, copia do de  Itália entre Matteo Renzi e Berlusconi, criando-se um grande bloco central,   o arco UMPS, a que os  auto-proclamados socialistas franceses chamam candidamente a Frente Republica?  As tempestades anunciadas podem desencadear ventos ciclónicos, ou mesmo um tsunami político,  é o que estamos para ver, creio.

Leiam os textos abaixo  e digam-me se no plano lógico estou enganado ou não.

Júlio Marques Mota

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1. Doubs: A Frente Nacional brilhantemente batida mas batida

Uma vitória  do sistema UMPS ou de um novo Bloco Central

Jérôme Leroy, Doubs : le FN brillamment battu mais battu – Une victoire de l’UMPS ou d’un nouveau bloc central?

Causeur.fr, 9 de Fevereiro de 2015

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E finalmente, foi o PS e Frédéric Barbier que ganharam a primeira parcial ganha pela esquerda na metrópole desde 2012. Poder-se-á  observar que nos boletins de voto, Frédéric Barbier  tinha retirado a sigla do PS. Não porque esta sigla fosse  incómoda, mas isto  teria sido bastante ingrato para Manuel Valls e Cazeneuve, as  estrelas do momento  que deram  a camisola por ele  – mas porque ele quis funcionar em termos de   Frente Republicana o que, de  resto, indicou no seu discurso de vitória onde agradeceu, nomeada e explicitamente, a todos os tenores da direita, nacionais e locais, e em especial a todos os que  o tinham apoiado contra Sophie Montel e a  FN.  A eleição decidiu-se  apenas por algumas  centenas de votos, o mesmo é dizer que era necessário efectivamente tudo isto  para impedir a chegada  de um quarto deputado de extrema direita à Assembleia.

Ter-se-á razão em dizer, no entanto, com 48,6% para o partido de Marine Le Pen, que a candidata da  FN evidentemente tinha razões para estar envaidecida , mostrando-se com boa cara apesar do desagrado do resultado.  Para ela, com efeito a FN   alcançou  uma magnífica derrota contra o sistema UMPS.

Simplesmente,  isto não é completamente verdade. Não houve sistema UMPS contra ela. Houve naturalmente o PS e o conjunto da esquerda da esquerda (ou o que  existe neste extremo do espectro político), a imensa maioria do UDI mas para a  UMP, é sem dúvida mais complicado.

Não há nenhuma razão para que o eleitorado da 4ª circunscrição do Doubs não reflicta a esquizofrenia reinante a propósito da estratégia a adoptar relativamente à  FN e às alianças eleitorais ou a outras  ocasiões possíveis. O que há de  comum, por exemplo, entre um Alain Juppé e um Geoffroy Didier? O primeiro, ensinado por décadas de vida política, parece ter entendido que a FN está  para a direita como está o Blob, esse chiclete alienígena de um filme da série  Z americana dos anos 1950: quanto  mais se fala dele,  mais nos estamos a opor a ele na tentativa de usar os mesmos meios, e assim mais ele cresce. A única maneira de salvar a situação é a de estabelecer um cordão sanitário intransponível entre a FN  e os outros partidos.  Geoffroy Didier, ele, encarnaria  sobretudo, sem  complexos, uma visão mais italiana para a maioria das coisas, [ ou seja todas as coligações da esquerda com a direita são válidas] . Finalmente, uma vez que a UMP não tem nada de gaullista (Gaullismo era  esta especificidade histórica de uma direita saída da  Resistência), tanto mais eles  se podem aliar com as  pessoas que quiseram  dar ares de querem ganhar juízo, de terem mudado. Uma forma  de aliança como  a que houve na Itália dos anos 90-2000 entre Berlusconi e Gianfranco Fini, um antigo líder do MSI, a correspondente  FN italiana,   que tinha  abandonado qualquer referência ao fascismo..

Entre estes dois extremos, Sarkozy tentou uma  impossível  síntese que neste domínio, pelo menos,  prova  que ele  é menos dotado que na  época em que Hollande era  primeiro secretário do PS. O seu malogro é patente desde as vinte horas de ontem à noite. Em política, somente  a vitória conta. Poder-se-á e vai-se mesmo fazê-lo, pelo  lado de  UMP, relativizar esta “vitória apertada” assim como se tinha já  relativizado o primeiro lugar de Marine Le Pen nas europeias. Isto não  impede, numa democracia, o que conta é quem ganhou, independentemente da taxa de abstenção, independentemente da diferença de votos obtidos. É quem obteve  mais votos expressos é quem  ganhou porque foi  quem melhor soube  motivar os eleiotres.  E é na verdade a UMP que menos terá motivado  os seus na  primeira volta e foi, na verdade, o socialista Barbier que melhor  soube motivar os seus na segunda volta.  Ou, por outras palavras,  do mesmo modo que a FN era o primeiro partido em Junho de 2014 da França, o PS manteve em Fevereiro de 2015 um lugar de deputado que ele próprio julgava  ter  perdido.

Em seguida, extrair daqui conclusões gerais ou previsões para o futuro seria muito imprudente. Pode-se simplesmente continuar a lamentar o facto de que o método de votação por maioria esconde a realidade dos blocos políticos existentes na França e que não têm nada a ver com os partidos existentes: um bloco de direita dura reagrupando a  FN e a fração post-sarkozyana  da  UMP; um bloco social-liberal ou  liberal-social  que vai de  Juppé a Macron, passando por  Bayrou e Lagarde e um bloco de esquerda-o  partido de  vocação tipo “syrisiana” englobando contestatários  socialistas, Partido de esquerda, comunistas, ecologistas e outros alternativos.

E constatar que nesta eleição 4ª circunscrição de  Doubs  foi este bloco central que soube mobilizar e ganhar.

Jérôme Leroy*, Revista Causeur, Doubs: le FN brillamment battu mais battu- Une victoire de l’UMPS ou d’un nouveau bloc central?.

Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/doubs-fn-ps-montel-31430.html

*Jérôme Leroy é escritor e redactor chefe da revista Causeur.

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2. DOUBS :A derrota vitoriosa da Frente Nacional

 A UMP deverá discutir com os seus eleitores

Raoul Fougax, DOUBS: LA DÉFAITE VICTORIEUSE DU FN – L’Ump devra faire avec ses électeurs

Revista Metamag, 9 de Fevereiro de 2015

O sistema politico-mediático realizou uma campanha obstinada contra a Frente Nacional. Os meios de comunicação social produziram mais ou menos  uma pequena porcaria por dia. Os ministros do espírito do 11 de Janeiro deslocaram-se. O presidente ele mesmo, entre a ameaça do islamismo  e a da Rússia, não hesitou no estrangeiro em  declarar a República em perigo na eleição  parcial de Doubs. Os anti-frentistas  de profissão da UMP  exprimiram-se e Sarkozy falhou ele mesmo em  deslizar para o PS.

Certamente, o candidato socialista é eleito e interrompe uma série de derrotas eleitorais em legislativas parciais. Mas o espírito do 11 de Janeiro não atacou. A sideração-manipulação dos espíritos ficou-se por Doubs. Ali, igualmente, também fracassou  definitivamente a estratégia da Frente Republicana.

Com efeito  tendo chegado à frente na  primeira volta, a candidata da Frente Nacional progride ainda de  6.000 sufrágios na  segunda volta. Os eleitores de direita dizem claramente que podem votar e que querem votar pela direita mais radical.

O PS está  alarmado, Sarkozy está despeitado mas os Juppé de França e um outro   Cosizco de combate antifascista  foram desaprovados  pelos eleitores  ainda mais do que pelo seu partido. Há um vencedor, o PS, um ganhador, a Frente Nacional,   um grogue, Sarkozy, e um desaprovado  eleitoralmente, Juppé.  Apesar da vontade de insistir sobre o malogro da FN  os meios de comunicação social souberam  reconhecer que o resultado não correspondia às suas esperanças. A maior parte dos editorialistas  puseram em destaque  na   segunda-feira a progressão “siderante” da Frente Nacional e não a curta vitória do PS. Os resultados ressoam como “uma advertência” para as próximas eleições  e isto tanto para  o PS como  para a  UMP.

“O PS estaria errado em querer ver  na sua pequena vitória de ontem o sinal da reconquista”, sublinha Paul-Henri du Lambert  (Le Figaro). “A  FN ultrapassou a  esquerda à primeira volta e inclina-se à justa na segunda,  assinando  de forma o  mais tangível a grande migração do eleitorado popular para o partido de Marine Le Pen. “Mas, acrescenta, a advertência mais severa visa a  UMP, eliminada na  noite da primeira volta e incapaz de dirigir uma mensagem claramente aos seus eleitores”. “A FN não esteve longe de ganhar neste velho distrito  socialista”, escreve  Laurent Joffrin (Liberation).” “A esquerda apanhou um valente susto : esta deve fazer o mais rapidamente possível um exame de consciência .”

“Siderante  a  ascensão da Frente Nacional  que  que esteve à beira de uma primeira conquista em duelo ”, análise Alain Dusart  (L’Est   Républican) “é “uma advertência e um prelúdio  para os próximos actos eleitorais  que desencantarão“. “A  UMP sai-se também grogue  desta eleição parcial,  com um presidente posto em minoria e uma porosidade agora mais que evidente   nos votos UMP e FN, prossegue. “Por efeito mecânico, a dinâmica FN  foi desencadeada,  apesar das aparências enganosas desta frágil vitória, reveladora  de uma ruptura cruel entre os estrategas dos Estados-maiores políticos parisienses e o sofrimento de um eleitorado, nomeadamente rural, pronto a virar a mesa”.

A fractura é confirmada de  voto a voto e a política do assalto sobre a emoção popular, eleitoralmente falhou. Os franceses sabem o que realmente ameaça o  seu modo de vida, o seu poder económico e social, a ameaça mortal da política obscurantista muçulmana  e certamente isso não é a  Frente Nacional.

 

Raoul Fougax,  revista  Metamag, LA DÉFAITE VICTORIEUSE DU FN – L’Ump devra faire avec ses électeurs.

Texto disponível em:

http://metamag.fr/metamag-2654-DOUBS–LA-D%C3%89FAITE-VICTORIEUSE-DU-FN.html

 

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