CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – DA MORTE SEM MESTRE À VIDA SEM MESTRE! – por Mário de Oliveira

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Os poetas também morrem. São os únicos a saber que a Morte é a fonte da Vida. Que a Vida nasce da Morte. Este é o segredo de tudo. Que só os poetas conhecem. Foi preciso a esquizofrenia do cristianismo, rico em dinheiro, poder, para falar da Morte como castigo. Uma obscenidade. Sem a Morte, ninguém seria humano. Todos os ricos em excesso têm medo da Morte. Dariam tudo para a matar. Acabam apanhados por ela, a rir-se deles. Ricos em excesso, infelizes em excesso. Os menos humanos dos seres vivos. Poetas, os mais humanos dos seres vivos. Ricos em excesso? Abortos humanos em excesso. Baratas tontas, às cabeçadas contra a luz. Ficam nus diante dela. Fogem como ratos. Entre a simplicidade e o excesso, os ricos escolhem o excesso. Acabam devorados por ele. Cresce o excesso, diminui o humano. Até serem reduzidos a ricos. Quanto mais ricos, menos humanos. Gosto dos poetas, seres humanos em excesso. Dos ricos em excesso, sinto pena. Comiseração. Desconhecem a Vida. O belo que é sermos cada dia aves do céu. Ainda mais, cada noite. Ignoram o transcendente que é sermos cada dia lírios do campo. Ainda mais, cada noite. Sabem tudo sobre Dinheiro, Poder. Ignoram tudo sobre a Ternura. Olham para a Morte como a inimiga. São cristãos. Não são humanos. Ignoram que a Morte é a fonte da Vida. Como de tudo o que é perene. Somos para sempre, porque morremos. Os poetas conhecem os segredos todos da Vida. Entram no Mistério. Habitam as profundidades do Real. Comem Silêncio. Desprezam prémios. Distinções. Frequentam o Essencial. A Morte como a plenitude da Vida. Com a Morte entregam-nos a sua Ruah. O seu Sopro maiêutico. Os ricos em excesso não entendem nada da Vida. Não entendem nada da Morte. Herberto Hélder é agora definitivamente vivente. Invisível aos olhos dos que só vêem Dinheiro, Poder. Salvé, Herberto! Os viventes te saúdam. Está pronto o banquete da Vida. Vem saboreá-lo com todos os viventes. Da Morte sem Mestre, à Vida sem Mestre. Belo demais. Cantemos!

25 Março 2015

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