A GALIZA COMO TAREFA – Periferizações – Ernesto V. Souza

imagesA geografia, a economia, os interesses de estado, uma série de catastróficas casualidades umas vezes de ordem estatal, internacional e mesmo global, fizeram que a Galiza apresente uma imagem mais que periférica, diríamos Provincial.

Por igual que a Sicília e a Bretanha, a Galiza combinou uma vivência reconhecida e uma história anterior a Roma, com uma posterior e não interrupta existência como entidade, bem independente em breves e intensos momentos, mas normalmente como espaço regional de marcado sabor e distante dos centros de Poder.

Seja por causa da geografia, da política e redes do Império, por causa da expansão do Islã, pelas peregrinações, pela construção dos reinos, pelas ambições da Casa de Borgonha, Plantagenet, ou de Bourbon, seja pela construção estatal do espaço ibérico, seja pelas navegações e os impérios americano e africano, seja pelas guerras com Portugal, a França e a Inglaterra, seja pelos interesses coloniais, as crises da pataca (batata), a substituição do linho pelo algodão, seja pela migração, ou mais recentemente por causa da construção politico-administrativa do Estado espanhol no século XIX, a Galiza tem ficado a um mesmo tempo no meio das grandes movimentações políticas e económicas da Europa mas periférica no Estado espanhol.

O Reino medieval, periferiza-se e muda de nome e os seus reis a narrativa de legitimidade de espaço com a conquista de Toledo e Sevilha: Espanha. A reforma administrativa iniciada com os Reis Católicos divide os territórios da nobreza galega em Castela em dous blocos a Sul e norte do Tejo e desloca os tribunais e a administração jurídica e eclesiástica, com a própria nobreza da Galiza ao Douro. Convertida em bastião naval dos Austrias perde o comércio por mar e fica isolada com a capital do Reino após o Guadarrama a um Madrid a meio caminho entre Lisboa, Sevilha e Valência. Vencedora da França e industrialmente moderna, liberal na restauração absolutista, some num século XIX em que se fixam finalmente como estados Espanha e Portugal; ganhadora na Guerra civil, perde a paz, ausente dos programas de desenvolvimento franquista, e convertida em região autárquica, produtora de eletricidade, pesqueira, madeireira, o espaço mais independente da Península passa sem pena e sem glória no desenvolvimento das Regiões Autónomas na democracia.

Socialmente conflituosa, mas não problemática, a política galega tem passado por fases diversas, em que a repressão interna e o caciquismo, foram configurando uma complexa situação que se reduz a deixar fazer o Estado a umas elites locais em troca de garantir a paz social ou a ausência de ruído.

Avilés de Taramancos poetizava que a sua Terra querida parecia constante nisso de chegar ou tarde de mais ou excessivamente cedo. Seja licença poética ou frustração, algo de verdade há nesta constante, quando menos no que diz do presente, pois a Galiza, parece ir a contrário tanto em ideologia, como em voto, como em economia, em desenvolvimento ou necessidades, das que marca ou prioriza o estado Espanhol.

Protagonistas, mas sem voz, os galegos estão afeitos a viver essa periferização constante como se ainda fossem aquela Província de Roma. Com uma provada fidelidade e marcada etnicidade, acreditam pouco no estado ou na nação. Estruturalmente periferizados desde o Madrid centralista mas centrais nas suas próprias dinámicas e relações económicas, migratórias e culturais, carece ainda hoje a Galiza de uma única voz e discurso político que a reivindique, parecendo nesse caos de discursos, grupos e pequenas vozes que não existisse qualquer espírito ou reivindicação nacional.

Porém, são provavelmente tanto os indivíduos, obrigados a resolver individualmente os problemas coletivos, quanto a região, que gozou por causas dessas periferizações de uma anómala mas constante autonomia não declarada, os que talvez menos se importariam com a desaparição, a mudança ou o colapso do Estado.

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