O que mais perturba em Passos Coelho, desde que a máquina do poder político pôs nele os olhos, fez dele o seu ungido/messias/cristo, com objectivos muito concretos e definidos a concretizar, no imediato, é a sua maquiavélica ingenuidade, mais aquela cínica máscara de inocência política, por trás da qual se esconde uma desmedida ambição. Desde cedo, a máquina do poder guindou-o meticulosamente ao topo, ao mesmo tempo que obrigou todo o partido a blindá-lo a tudo e todos. Só há PassosCoelho, como, na igreja católica, só há o papa infalível. Tudo gira em função dele. O regime é republicano, mas o poder é do rei PassosCoelho. Um homem só, como convém, quando se é poder. A família que constituiu, é como se a não tivesse. Quando muito, apenas uns poucos dias de férias de verão no Algarve. A máquina que o guindou não lhe admite afectos. Os afectos matam o poder. Todos os holofotes são poucos para ele, o primeiro-ministro de Portugal. Sem falhas. Sem pecados. Sem fraquezas, próprias de humanos, que o poder é divino, não é humano! E é um só. Sem mais interesses que os do poder! Chega a causar calafrios, tanta meticulosidade, tanta perfeição, tanta incorruptibilidade, tanta lisura institucionais. PassosCoelho é o rei-sol. O partido é ele. Nenhuma voz discordante. Todos os olhares são poucos para ele. Numa unanimidade de arrepiar. A felicidade nos rostos dos seus mais próximos é de êxtase. Impôs a maior austeridade às populações. Continua a ser deus para elas. Os sacrifícios são redentores. Quantos mais, melhor! Tanto que ele já anuncia às populações novos amanhãs-que-cantam. As próximas eleições são para lhe darem o conforto da maioria absoluta. Sem mais necessidade da traiçoeira muleta do PP. Nem do inábil CavacoSilva. Só que tanta perfeição política concentrada num só homem está a tornar-se agora o pior pesadelo. A queda do rei-sol está iminente. A escuridão no PSD é completa. Para cúmulo, o país bate no fundo e tem de ouvir raspanetes em público do próprio presidente da Comissão Europeia. Acordemos. Vêm aí tempos de mudança!