A “moral” desta gente! – por Joaquim Palminha Silva

Eis uma história de proveito e exemplo, como aquelas que se contavam e escreviam no século XVI…

Em 1885, Paul Gauguin tinha 33 anos… Oficial da marinha mercante francesa, nas horas livres entregava-se à sua paixão favorita:- A pintura!

Os seus quadros começaram a ser expostos, e o movimento impressionista francês, se assim posso dizer, viu alguma originalidade no seu trabalho. Todavia, a venda dos quadros não resultou como meio de subsistência para si e sua numerosa família. Entretanto, foi corretor da Bolsa de Paris, mas sem sucesso. Casado com a dinamarquesa Mette Sophie, um dia, de passagem pela sua casa em Copenhaga, P. Gauguin decidiu abandonar a mulher e seus cinco filhos, de forma a regressar a Paris. Depois partiu para Arles, a seguir para Rouen e, finalmente, embarcou num navio a caminho de Taiti, no meio do Oceano Pacífico, onde se consagrou exclusivamente à sua arte. Aí encontrou inspiração para produzir as obras que se impuseram mundialmente, fazendo dele, ao lado de Van Gogh, um dos grandes pintores da “modernidade” que despontava… Para uns biógrafos e historiadores de Arte, esta história é um caso típico do fanatismo tradicional do artista, pronto a sacrificar tudo em favor da sua arte. Há mesmo “pensadores” que se deixam seduzir pela “força de carácter” do artista que, assim, se privou do que supostamente lhe seria mais querido, de forma a responder ao apelo da sua inspiração para realizar obra de arte ímpar.

Uns e outros esquecem o essencial: – No momento em que o pintor fez a sua opção de vida, não podia saber que se tornaria no famoso Paul Gauguin. Isto é, ele não colocou em cada um dos pratos da balança da vida o sucesso indiscutível da obra e a família, dado que uma ainda não existia, no momento em que decidiu abandonar a outra!

Por conseguinte, o seu gesto não pode ser empacotado num embrulho de nobreza de alma senão retroactivamente, e mesmo assim… Isto é, se Gauguin não se tem tornado Gauguin, teria passado à posteridade como um artista falhado, sobrecarregado com o suplemento de haver sido um pai degenerado e indigno.

Em síntese, parece que para muitos o sucesso alcançado por P. Gauguin acabou por lhe fornecer, a posteriori, uma justificação moral para o seu indesculpável comportamento como pai e como esposo…

É útil referir que o incerto futuro e o hipotético êxito, neste como em muitos casos semelhantes, actuam (de forma absurda) apenas na cabeça de alguns historiadores de Arte e ensaístas, de modo a justificar uma opção de vida que, na sua origem, é profundamente egoísta e, por conseguinte, pouco exemplar. Há pessoas que imaginam, portanto, que o futuro lhes será favorável e, assim sendo, acreditam que toda a imoralidade da sua decisão será facilmente atenuada, desculpabilizada ou esquecida. Recordemos: – Este é também o raciocínio com que pretendem justificar o risco das suas opções, por exemplo, os viciados no jogo… e todos os escroques do mundo!

Diz agora o Governo que Portugal que saiu com sucesso do programa de empréstimos do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia (e suas exigências reformadoras calamitosas), que colocaram os portugueses na pobreza. É possível…

O Governo, tal um Paul Gauguin, mas sem arte alguma, encetou uma política de risco, retirando direitos e garantias, salários e pensões que muito custaram a adquirir aos portugueses, acabando por os abandonar à pobreza e à infelicidade (paramos aqui a imensa lista das arbitrariedades e desgraças)…

Súbito, a montanha pariu um minúsculo rato!… País com escassa dimensão e performance tecnológica incipiente, somando 630 mil desempregados, a braços com uma quebra demográfica de décadas, vê agora diminuir, empurrada pelo Governo para a via emigratória, a sua jovem população produtiva, com formação profissional (enfermeiros, médicos, engenheiros, etc.) e sem qualificações específicas, o que, segundo especialistas estrangeiros, causará impactos negativos na produtividade e no crescimento económico. Isto é, além de um quarto dos 40 mil milhões que a “troika” emprestou a Portugal, servir apenas para pagar os juros desses empréstimos assassinos, os riscos encetados pelo Governo, à revelia e contra os cidadãos, revelam-se um desastre…

Como a “filosofia” de vida dos viciados no jogo e de todos os escroques, o Governo procura agora desesperadamente justificações morais que, aos olhos dos espoliados, dos humilhados e ofendidos, possam branquear a posteriori a sua acção; possam servir de escudo “moral” para a sua grande imoralidade!

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