A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – II – REPARTIÇÃO DA RIQUEZA E A ECONOMIA ALEMÃ: UMA PEQUENA DESMISTIFICAÇÃO – por ONUBRE EINZ – 3

Temaseconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Alemanha 220px-De-map

A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

II- Repartição da riqueza e a economia alemã: uma pequena desmistificação

Onubre Einz, Répartition de la richesse et économie allemande: une petite démythification

 Criseusa.blog.lemonde.fr., 20 avril 2013

(CONCLUSÃO)

C – As componentes das remunerações globais.

Onubre Einz - XVI

A comparação entre os componentes das compensações remuneratórias é interessante. O salário pago por hora é apenas uma parte do custo por hora de trabalho, incluindo este último os benefícios indirectos. Portanto, podemos distinguir neles uma diferença entre o salário (B) e a remuneração (A). Aqui encontramos um processo semelhante à evolução dos investimentos produtivos. Até às reformas de Schroeder, a progressão do salário por hora é paralela ao das remunerações globais. Depois de 2002, a progressão muito baixa das remunerações é explicada pela queda acentuada do salário pago por hora de trabalho e que é uma componente das remunerações globais, ou de compensação. E novamente, salário e remuneração global evoluem novamente em paralelo com a crise. As economias realizadas sobre as construções de instalações para o sector empresarial reencontram-se, portanto, nas economias feitas sobre o salário por hora que está a conhecer uma tendência negativa no seu índice.

Conclusão

É bem provável que a queda da taxa de investimento alemão seja real e é claro que esta queda resulta menos das flutuação dos custos directos e indirectos do trabalho do que dos rendimentos de propriedade do capital. Acreditamos que seja provável que a queda da taxa de investimento seja principalmente o resultado de desenvolvimentos na propriedade de rendimentos do capital e em seguida, por uma parte, bem menor, na evolução dos custos do trabalho, que não são a sua determinante-chave. Estes custos laborais sofreram reformas frontais com Schroeder, que fizeram com que estes custos baixassem de forma significativa.

Para amortecer a queda da taxa de investimento e o seu efeito negativo na competitividade do país, as empresas alemãs têm sacrificado o investimento em edifícios e mantido um investimento regular em máquinas e nos restantes bens de equipamentos. Para ter a capacidade de investimento compatível com o aumento dos rendimentos da propriedade do capital, a economia alemã, realizou uma arbitragem desfavorável aos salários mas sem atacar muito fortemente o salário indirecto.

Portanto, há uma semelhança notável entre os EUA e a Alemanha. Em ambos os países a taxa de investimento desceu e a partilha da riqueza criada é feita em benefício da propriedade do capital e à custa dos salários e dos investimentos. Mas, a estrutura industrial da economia alemã favorece a prossecução do investimento produtivo em máquinas e restantes equipamentos, enquanto a dimensão social da economia faz incidir sobre os salários directos o peso desta evolução da repartição a favor dos mais ricos.

As estruturas industriais e sociais do país tem alterado as suas condições para a expressão do declínio económico do país, que nem sempre se traduz por um enriquecimento acelerado das camadas de rendimentos superiores da população. Aos rendimentos da propriedade de capital deve-se acrescentar a polarização dos rendimentos do trabalho para o topo da pirâmide social.

A velocidade com que se faz a distorção da distribuição de rendimento a favor dos rendimentos superiores é proporcional com a velocidade com que se precipita o seu país no declínio. Depois de 2002, as classes dominantes alemãs foram visivelmente apressadas. Elas estão agora  dotadas de novas capacidades de acumulação de rendimentos e de novos patrimónios.

Suspendendo-se com a crise o processo de enriquecimento de uma minoria e o declínio do país, a crise parou um processo, como se este tempo se pareça como um parêntesis do tempo histórico, que se quer agora recuperar pela aceleração repentina da evolução havida antes da crise. Não insistiremos no facto de que a economia social de mercado e a social-democracia foram enterradas pelo Chanceler Schröder.

Depois de 2002, os alemães ricos literalmente correram atrás dos seus homólogos americanos que levaram 30 anos para afundar o seu país. Ao acelerar o passo, os nossos primos alemães, produtivamente uns covardes, deram grandes passos no sentido de se aproximarem da situação americana. Assim bastar-lhes-iam uns 15 anos para jogarem o país num grande declínio.

A crise, portanto, tem sido positiva para o país como um todo, ela bloqueou este processo de estar a caminhar para um grande declínio.

A Alemanha, dissemos nós num artigo recente, é um país cheio de surpresas. Estamos pois longe do país modelo com que a classe política francesa nos massacra os ouvidos.

E depois interrogamo-nos sobre o desempenho do modelo alemão. Sejamos claros, a balança positiva dos rendimentos do capital (juros, lucros e dividendos) aumenta fortemente as receitas da propriedade de capital, que constituem parte do rendimento, do mesmo modo que até a queda da taxa de investimento trai o facto de que a Alemanha é uma potência industrial e é-o montando produtos que ela própria produz cada vez menos. Controlando as linhas de montagem, a Alemanha também está localizada no topo da cadeia de valor, em que ela se pode apropriar de uma considerável parte ao estampilhar os produtos feitos na Alemanha com o made in Germany. Aqui, não se trata de questionar a qualidade dos produtos alemães, mas de sublinhar que a riqueza nacional alemã é inflacionada de um volume de valor muito desigualmente partilhado entre os alemães.

Note-se que a taxa de investimento em queda é acompanhada de uma modernização dos serviços, ilustrada pelo desenvolvimento na balança de serviços de que o défice hoje está já absorvido. Segue-se que a taxa de investimento industrial sofreu um decréscimo.

Ora o declínio industrial é a antecâmara do fenómeno que conduziu um pouco mais ou menos para a situação em que os EUA se encontram agora, mas por vias que aos alemães são específicas, para não dizer mesmo que são vias originais. E assegurar o crescimento por meio de serviços – como o podemos ver hoje os nossos vizinhos do outro lado do Reno, é envolver-se num impasse que os EUA estão já a pagar caro e bem caro: o crescimento endógeno da economia perdeu-se e já não pode voltar.

O presente texto é, portanto, uma modesta contribuição para a desmistificação da Alemanha. A Alemanha, um país exótico, cheio de surpresas.

Onubre Einz, Répartition de la richesse et économie allemande: une petite démythification, texto disponível em :

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/04/20/repartition-de-la-richesse-et-economie-allemande-une-petite-demythification/

________

Ver a parte 2 deste trabalho de Onubre Einz, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – II – REPARTIÇÃO DA RIQUEZA E A ECONOMIA ALEMÃ: UMA PEQUENA DESMISTIFICAÇÃO – por ONUBRE EINZ – 2

Leave a Reply