CARTA DO RIO – 42 por Rachel Gutiérrez

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Brasil 30 anos depois. Aparentemente, não havia eventos programados para celebrar o 30º aniversário da reconquista da Democracia, em 1985, quando derrotamos a Ditadura com a esplendorosa campanha pelas Diretas-Já. Nestas últimas semanas, o clima andava tenso e a insatisfação da grande maioria cresceu e se multiplicou. Mas eis que a alma brasileira, ou “o gigante adormecido” nos reservava uma surpresa para este domingo, 15 de março: as praças e as praias, as ruas e as avenidas se encheram de verde e amarelo, das bandeiras e das camisetas de centenas, de milhares de manifestantes organizados e pacíficos que fizeram, na prática, e sem qualquer violência, a mais clara crítica ao governo da presidente reeleita há pouco mais de quatro meses.

O domingo azul do mar de Paulo Mendes Campos, vestiu-se com as cores nacionais num expressivo contraponto ao vermelho das bandeiras do Partido dos Trabalhadores e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) das fracas manifestações de apoio ao Planalto na última sexta-feira, 13. No domingo, não foram vistas bandeiras nem faixas, nem cartazes, nem foram ouvidos slogans de qualquer partido. Ao desagravo programado, mostrou-se um desagrado espontâneo e gigantesco! Até no Norte e no Nordeste, “região meio impermeável à crítica ao governo”, como disse uma comentarista, onde os eleitores do PT garantiram a vitória de Dilma Rousseff nas últimas eleições: Manaus, Belém, Fortaleza, São Luis e Recife, entre outras cidades, tomaram as ruas para protestar. Em Belo Horizonte, onde a Presidente derrotou Aécio Neves, seu mais forte adversário, a Praça da Liberdade foi totalmente ocupada pela multidão. Em Brasília, onde até a Cavalaria do Exército se encontrava em prontidão, mais de 50 mil pessoas se manifestaram pacificamente e jogaram flores brancas em um dos lagos.

Como observou um cientista político, a convocação para esse evento extraordinário “não foi centralizada, não houve distribuição de camisetas ou de bonés, nem ônibus para transportar manifestantes. E ninguém foi pago para participar.” Aludia, com certeza, a uma notícia do jornal O Globo, de sábado, com a foto de um haitiano, pago pela CUT para engrossar o pequeno número de participantes das manifestações de sexta-feira. Foram as Redes Sociais que cutucaram, pela internet, o Gigante Adormecido que estremunhado, bocejando, parece ter aberto os olhos por alguns instantes,

As faixas e os cartazes das monumentais passeatas de todo o país diziam o que espontaneamente o povo quis expressar em sua indignação: “Basta de Corrupção”, “Quero o Brasil livre do PT”, “Cadê a Pátria Educadora?”(- promessa não cumprida da Presidente), “Não somos de Direita, somos Brasileiros Direitos” – porque cada vez que há manifestações contrárias ao governo, algum de seus representantes se apressa em qualificá-las como “de direita” ou “financiadas pelo PSDB”, como a última ridícula explicação que deram ao panelaço que se ouviu em todo o Brasil durante a fala da Presidente, no dia 8 de marco, quando a pretexto de celebrar o Dia Internacional da Mulher, Dilma Rousseff falou sobretudo na crise econômica procurando minimizá-la e acentuando seu caráter supostamente apenas “conjuntural”.

No chamado epicentro do país, São Paulo, a cada 2 minutos, 4000 pessoas saíam das várias estações de metrô para a Avenida Paulista que abrigou, com suas transversais, mais de um milhão de pessoas. Em outras capitais: Porto Alegre (mais de 100 mil pessoas), Curitiba, Florianópolis, Vitória, e mesmo cidades do interior de São Paulo, participantes ocuparam as ruas sempre de verde e amarelo, sem dar espaço a políticos ou provocadores. E disseram num estrondoso uníssono: “Chega de Impunidade! De olho no Brasil!”, “Abaixo a Corrupção!”. E se“ Fora Dilma!” e “Fora PT!”foram também ouvidos e apareceram em centenas de cartazes, não houve xingamentos. O que mais se ouviu foi o Hino Nacional, repicando e ressoando por todo o território.

Que é que o povo quer? (Será só a classe média, como dizem os do governo?) – O povo quer melhores serviços, saúde, saneamento básico, transportes, segurança, educação. O povo não quer: o cansativo apartheid do nós e eles – nós, “ os pobres”, que o PT supostamente protege e eles, todos os outros, a classe média e a classe alta, “os ricos de olhos azuis”, todos nós “outros” que já não nos iludimos com as diatribes do ex-presidente Lula ou com os discursos da presidente, que insiste em pintar o Brasil como vítima da crise econômica internacional, que já não existe, ou que já evoluiu e eles fingem que não percebem.

O que esse povo que foi às ruas critica são os cargos comissionados, o modelo de presidencialismo de coalizão ou coligação por demais enlameado de corrupção e fisiologismo.

Como disse outro cientista político: “Está na hora de consertar e concertar”. Sim, consertar o que foi feito de errado e promover a“concertação”(neologismo oportuno), o congraçamento pluri ou transpartidário para resolver a crise política, a crise econômica e a crise hídrica antes que esta se transforme em crise energética, mais a crise de credibilidade que enfrentamos. Nas manifestações de domingo, dia do 30º aniversário da Democracia Reconquistada no Brasil, a alma brasileira mostrou-se mais republicana do que todos os partidos. E deu-nos uma lição de civismo, de consciência cidadã, de amadurecimento político.

À noite, ministros do governo concederam uma entrevista coletiva aos jornalistas de Brasília, que começou com o aparente reconhecimento da necessidade de diálogo com a sociedade para “de comum acordo, respeitando as diferenças”enfrentarmos os nossos problemas . Quando, porém, suas respostas e discursos repetiram argumentos enganosos e vazios, como os da última campanha e os de todas as falas de Dilma, o panelaço recomeçou.

Quando é que os ouvidos moucos desses clones de Pangloss vão se tornar capazes de ouvir as vozes das ruas?

 

 

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