A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
Gil Vicente, como outros autores do seu tempo, não se exime a uma leitura plural dos grandes acontecimentos ligados ao tema da viagem. E se o dramaturgo parece sancionar o poder político em obras como Auto da barca do inferno ou Exortação da guerra (tragicomédia representada ao rei D. Manuel), não deixa de pôr em cena vozes dissonantes em relação à empresa marítima, de que é exemplo a farsa Auto da Índia, logo em 1509. Aqui, através da personagem do camponês, emigrado dos campos para servir nas naus, é uma classe que se opõe à empresa ultramarina, quanto mais não fosse porque se sentia defraudada relativamente à que controlava o comércio das especiarias. Este belíssimo Auto fornece ainda não poucos indicadores que apontam para uma visão negativa da “viagem”, desde a expressão “negra canela” (v. 31) para designar a “Índia”, num contexto em que a Mulher aguarda ansiosamente a partida da armada (e do Marido), até à declaração aberta da personagem da Mulher, mesmo que dirigida ao cortejador castelhano: «Má viagem faças tu/ caminho de Calecu» (vv. 343-344). Nesta semântica de um certo mal-estar social
inscreve-se seguramente a tragicomédia Triunfo do Inverno, cuja didascália inicial a dá como representada ao rei D. João III, em Lisboa, provavelmente em 1529. Trata-se de uma obra compósita, sem unidade de acção ou mesmo de género, como tantos dos autos vicentinos, a que a crítica tem atribuído um título enganador por causa da segunda parte da tragicomédia que trata do “triunfo do Verão” e que culmina com a oferta (e personificação de «hum jardim,/ do paraíso terreal,/ que Salamão mandou aqui/ a hum rei de Portugal», embora a didascália de abertura refira claramente que “A tragicomedia que se segue he chamada Triunfo do Inverno”, o que parece indicar uma tradição já consolidada. Observando agora a sua organização interna, são nítidas as partes distintivas que a dividem, sendo possível individuar a sucessão dos “argumentos” que as várias figuras vão introduzindo em cena. E nesta evolução de planos cénicos é fácil perceber como a “Tempestade” (Segundo Triunfo do Inverno) representa uma espécie de núcleo fundamental, o que confirma a intenção do autor ao reservar à matéria das “tormentas en la mar” um espaço determinante para inserir a voz satírica, colhendo de surpresa o espectador que, por largo tempo, tinha seguido as peripécias de dois pastores e suas lamentações sobre os rigores do Inverno, só interrompidas pelo entremez cómico da «vieja sin sentido,/ que quiere un mozo marido» (vv. 451-583). Como se o autor quisesse preparar o auditório, mantendo-o “preso” à farsa da velha que quer casar, para surpreender o público com a voz inesperada do “Inverno”: «Pastores, ios del frio,/ acogéos al aldea,/ porque quiero que se vea/ el segundo triunfo mio/ sobre la mar de Guinea» (vv. 574-578).. A posição central do quadro cénico da “Tempestade” acentua a função caricatural e satírica de um enunciado que põe em causa a competência dos pilotos da carreira da Índia e as formas de corrupção que lhes permitiam lugares tão cobiçados («Este ladrão do dinheiro/ faz estes maos terremotos»). Deste modo, e através da disputa entre o “Marinheiro” e o “Piloto” (a experiência contra a irresponsabilidade consentida) é possível observar a localização espacial da tempestade, a qual, não obstante as referências mais ou menos imprecisas («mar de Guinea», «costa do Brasil», «rio dos Bôs-sinaes», «rio do Infante», «cabo das Correntes», «pera a India», «volta de Moçambique»), concorre para acentuar uma geografia que, quanto mais se afasta, maior eficácia confere ao processo satírico. No final deste quadro, quando, com a voz do “Marinheiro”, se atinge o clímax («Se piloto aqui viera,/já esta não estivera/ a salvamento em Cochim», vv. 852-854), a nomeação imprecisa torna-se concreta (“Cochim”) e o espectador adquire a certeza, já feita de suspeitas, de que a nau em questão é a da “carreira da Índia”. E não é sem consciência dos efeitos sobre o auditório que o autor acode, logo a seguir, com uma pausa mecânica de dupla leitura: o desvio de uma matéria certamente perigosa, sem deixar de acentuar que eram as naus da Índia e a organização das expedições o objecto da sua sátira, para a montagem da qual se serviu do artifício original da tempestade. De resto, o motivo do piloto inexperiente é com frequência uma das causas dos desastres por que passavam as tripulações, e descritos com abundância de pormenores nos relatos de naufrágio.
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