HOMENAGEM A AMADEU FERREIRA – 3 – Uma Voz que faltava na Sinfonia Bíblica: O Mirandês e «Ls Quatro Eibangeilhos»

Imagem1(Conclusão)

5-Reparo que o tradutor dos Evangelhos para mirandês se armou com defesas, buscando na edição paracrítica da Vulgata Latina as formas mais documentadas de uma edição (digo «paracrítica» porque estamos longe de conhecer os meandros da tradição[16]– que já era problemática para S. Jerónimo quando procura responder ao Papa S. Dâmaso[17]).

Provavelmente qualquer exegeta bíblico tomará como menoscabo que não se tenha subido até ao original grego. Teremos direito, no entanto, de lembrar a tal «autoridade» outras considerações: a aceitarmos a censura, haveríamos de ripostar que, por detrás das formas gregas do Evangelho recebido, haveria que conjecturar a expressão aramaica correspondente[18]; por outra parte, e sobretudo, não podemos desmerecer da recepção e integração nas comunidades cristãs primitivas e, depois, nas comunidades cristãs da história que são os meios naturais em que recebemos os textos e as suas leituras…

É fácil enumerar questões e adensar problemas, sem indicar soluções. Certamente gostariam muitos de ter gravado as próprias palavras de Cristo. Facto é que ninguém as fixou na sua materialidade: estamos hoje mais convictos da vulnerabilidade da Incarnação e dos meios que serviram a Cristo para nos transmitir a sua Palavra: o processo de transmissão é extremamente humano – com ele temos de reconstituir a mensagem, pois não temos outro caminho que não seja o das testemunhas humanas que firmam a nossa fé através da confiança que concedemos uns aos outros numa cadeia ininterrupta.

Ora, na origem das nossas tradições está a Vulgata latina que Jerónimo reviu e toda a história cultural do Ocidente conheceu; é através dela que se ouviram as lições transmitidas – Paul Claudel, o grande poeta francês, apreciava tanto a Vulgata, mais do que qualquer outra, pelos seus ritmos, pela sua musicalidade, pelas suas escolhas lexicais, pela sua força de tradição…

Apreciamos o apego dos exegetas ao texto mais antigo; os filólogos serão os primeiros a reclamar o conhecimento das versões primitivas, mas teremos de nos situar na vida dos textos e na vida das comunidades: o Cristianismo não vive da história, vive da memória – Cristo disse-nos que fizéssemos a eucaristia em sua memória; a nossa história é justamente a fidelidade a essa celebração (que é identificação com ela). Os Evangelhos fixam a memória de Cristo: as versões que conhecemos (outras houve certamente, mas perderam-se na eliminação dessas comunidades, como as da Síria) dão-nos a familiaridade de uma cultura, de que todos nós somos dependentes.

Sabemos igualmente que os níveis de análise se diversificam: os refinamentos da filologia são certamente compatíveis com os enunciados da catequese, mas esta não tem que responder pelas minúcias da filologia. Queiramos ou não, as línguas não são sobreponíveis e as relações de correspondência entre significante e significado faz-se dentro do triângulo que implica uma imagem inteligível e não uma conversão directa: ora a imagem inteligível procede de uma vivência, não de uma discussão doutrinal. Cristo fez-se Palavra e, como tal, as contingências da Incarnação passam também pelas regras da gramática de cada língua.

6-Em contrapartida, havemos de advertir que o enriquecimento de língua acontece nos intercâmbios mais do que no círculo cerrado de um grupo isolado ou no interior dos simples processos morfológicos (de sufixação e prefixação); a afirmação de processos de língua realiza-se no seu uso; mediante este se conquista o direito a uma autonomia linguística. Porventura, em futuras revisões desta tradução para mirandês, valerá a pena alargar a reflexão sobre as versões paralelas (de línguas aparentadas) e admitir as vantagens em adoptar soluções que andam espalhadas por outras línguas.

Falta-me capacidade para entender quais as adaptações a que o tradutor teve de recorrer; quero supor que a impregnação cultural da Bíblia em expressões de séculos nas comunidades mirandesas terá contribuído para facilitar a tradução; quero admitir também que a tradução agora levada a público ajudará a fixar representações e ajudará igualmente a formar uma linguagem mais específica. Sem negar o direito à fidelidade à língua conhecida, mas tendo em conta também que a fidelidade à expressão sagrada, há que saber marcar distâncias; o resultado será, por certo, um enriquecimento de língua. Não estudámos verdadeiramente o contributo que as traduções deram à língua de destino…

Não me pergunto pelo modelo de tradução a que se terá subordinado, pois isso pertenceria a outra esfera de discussão[19]. Não pergunto também pela dependência de autorização (seja na base de comentário seja no modelo de recepção que habitualmente está pressuposta em dados de correlação das comunidades com os seus textos fundadores). Não me sinto também capaz de examinar questões de integração comunitária ou susceptível de avaliar o tipo de discurso (seja ele mais informativo ou mais poético), como alguma corrente de análise poderia solicitar em perspectiva de texto superior (sacral).

O nível de apreciação não teria, no caso, de se colocar hoje em razão de uma ortodoxia a resguardar por parte de uma autoridade religiosa, mas de concepção textológica. Sabemos que na antiguidade, as primitivas comunidades cristãs operaram com alguma liberdade, pois todo aquele que se considerasse capaz de assumir a versão para a sua própria língua, não hesitava fazê-lo em benefício da sua comunidade – o tempo se encarregaria de seleccionar as que mais se integravam na vida dessas primitivas comunidades cristãs.

Quanto à relação com a autoridade religiosa, hoje somos mais tolerantes do que o foram as autoridades pós-tridentinas, mas não me dispenso aqui de sublinhar que a função da autoridade não é simplesmente nem principalmente a de censurar, mas a de certificar em acto idóneo a qualidade das formulações e a sua correspondência com os textos recebidos, tanto mais significativo quanto os destinatários têm de se firmar na confiança.

Vejo com alegria que o novo bispo de Bragança-Miranda se irmanou com as diferenciações linguísticas e não se furta ao contacto com elas, para as partilhar. Peço a Deus que esta nova tradução contribua para alargar a sinfonia das línguas que fazem ouvir os louvores a Deus em formas novas.

Chegou agora a tradução mirandesa d’ Os Quatro Evangelhos, posta a público[20]. Vem tarde? Em boa hora chegou. Se transpuséssemos a nossa expressão para castelhano (enhorabuena), ficariam já expressos os nossos parabéns ao tradutor e ao seu editor. Assim se entenda a nossa participação nesta festa.

Notas

[1] Texto lido na apresentação da tradução d’Os Quatro Evangelhos em língua mirandesa, em 12 de Novembro de 2011
[2]«Bíblia (traduções portuguesas)», em Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa (org. e coord. de G. Lanciani e G. Tavani), Lisboa, Ed. Caminho, 1993.
[3]«Damião de Góis, tradutor: perspectivas para uma integração cultural», in Damião de Góis na Europa do Renascimento – Actas de Congresso Internacional, Braga, Faculdade de Filosofia da Univ. Católica Portuguesa, 2003, pp. 233-265. A minha intervenção tinha por objectivo homenagear um amigo, Tom Earle, da Universidade de Oxford, a quem todos devemos o ter chamado a atenção para a tradução de Damião de Góis, que tínhamos perdido de vista, embora houvesse exemplares espalhados por algumas bibliotecas e tivéssemos esquecido o manuscrito que o autor enviou ao Conde de Vimioso e se encontra (em más condições de conservação) entre as fontes da BPM do Porto.
[4]«Dizer a Bíblia em português: fragmentos de uma história incompleta», Revista Lusófona de Ciência das Religiões – A Bíblia e suas ediçõesem Língua Portuguesa (no 200o Aniversário da primeira edição bíblica em português da Sociedade Bíblica / 1809-2009), Lisboa, Ed. Universitárias Lusófonas / Sociedade Bíblica, 2010, pp. 7-58. Este artigo retoma, com reformulações, os dados aparecidos em «A Bíblia em português: entre estar e dizer, as aporias de um percurso», Igreja e Missão, 207, 2008, 3-52.
[5]Contra o que esperávamos não foi isso objecto de análise por parte de Herculano Alves que curou de outros aspectos na sua dissertação de doutoramento. António Ribeiro dos Santos prestou atenção ao exemplar revisto pelo autor e recolheu-o à Biblioteca Nacional de Lisboa.
[6]O Santo Evangelho (revisão crítica de tradução), Lisboa, 1973; o projecto nunca passou daí, pois os revisores foram remissos no trabalho que o editor lhes propôs e esse mesmo editor tomou seguidamente outras decisões.
[7]A problemática do tradutor foi por nós enunciada em «O estatuto do tradutor: de mediador cultural a intérprete do texto (condições históricas com reflexões de premeio)», in A Profissionalização do Tradutor – VI Seminário de tradução científica em língua portuguesa (Lisboa, 10 e 11 de Novembro de 2003), Lisboa, FCT / União Latina, 2004, pp. 131-142.
[8]Bíblia do Peregrino, São Paulo, Paulus, 2002.
[9]Sociedade Bíblica, 2010.
[10]O texto acima referido foi publicado originariamente em Descobrimento, revista de Cultura n.o 3, 1931, 409-410 e está incluído no Livro do Desassossego, por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria AlieteGalhoz e Teresa Sobral Cunha, ed. Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982, vol. I, p. 16-17. Fizemos adaptação dos particularismos de acentuação usados pelo autor.
[11]Não insistirei neste aspecto, mas importa acentuar que há esquecimentos frequentes: se alguém buscar num dicionário o termo «manguitar-se», por certo o não encontra (mesmo no Aulete); dei com ele em leitura recente, na obra de Américo Chaves de Almeida, O problema da África Oriental portuguesa – I A ruína de Moçambique, Lisboa, s/ ed., 1932, p. 21 («E ele é tão pouco inteligente que nem isso vê, ou, se o vê, manguita-se para a sua reputação, olhos postos na safra de arrecadar as libras!» A omissão do registo talvez seja devida a pudor, embora seja frequente ouvirmos o desabafo de quem «se está nas tintas» (colando-se ao calão francês), sem se lembrar de que o «manguito» está imortalizado no gesto do Zé-povinho do Bordalo Pinheiro. Não é caso único: experimentei há tempos um grupo de eruditos perguntando-lhe pelo termo «ousia» que não está no Dicionário da Academia; tive que elucidá-los de que o termo é usado em história de arte e se reporta ao «altar-mor» ou «parte principal de uma igreja» (com espanto de um professor de grego que não reconhecia que o termo procedia da língua helénica).
[12]Consultar-se-ão, com proveito os quatro volumes que recolhem os trabalhos de Christine Mohrmann, ÉtudessurleLatindesChrétiens, Roma, EdizionidiStoria e Letteratura, 1961-1977.
[13]Cf. François Marty, La bénédiction de Babel, Paris, Cerf, 1990; veja-se, para uma análise acessível, um número de Bíblia dedicado inteiramente ao tema, com subtítulo «Lerêve de Babel», no 12, Outubro, 2002.
[14]Remeto para ocontributo de François Marty, «Comment la diversité conduit-elle à l’échange ?», Biblia, 12, 2002, 28-31.
[15]A formulação é de George Steiner, autorde obras em que o episódio é analisado : cf. Après Babel: une poétique du dire et de la traduction, Paris, Albin Michel, 1998; Errata. Récit d’une pensée, Paris, Gallimard, 1997, cap. 7. Em número de Le Magazine littéraire, no 454, Junho, 2006, consagrado a George Steiner, veja-se Pierre Bouretz, «Bénédiction de Babel», p. 68. A mensagem do episódio da Torre de Babel é que, frente a todas as nossas vicissitudes e contradições «somos um animal dotado de linguagem e é este dom que, mais que qualquer outro, torna suportável e frutuosa a precariedade da nossa condição… A esperança é gramática. O mistério do futuro ou da liberdade – estreitamente aparentada – é sintaxe. Os optativos, os modos gramaticais do desiderativo abrem a prisão da necessidade fisiológica, das leis mecânicas».
[16]NouumTestamentumLatine, edd. IohannesWordsworth&IulianusWhite, Oxford, 1889.
[17]Sobre as questões de tradução em S. Jerónimo, remetemos para a nossa introdução a S. Jerónimo, Carta a Pamáquio – Sobre a Tradução (Ep. 57), Lisboa, Ed. Cosmos, 1995. Temos em revisão nova edição.
[18]Valerá a pena lembrar, em registo extra-profissional, as anotações de Claude Tresmontant, LeChrist hebreu, Paris, Albin Michel, 1983, onde fica expresso que a condição do texto dos Evangelhos é anterior à versão grega; estamos, efectivamente, longe de saber a história das redacções, pelo que não se podem excluir as reflexões da textologia.
[19]Baste-me remeter para a sínteseoportuna, a seu tempo, de Sherry Simon, «La traduction biblique: modèle des modèles?», TTR: traduire, terminologie, rédaction, 3, no 2, 1990, 111-120 : http://id.erudit.org/iderudit/037072ar
[20]Houve experiências anteriores feitas por Bernardo Fernandes Monteiro, em finais do século XIX, que foi conhecida de Manuel Ferreira Deusdado e passou para as mãos de José Leite de Vasconcelos, que guardou o manuscrito (ainda hoje mantido no espólio daquele erudito, no Museu de Belém) – como salientou Amadeu Ferreira, na cerimónia de lançamento a público da sua tradução.

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