Os cretinos estão nervosos porque estão de joelhos!
Michel Lhomme, LE PHILOSOPHE ET LES CRÉTINS – Les crétins s’excitent parce qu’ils sont à genoux!
Revista Metamag, 10 de Março de 2015
Se há neste momento uma confrontação, esta é na verdade a seguinte: entre o filósofo e os cretinos, os cretinos de esquerda que entraram em pânico ao verem, como o sublinha Alain de Benoist numa entrevista ao Le Point, o chão a fugir-lhes debaixo dos pés.
É necessário com efeito dizê-lo e dissemo-lo aqui várias vezes, o sistema perde os pedais porque já não controla mais nada. Tudo está em roda livre e mais ninguém, mesmo nas elites de esquerda e sobretudo de resto nas elites de esquerda, acredita mais nos discursos. Vista de longe, a França está completamente partida, não somente economicamente pelas escolhas irracionais de ontem – a desindustrialização – como pelas de hoje – a transição energética – mas mais grave ainda, desmorona intelectualmente pelo seu delírio fascizante que a leva a ver nazis por toda a parte, incluindo nos livreiros e nos filósofos.
Na confrontação assinalada (Alain de Benoist, Michel Onfray contra Manuel Valls ou Le Guen, “a máfia de esquerda “como muito bem designa Michel Onfray aqueles que habitualmente chamamos aqui de os ”solfériniens”), há uma histeria deprimente, uma paranóia latente mas sobretudo e, sobretudo, uma recusa em pensar, uma demissão de pensar. Ora, esta recusa, esta demissão de pensar que consiste por exemplo em não querer discutir com o movimento GRECE (Groupement de Recherce et d’Études pour la Civilisation Européenne) ou com a Frente Nacional, em estar permanentemente a denunciar os intelectuais ou professores que ultrapassariam a linha amarelo é, na verdade, uma doença incurável.
Esta doença incubava desde há muito tempo, desde a viragem “liberal” de 83, a ideologia antirracista amaneirada “Touche pas à mon pote”,, desde a lamentável e pegajosa “cultura de esquerda”, ou do totalitarismo do edredão (a homossexualidade por todos os níveis). A Esquerda, as elites de esquerda ou seja, praticamente todo o corpo de professores terá assim abandonado toda e qualquer forma de lucidez crítica. Mas sem lucidez crítica, a cultura desmorona-se sobre o seu próprio peso. É exactamente o que está a acontecer em França, um país no entanto bastante culto. Não pensar mais, pior ainda, recusar-se a pensar. Não somente, Manuel Valls nunca leu uma só uma linha do que escreveu Alain de Benoist – nem de Onfray, sem dúvida – mas lança um apelo maldoso, cínico, a não ler exactamente como este inspector que repreendia um professor de francês porque fazia “com que os seus alunos lessem demasiado ” e corria ao mesmo tempo o risco de fazer com que estes “adoptassem hábitos elitistas”. Nós tínhamos também já evocado a intenção de uma inspectora de filosofia que repreendia um jovem estagiário numa turma de tecnológica porque este dava como material de trabalho aos seus alunos um texto de Kant. Ora, o que esquece o poder – e seria necessário sobre este ponto levar à letra os Sofistas tão desacreditados – é que não se governa pela força mas sim pelas palavras ou seja pelas ideias e pelo pensamento. Um poder que já deixou de pensar, ou pior ainda, que apela a não se pensar, é um poder morto, um poder nu, um poder abandonado.
Mas digamo-lo de uma outra maneira e mais positivamente: os homens do poder estão coléricos porque sabem que já perderam. É como com o mar – quem não controla o mar, não controla o mundo -: quem perdeu o terreno das ideias perdeu o poder. A situação é por conseguinte pelo menos paradoxal. O problema dos franceses é económico, e o governo responde intelectualmente, grita por ajuda, apela às elites “cultas” contra o povo (uns vitelos bem gordos que não sabem obrigatoriamente votar!). É assim, quando tudo desmorona, que se acredita ainda poder agarrar-se às ideias progressistas que no entanto eles têm estado permanentemente a trair, sem se darem conta que estas traições que apoiaram ontem, tiveram, de repente, o efeito de tornar obsoletas todas estas mesmas ideias.
O rei vai nu, oscilando entre o repisar extenuado das antigas utopias da sua juventude e a constatação desencantada do estado presente do país. Fica-se depois colérico, histérico, portanto nervoso, capaz de bater amanhã sobre quem quer que seja que conteste a sua visão angélica numa encruzilhada de múltiplos caminhos. Mas está sem nenhum batalhão republicano. Não tem mais ninguém mesmo nas elites de esquerda para redigir os argumentários, para militar no sentido nobre do termo, para colar cartazes, mais ninguém capaz de apoiar o debate e de levantar bem alto a contradição. Eles deixaram de pensar, mas denunciam, insultam, na verdade excitam-se por coisa nenhuma.
Recordemo-nos De Gaulle e os sartrianos. Quando se atacam os filósofos, é porque já perderam tudo.
Michel Lhomme , Revista Metamag, LE PHILOSOPHE ET LES CRÉTINS – Les crétins s’excitent parce qu’ils sont à genoux!, Março de 2015.