Estética não era a favor do Surrealismo, embora também não fosse contrária a este movimento. Era, isto sim, quase que de toda alheia ao mesmo. Não digo com isto que seus editores não soubessem da existência do Surrealismo, mas sim que ali não trataram do tema, exceto de forma indireta e em dois únicos momentos. Em Estética # 2, Prudente de Moraes Neto, em ensaio intitulado “Sobre a sinceridade”, cita o Surrealismo – por ele tratado de “superrealismo” – ao refletir sobre o tema da personalidade na literatura, tema este estudado por Benjamin Crémieux na Nouvelle Revue Française. Observando a personalidade pela lente da sinceridade, o editor de Estética acaba por concluir que a exploração do inconsciente, no Surrealismo, pode ser vista como um excesso de sinceridade, e afirma: “Os superrrealistas serão sinceros demais, como o homem que passou por cima do cavalo e caiu do outro lado ‘montou demais’”.[18]
Na edição seguinte, Sérgio Buarque de Holanda, em artigo intitulado “Perspectivas”, refere-se ao texto de Prudente lembrando que a realidade pode ser procurada sob diversos prismas, seja o da sinceridade, da esperança, da recordação, do sonho. Em seu texto, Buarque de Holanda destaca a perspectiva do sonho, como mecanismo de confissão ou “expressão dos [nossos] sentimentos mais profundos”. Diz ele: Hoje mais do que nunca toda arte poética há de ser principalmente – por quase nada eu diria apenas – uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos séculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraíso nas regiões ainda inexploradas. Resta-nos, portanto, o recurso de dizer das nossas expedições armadas por esses domínios. Só à noite enxergamos claro.[19]
Não me parece, em nenhum dos casos, que houvesse uma manifestação de adesão ao Surrealismo. Nem mesmo uma simpatia explícita. Quando, em 1974, se publica uma edição fac-similar dos três números de Estética, a apresentação é feita por Pedro Dantas, pseudônimo de Prudente de Moraes Neto, onde deixa clara a aspiração estética da revista: Precisávamos optar por um modelo para a revista. O gosto sempre seguro de Sérgio Buarque de Holanda indicou o modelo inglês da revista de T. S. Eliot: The Criterion. Era o que gostaríamos de ter seguido.[20]
Não somente Pedro Dantas não se refere ao Surrealismo nessa apresentação, como também, nas 40 páginas preparadas por Mário Camarinha da Silva, sob o título “Glossário de homens e coisas da Estética”, espécie de roteiro de produção da revista, não se menciona uma única vez sequer o termo Surrealismo.
Este tipo de acréscimo a uma situação que não coincide com a realidade dos fatos é tão danoso à construção de uma historiografia quanto seu revés, a não-menção a aspectos reais, de que pode ser exemplo a leitura quase sempre parcial que é feita da poética de Jorge de Lima (1895-1953), sem considerar corretamente sua identificação com o Surrealismo, manifesta não somente em sua poesia, mas também na série de colagens que resultou na publicação de A pintura em pânico, em 1937. No Brasil preferiu-se o termo foto-montagem ao invés de colagem, e Mário de Andrade apressou-se em dizer, em 1939, que esta técnica “não deve ser apenas uma variedade de poesia sobrerrealista, que, por princípio mesmo, não se sujeita a nenhum controle estético”. O próprio Murilo Mendes, companheiro de Jorge de Lima nesta e em outras realizações, ao prologar este livro afirma que “o movimento surrealista organizou e sistematizou certas tendências esparsas no ar desde o começo do mundo”,[21] mas em momento algum afirma um vínculo direto entre Jorge de Lima e Surrealismo. Isto nos leva diretamente ao “Surrealismo à moda brasileira”, maneira encontrada por Murilo Mendes para definir sua identificação com o movimento. No entendimento de Valentin Facioli, “nas condições brasileiras da época, a liberdade de escolha possível e plausível limitava-se, pois, à escolha de técnicas artísticas e seus efeitos, como opção particularizante e parcial de estilo artístico, o que era melhor que nada e interferia no modo de produção de sentido, mas bem pouco diante das possibilidades abertas pelo Surrealismo como intervenção nas condições sociais de produção, circulação e recepção da obra artística erudita”.[22] Ora, este “melhor que nada” aos poucos vai se deixando acentuar como traço essencial do perfil sociocultural brasileiro, cujos danos verificamos ainda hoje na quase absoluta falta de compromisso diante de toda ou qualquer situação.
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NOTAS
[18]Estética # 2. Rio de Janeiro, janeiro-março de 1925.
[19]Estética # 3. Rio de Janeiro, abril-junho de 1925.
[20]Estética 1924/1925. Edição fac-similar. Apresentação por Pedro Dantas. Glossário por Mário Camarinha da Silva. Rio de Janeiro: Edições Gernasa, 1974.
[21] “Nota liminar”, prólogo de A Pintura em pânico. Rio de Janeiro: Cooperativa Cultural Guanabara, 1937.
[22] “Modernismo, vanguardas e Surrealismo no Brasil”. Ob. Cit.