CARTA DE ÉVORA – Onde está a Primavera? – por Joaquim Palminha Silva

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Assim se convencionou chamar a estação do ano que em algum tempo deve ter existido, porque desde as referências bíblicas, passando pelos poetas árabes, até aos renascentistas e modernos europeus, muitos a elogiam… Nos velhos armazéns da memória, diz-nos um ditado popular: «Faz trabalhar a cabeça e dá feriados à língua.».

Pois é o que vamos fazer: dar trabalho à cabeça… A verdade é que a Primavera dos nossos dias quase não se distingue da poesia panteísta do Inverno, assim como da bruteza escaldante do Verão, pouco dado a galanteios, sempre cheio da soberba feroz que tudo queima. Quem sabe o que seja a Primavera?

Para mim, tenho-a como a estação mais liricamente enganadora do ano e, ao mesmo tempo, como a mais triste. Porquê? – Não vêm como ela vagueia, trôpega, sonâmbula, entre a fria e frontal severidade do Inverno e a ardente soberba do Verão?!

A Primavera parece-me um período de tempo dúbio no “contexto” das estações. Sob o ponto de vista existencial, não se encontrou a si mesma, nem parece saber o que anda a fazer. Se fosse pessoa podia aprontar-se para, indo à consulta, se espreguiçar no divã do doutor Freud! – Se nos socorrermos dos ditados populares, os sinais exteriores mostram-nos a sua perturbada, precária e indecisa forma de vida: «Dia de cuco, de manhã molhado, à noite enxuto.»; «Sol de Março, pega como pegamaço e fere como maço.»; «Páscoa em Março, fome ou mortaço.».

Os antigos poetas, sempre delirantes, líricos de muitas habilidades que gostavam de ser beneficiados por tudo e nada, sabiam transformar uma gruta num palácio e um desgraçado arrabalde, suburbano de miséria e podridão, num jardim das mil e uma noites e, assim, nos enganaram a propósito da Primavera durante dezenas e dezenas de séculos, a contar do antigo Egipto… Dela nos contam as maravilhas (os grandes velhacos!) que, de antemão, sabiam que gostávamos de ouvir. Os pintores, frequentando a mesma roda de burlões, encheram de cores melindrosas e desassombradas, de tons alegres e gritantes de luz as suas telas… A verdade é que quase todos nós gostamos disto, embora sabendo da sua mentira!

Caridosas mentiras, dirão alguns, félix culpa! – Não seguimos esta ordem de ideias, pois damos razão ao rifoneiro popular que, justiceiro, se abate sobre este arrazoado com uma sentença salomónica: «A mentira é a autora de toda a maldade.». Por esta e por outras, não acreditamos na treta da “mentira piedosa”, que nos impingem por aí!

Seja como for, a Primavera é sempre enganadora e veio ao mundo com o objectivo de nos arreliar. Veja-se, pois, o jogo duplo desta Salomé… Tem dias que desperta numa orgia de cores, com a Sol a coroar-lhe a cabeça, incendiando tudo à volta de alegria e música e, saiba-se, chega a imitar o Verão aquecendo um pouco mais aqui e ali durante o dia, simulando o morno Junho para, pouco tempo depois, folhear o catálogo das densas cortinas de nuvens, de cor sépia, descendo sobre o nosso horizonte crepes funerários acompanhados dos ventos uivantes das tragédias, tão arrepiantes como páginas do romance de Charlotte Brontë, concluindo-se tudo em aguaceiros tempestuosos que podem forçar os desprevenidos ou de mente fragilizada a decisões fatais… Para não falar muito nos maus tratos que a Primavera pode provocar nos indefesos campos, assassinando flores, maltratando culturas, massacrando ervas novas em busca de sol, ingénuas, surpreendidas com tanta pancada injusta, despropositada, de bátegas de água de som quase metálico.

Pode um bando de andorinhas (galinhas de Nossa Senhora, lhe chamou o Pe. Moreira das Neves) revoltear sobre a imagem alegórica de uma tela emoldurando a Primavera, borboletas pintadas de fresco baterem suas asas que se não ouvem e o verde da esperança abençoar hortas e jardins, searas e pastagens; pode tudo isto acontecer, dizia, como era costume na poesia medieval (latina e neo-latina), cujos feitiços plásticos prometiam paz celestial aos semi-mortos da peste negra, aos servos da gleba escravizados pelo arado do senhor feudal, embrutecidos pelo trabalho; pode acontecer tudo isto, dizia, mas a surpresa da Primavera é ela começar e acabar breve, antes mesmo de termos tido tempo de desfrutar todas as suas mentiras nas artes e nas letras…

A Primavera começa logo por ser deslizante e incoerente – Embora durando em média cerca de 92 dias, sofre tais e tantas variações que parece certa gente, incapaz de manter a “palavra de honra”!

As árvores que se cobrem de novas e verdes folhas, as flores que desabrocham, os rios e ribeiros que passam da corrente ameaçadora para os sussurros de galanteio, os prados que crescem, as mil plantas que se erguem do solo, os céus que se diamantizam como joalharia aérea, as aves que gorjeiam, encantando-se umas às outras, os corações juvenis que despertam para a mais fervente sentimentalidade, até os corpos velhos e ressequidos que às vezes tropeçam num assomo de saudade, experimentando um derradeiro momento de força e vontade de viver… Tudo isto é verdade, acontece na Primavera. Tudo isto é comovente. – Mas esta comoção está misturada com os tristes presságios da realidade presente e do despótico futuro…

«Nem tudo o que luz é ouro, nem tudo o que alveja é prata.», diz o adágio popular. Nem tudo é lenda e literatura romântica, decalcada sobre «O Nascimento de Vénus» de Botticelli, ou inspirado na «Primavera», título geral de três novelas de Francisco Rodrigues Lobo (1601, 1606 e 1614), composições de linguagem elegante e graciosa… Na verdade, o clássico ensaio do francês E. Durkheim, «O Suicido», conclui a páginas tantas: «Não é nem no Inverno nem no Outono que o suicídio atinge o seu “maximum”, mas durante a Primavera quando a natureza se torna mais amena e a temperatura é mais doce».

O descrédito da Primavera na actualidade é um facto: – Já raramente utilizamos a expressão «primavera» na linguagem corrente, sobretudo nos centros urbanos. Há ditos tradicionais que caíram em absoluto desuso: «Já conta quinze primaveras…»; «a primavera do talento»; «a primavera da vida»; «graça primaveril»; «roupa primaveril», e assim de seguida…

Nós, portugueses, somos o povo que escarra para o piso das ruas e praças! Não somos o povo primaveril dos poetas do Cancioneiro, mas sim o povo dos fumos fétidos e da sardinha assada na rua e, sob nuvens de moscas, dos cheiros nauseabundos de sifões de esgoto e sarjetas entupidas…

Podemos olhar as gravuras românticas do século XIX, podemos acreditar nas fábulas antigas, mas a verdade é que a turva e ambígua estação não passa de desvario alucinatório do rodar do tempo…

A Primavera é uma obstinada “impossibilidade” que regressa todos os anos, sem dó nem piedade… Para nos arreliar com os seus enganos e, fatalmente, nos obrigar a perder tempo a enxotar moscas!

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