Foi lendo em Hayden White, a quem cheguei por Edward W. Said, que pela primeira vez entendi com surpresa que a História é apenas um conjunto de narrativas; e as histórias nacionais ou especializadas, com os seus tropos e grandes alegorias à moda e absolutamente epocais, uns grandes ciclos narrativos ou umas poéticas. Daí, terminei de entender que a sua pretensa objetividade não passa de condição figurada e convenção assumida pelos leitores para fazer a ficção verossímil na funcionalidade que a Modernidade lhe outorgou.
Lendo a história como sucessão de narrativas paralelas ao resto dos géneros literários e em função dos grandes motivos, modas e crenças, na tradição que se vai fazendo ou do momento geral (em função da comunicação desde os grandes centros e capitais culturais) em que se escreve, é mais simples entender as mensagens e os discursos subjacentes, as campanhas e interesses que ecoam, como parte de linhas políticas, sociais ou discursivas. A função, a ambivalência, marginalidade, autoridade, mimetizagem dos textos, tal como nos destaca Homi K. Bhabha, aparecem mais claros e em função do teatro, rol e lugar que ocupa o autor e o discurso na sua época.
Há daquela, como em toda história da literatura, autores, instituições, obras, tropos e alegorias, canónicos, icónicos, centrais, bem-sucedidos, como os há efémeros, descontínuos, periféricos, fracassados e marginais. Existindo a possibilidade de que em função das dinámicas do tempo e dos interesses dos narradores (ou dos promotores), os elementos descartados passem ao palco central (e vice-versa).
É interessante, nesse sentido, que a história, a língua e a literatura de Portugal, participe das fundas arelas e anseios das letras latino-americanas, de independizar-se das origens e do espaço ibérico; incrementando-se este fenómeno, a respeito de Portugal, no caso de Brasil e das Literaturas africanas, como apontou Mia Couto, de língua portuguesa.
Rotura continuada, afirmação, originalidade e procura de representatividade ou de voz, em que a marcação da independência, ou a afirmação de uma origem nela, corre parelha à procura de novas fontes temáticas, linguísticas e referenciais (na Itália, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na africanidade, no orientalismo, no indigenismo, no regionalismo, no localismo) e em escape constante do passado e tradições, anteriores às independências.
O fenómeno, estudado por Ángel Rama, integra-se curiosamente, dentro do espaço complexo, mas comum, da transculturação narrativa e cultural na América Latina. Cosmopolitismo, fuga e regionalismo seriam apenas elementos constitutivos de narrativas nacionais e de literaturas que fogem ao discurso e tropos da Metrópole. O que desde uma perspectiva comum Ibérica é evidente tanto para Brasil (e países africanos) a respeito de Portugal quanto para o resto dos diversos espaços locais americanos a respeito da Espanha. Do mesmo jeito é um fenómeno marcante na evolução da política, da historiografia e da literatura Basca e Catalana, especialmente nesta última que para além da sua rica tradição Mediterrânica mira constantemente a Itália e França.
Porém, e ainda as reconstruções, reações nacionalistas, das metrópoles à perda das colónias, é fascinante, de uma perspectiva galega, considerar que também Castela e Portugal, criaram os seus elementos narrativos nacionais, linguísticos e literários na oposição, na bebida de fontes estrangeiras, na desgaleguização, estabelecendo como narrativa fixa e noção de legitimidade a fundação e esquecimento de um possível ou provável fundo comum. Gótico, pre-castelhano, operam em Castela e Portugal, como “godo”, “góthico”, “medieval”, “barroco” e… “gallego” nas modernas nações americanas.
Porém, a Galiza tem mantido e desenvolvido uma estratégia contrária, destacando uma e outra vez como grandes alegorias os vencelhos no remoto, o continuum, o apelo ao románico, medieval e barroco, o seu sentido de matriz e o seu papel como ponte. A contrário de todas as nações e culturas ibéricas, incluindo os seus rebentos americanos e africanos, em quanto a política, língua e cultura, ideia da literatura e narrativa da história com todos os seus principais tropos, na Galiza (sem esquecer um certo anti-castelhanismo moderno talvez imitativo do basco e catalão) a noção dominante é a impossibilidade de achar as origens, a existência desde que o mundo é mudo, a negação de uma única identidade, a inclusão, integração admirativa da variedade e a permanência, não apenas no espaço ibérico e americano, quanto também no Céltico e Atlântico.
