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A propósito de provocações, menciono aqui uma afirmação de Claudio Willer de que “hoje, deve-se deslocar o foco da militância por vezes episódica para uma configuração de obras pautadas pela riqueza imagética e pelo exercício da liberdade de imaginação, cuja recepção é prejudicada pelo filtro de uma espécie de cartesianismo poético brasileiro”.[13] Dei propositalmente um salto no tempo, apenas para compreendermos que, se considerados os obstáculos referidos ao início, a militância não foi tão episódica. Havia um paralelismo de ações – sobretudo no que diz respeito às artes plásticas e à ambientação da psicanálise e sua relação com a criação artística envolvendo crianças e loucos –, que não estampava uma cumplicidade explícita com o Surrealismo, mas que era claramente uma decorrência do mesmo. Exemplo disto é possível encontrar na publicação de um livro como A expressão artística dos alienados, em 1929, de Osório César, ou ainda no vínculo, distinto entre si, que tiveram com essa nova atividade artistas como Tarsila do Amaral e Lasar Segall.
Há inúmeros aspectos a serem verificados quando se está a desenhar um mapa das atividades afins ao Surrealismo na cultura brasileira. Valentin Facioli salienta que “o Surrealismo foi percebido logo em 1924 por um grupo que se reuniu no Rio de Janeiro em torno da revista Estética, que publicou apenas três números e desapareceu em 1925. Os dois jovens editores, Prudente de Moraes Neto, e Sérgio Buarque [de Holanda], defenderam o Surrealismo e polemizaram contra seus detratores, que já apareceram quase instantaneamente, entre eles o crítico católico Tristão de Athayde”.[14] Também Sergio Lima faz menção “à aparição polêmica da revista Estética em 1924 e a publicação na mesma do manifesto pelos ‘direitos do sonho’, de Sérgio Buarque de Holanda”. Trata-se de uma afirmação quando menos curiosa, pois revendo os três números de Estética não é possível localizar o citado manifesto. Graça Aranha faz menção ao fato de que “não há cultura coletiva no Brasil”, e evoca o empenho dos editores da revista em “modernizar, nacionalizar, universalizar o espírito brasileiro”. Neste mesmo número inaugural, Buarque de Holanda aborda a falta de tradições nas jovens culturas americanas, logo concluindo que “resta ao homem americano, e ao brasileiro em particular, a imaginação estética criada no ‘inconsciente mítico’, onde ainda não foi de todo eliminado o ‘terror cósmico’”.[15] Não me parece que em nenhum dos casos se possa falar de uma defesa explícita do Surrealismo, ainda mais se pensarmos que Prudente de Moraes Neto, no terceiro e último número da revista, refere-se à escritura automática como uma moda passageira.
O tema, no entanto, tem assumido um preocupante ar de verdade, requerendo observá-lo com maior detalhamento. Em entrevista datada de 2001, o crítico Robert Ponge menciona que, “no Brasil, em 1925 (talvez antes), Prudente de Moraes Neto e Sérgio Buarque de Holanda já realizavam experiências de escritura surrealista”,[16] isto sem dar um único exemplo. O mesmo autor, em ensaio publicado em 2004, menciona uma entrevista de Buarque de Holanda em que este declara que, juntamente com Prudente, escreveram “cartas surrealistas, conforme a receita de Breton”. Ao contrário de Sergio Lima e Valentin Faccioli, Ponge pelo menos esclarece que textos dessa natureza jamais foram publicados na revista que ambos dirigiam.
Segundo o próprio Prudente de Moraes Neto, seu primeiro texto surrealista foi publicado em dezembro de 1925 no jornal A noite. Em 1927, outra de suas narrativas surrealistas causa uma breve polêmica, ao ser publicada na revista Verde, de Cataguases. Esta narrativa se intitulava “Aventura”. Como recorda Cecília de Lara, em livro que recolhe a correspondência de Antônio de Alcântara Machado a Prudente de Moraes Neto, “efetivamente, Prudente escreveu a narrativa experimental ‘Aventura’, quando o Surrealismo, chamado ‘super-realismo’ na época, dava seus primeiros passos. Tais experiências de Prudente de Moraes Neto deram o que falar, mesmo entre os membros do grupo modernista.”[17] Certamente seu maior opositor seria Mário de Andrade. Em carta datada de 06 de dezembro de 1927, que ele próprio denominara de “carta super-realista”, referindo-se à repercussão de “Aventura”, assim escreve Alcântara Machado a Prudente de Moraes Neto: “O Mário rompeu às quatro horas da tarde entre autos, protestos e ações de manutenção de posse equilibrando maxixamente o Clã do Jaboti. Contou que teve a mesma ideia, virou Breton, escreveu para você superrealisticamente.” Síntese esclarecedora do tema encontramos na já referida Cecília de Lara: “Aventura” levantou a discussão sobre o Surrealismo. Diz M. de Andrade: “Minha carta foi uma blague divertida cheia de simpatia, mas foi, confesso, incontestavelmente um aviso”. Na realidade, M. de Andrade combate o Surrealismo porque ele “não adianta e porque não ajuda”, pois acreditava que o Brasil precisava de uma “arte de caráter interessado”. Mas Prudente continuou defensor do Surrealismo, pois, passados mais de 50 anos, afirma em entrevista com evidente orgulho: “Os primeiros textos surrealistas no Brasil foram os meus. Apliquei a técnica da escrita automática” e cita como primeira experiência “Sinal de alarme”, publicada em A noite, Mês Modernista. Também em entrevista nesse mesmo estudo, SBH [Sérgio Buarque de Holanda] lembra que: “A ideia de Prudente é do Surrealismo: expressão, sem necessidade de comunicação. Escreveu cartas quilométricas sobre essa questão, que devem estar no arquivo do Mário”.
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NOTAS

