DIA DO TEATRO – DE GARCÍA LORCA A BERTOLT BRECHT – por Norberto Ávila

Imagem3A simples coincidência de poder atender dois pedidos de amigos – o de conseguir arranjar ainda alguns números da revista Teatro em Movimento (digamos que “esgotados”) para atender um amigo portuense, e o de um lisbonense, António Gomes Marques, para a elaboração de mais um texto celebrativo do Teatro, neste seu Dia Mundial – levou-me a folhear os 6 números da referida publicação, distribuídos pela Livraria Bertrand, entre 1973 e 1975.

 

Pois dei comigo a tomar umas notas. Que hão de servir de base ao referido artigo (chamemos-lhe assim).

E, sendo eu um autor de ficção teatral e narrativa muito pouco propenso a citações alheias – ao contrário do que por aí se vê (exageremos um tanto): o homem do talho que a certa altura debita um naco de Sartre, a mulher a dias que nos lança na face uma sentença de Camus – a verdade é que, num contexto muito diferente: a decidida apologia do Teatro – optei por reservar em cada número, no lado superior direito da contracapa, espaço dedicado à abalizada opinião de uma personalidade teatral.

Seja-me permitido dizer que, sendo eu o criador desta revista, fui também seu editor e diretor. E, já agora, apenas um vislumbre do seu conteúdo, número por número, com o devido destaque à opinião de cada personalidade que nos serve de exemplo.

No 1º número (março-abril de 1973) a capa é dedicada a Eunice Muñoz: As Criadas, de Jean Genet, a inesquecível encenação de Victor García, Teatro Experimental de Cascais. E o texto dramático (sempre na íntegra) é desta vez a comédia O Mal Corre, de Jacques Audiberti, por mim traduzida para o Teatro da Trindade, a convite de Mário Pereira, que finalmente a estreou, como encenador, no Círculo Experimental de Aveiro, mas só em 1993. Entre outras colaborações: Introdução a uma Temporada, por Duarte Ivo Cruz e Crónicas do Estrangeiro (Paris, Madrid e Munique). Ainda de minha autoria, o artigo José Luiz Gomez entre Kafka e Peter Handke.

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E, mais importante para o caso específico, o febricitante dizer de GARCÍA LORCA:

“O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.”

No nº 2, sobressai a peça de Henry de Montherlant A Rainha Morta (sobre a nossa Inês de Castro, hélas!), em tradução de David Mourão-Ferreira, com uma introdução do próprio tradutor. Com merecido destaque, uma Panorâmica do Teatro-Documento, género muito em voga por esse tempo, com textos assinados por Luiz-Francisco Rebello, Carlos Porto, Helmuth Karasek e Ricardo Doménech. Também um texto de antologia: Do Verdadeiro Teatro Popular, da autoria de Jean Vilar. (E, muito a propósito, a capa da revista reproduz uma belíssima foto de Erico XIV, encenação de Jean Vilar, T.N.P., 1960.) Na contracapa, uma foto de Oh Papá, pobre Papá, a Mamã pendurou-te no armário e eu estou tão triste, de Arthur Kopit, Casa da Comédia, encenação de João Lourenço.

E desta vez a prestimosa declaração é de LUCHINO VISCONTI, tão notável encenador de teatro e ópera como realizador de cinema: “Hoje, que os outros meios de comunicação com os quais o teatro erradamente supôs rivalizar tomaram o lugar de tudo o que é entretenimento, passatempo, evasão, o teatro despojou-se e pareceu ficar empobrecido. Muito pelo contrário, enriqueceu-se. Conquistou novas forças. Expurgado dos seus tempos fracos, defrontou-se de novo (como sempre entendi que era a sua missão) com os grandes temas vitais.

E isto porque se a descoberta e a descrição do exótico, do maravilhoso, do múltiplo, do sociológico, pertencem, agora, a outras técnicas e a outras artes – tudo o que hoje significa vivermos uns com os outros, reunirmo-nos na expetativa de um acontecimento essencial, de uma esperança (terapêutica, salvação, talvez, de qualquer modo certeza de uma relação essencial e irrecusável entre os homens), de uma transcendência misteriosa, pertence ao teatro.”

O nº 3 da revista Teatro em Movimento (cuja capa reproduz uma foto de A Moscheta, do Ruzante, encenação de Mário Barradas para Os Bonecreiros), publica a famosa comédia de Pirandello O Homem, a Besta e a Virtude, antecedida de um Itinerário Pirandeliano. E o sumário complementa-se com A exigência de autenticidade no teatro de Carlos Selvagem, por Luiz-FranciscoRebello, Teatro Amador em Setúbal, 9º Festival de Teatro de Nancy, por Carlos Benigno da Cruz, Nos Palcos de Lisboa, por Duarte Ivo Cruz, e um Breve diálogo de Igrejas Caeiro com André Acquart (destacado cenógrafo com exposição na Fundação Calouste Gullbenkian). E agora é concedida a palavra a ALEXANDRE DUMAS Filho, o consagrado autor de A Dama das Camélias: “Pela comédia, pela tragédia, pelo drama, pela bufonaria, na forma que melhor nos convier, mas inauguremos o teatro útil, com risco de ouvirmos gritar os apóstolos da arte pela arte, três palavras absolutamente vazias de sentido. Toda a literatura que não tem em vista a perfectibilidade, a moralização, o ideal, o útil, é, numa palavra, uma literatura raquítica e doentia, nascida morta. A reprodução pura e simples dos factos e dos homens é um trabalho de escrivão e de fotógrafo, e desafio quem quer que seja a citar-me um único escritor consagrado pelo tempo que não tenha tido por desígnio a valorização humana.”

O nº 4 da revista, cuja capa dá novamente destaque a uma encenação de Victor García – meu colega na Universidade do Teatro das Nações: O Cemitério de Automóveis, de Arrabal, Companhia de Ruth Escobar em Cascais, – publica pela primeira vez um texto dramático português: O Tecni-Homem, de Miguel Barbosa. Artur Ramos escreve sobre O Último Festival de Teatro de Berlim; Azinhal Abelho, sobre Teatro Popular Tradicional, com a transcrição de uma cena de Os Sete Infantes de Lara; Alexandre Passos assina uma Crónica de Luanda. De salientar ainda um texto de Rainer Hartman: Regresso aos Clássicos. E a contracapa, que reproduz uma imagem do tradicional Auto da Floripes, dá a palavra, no devido espaço, a INGMAR BERGMAN, cujos filmes apreciei e venerei repetidamente no saudoso Cinema Império: “Apesar do encanto que se pode encontrar no decurso dum longo dia de filmagem, a destilar alguns metros de filme, quais puras gotas da essência do Cinema, não hesitaria no entanto, se me obrigassem a uma decisão, a escolher o Teatro. O filme devora lentamente aqueles que se lhe consagram, enquanto que o Teatro oferece um ritmo mais são à criatividade. O Teatro constitui uma base de trabalho mais sólido, gera necessariamente um sentimento de equipa e de tal sensação nasce um sentimento de segurança.”

Saiu o nº 5 de Teatro em Movimento (novembro-dezembro, 1973) com grande destaque para a peça A Grande Imprecação diante das Muralhas da Cidade, de Tanked Dorst, traduzida e encenada por Mário Barradas, de cujo espetáculo, tendo Fernanda Alves como protagonista, uma fotografia serve de ilustração à capa. Embora não assinado, é de minha autoria o texto Apresentação de Tankred Dorst, com quem convivi em Lisboa, ilustrado por um retrato expressamente encomendado ao pintor Jorge Rocha. Por sua vez, o próprio Tankred Dorst ofereceu à revista um autógrafo, expressamente redigido para reprodução fotográfica, e por mim traduzido. E, por ser a um tempo breve e impressivo, me permito transcrever: “Uma peça de teatro necessita de público. Não é literatura, como o romance, o conto, a poesia. Ao romance basta um único leitor. O indivíduo que escreve um poema pode lançá-lo numa garrafa, na esperança de que chegue a uma terra qualquer, talvez anos depois. Mas uma peça de teatro necessita da direta colaboração do público. Uma peça minha, que tenha hoje 8 espetadores, será amanhã à noite diferente a 800 pessoas que a ela assistam.”

De salientar ainda, neste mesmo número, Rogério Paulo e o Teatro Cubano (entrevista), No 10º aniversário do Teatro Estúdio de Lisboa, e ainda Livros de Teatro (El Teatro de Buero Vallejo e Eléments d’une Sociologie do Spectacle, por Robert Heymann. E quem fala desta vez, no seu cantinho de ilustre convidado, é o romancista e também dramaturgo MÁXIMO GORKI:

“O teatro, outrora, contentava-se com representar os dramas familiares, os choques individuais. Hoje deve tornar evidentes osImagem2 motivos sociais desses dramas e desses choques. É preciso que nos esforcemos por dar ao pensamento, ao verbo, ao gesto, a maior nitidez possível. É preciso dar ao teatro uma tal clareza ideológica e artística que toda a possibilidade de dúvida no espetador e de intrepretações contraditórias na crítica seja excluída. É muito difícil, na verdade, mas os obstáculos existem para que nós os transpunhamos. O nº 6 (e último) de Teatro em Movimento só apareceu em maio de 1975. Isto porque, tendo eu assumido entretanto as funções de chefe da Divisão de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura, tornava-se dificílima a manutenção da revista. Vejamos então como se ordenava este número de despedida: Como sempre, o texto integral duma obra dramática: A Dança da Morte, de AugustStrindberg, em tradução de Ricardo Alberty, antecedida duma apresentação minha: Breve Nota sobre Strindberg. Crónicas do Estrangeiro (Madrid, Barcelona e Israel). Livros de Teatro (nomeadamente O Terror e a Miséria no Terceiro Reich, de Bertolt Brecht). Pois é precisamente BELTOLD BRECHT o nosso último convidado:

“Não basta que peçamos ao teatro apenas conhecimentos, ou seja: esclarecimentos sobre a realidade. O teatro deve despertar o prazer do conhecimento e organizar o gosto pela modificação da realidade. Os nossos espetadores não devem somente ouvir como o Prometeu agrilhoado é libertado, mas deverão também ser instruídos no prazer de libertá-lo. Todos os prazeres e diversões dos descobridores e exploradores e a sensação de triunfo do libertador devem ser ensinados pelo nosso teatro.”

NORBERTO ÁVILA http://www.norberto-avila.eu

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