Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
III- A economia alemã, o seu crescimento, uma dinâmica à americana?
Onubre Einz, L’économie allemande, une croissance à l’américaine customisée ?
Criseusa.blog.lemonde.fr., 29 avril 2013
Continuemos pois a nossa pequena série de artigos sobre a Alemanha. Estamos interessados na distribuição de rendimento entre os alemães. A nossa questão permanece a mesma. Os sintomas do declínio estão inscritos na evolução da economia alemã desde há uma dezenas de anos. O modelo de referência permanece para nós a economia dos EUA, que realizou o percurso completo, e este percurso vai desde o sucesso exemplar até à depressão em meio século. Daí o título deste pequeno texto: A economia alemã, o seu crescimento, uma dinâmica à americana?
Não é nossa intenção de forçar os seus traços: nós não defendemos que a Alemanha está em declínio marcado, o que seria um absurdo à luz dos dados económicos presentes. Em vez disso, defendemos a ideia de que as reformas políticas de Schröder e Merkel resultaram na criação de características originais de crescimento que provavelmente irão levar ao declínio económico a longo prazo da Alemanha. Estas características foram colocadas entre parênteses pela crise, elas aparecem pontualmente. Estas características não devem ser sub-estimadas por este aparecimento ser puramente pontual, antes pelo contrário, o seu aparecimento e a sua presença mesmo que pontual devem-nos levar a reflectir nelas.
Na nossa opinião, esta depressão é o sinal de uma mudança de base da dinâmica do capitalismo em direcção à Ásia. A área do Atlântico Norte é, portanto, levada a sofrer de uma contracção lenta da sua posição económica no mundo. Daí uma perspectiva sobre a Alemanha que está inscrita numa perspectiva de longo prazo. Nós não iremos sucumbir às sirenes da actualidade e não ampliaremos os seus traços recentes. Tentamos, em vez disso, apresentar algumas chaves para entender esta dinâmica de longo prazo.
Nos nossos textos anteriores, vimos já fortes semelhanças entre os EUA e a Alemanha. Isto pode ser assim resumido: a parte dos rendimentos de propriedade de capital (juros, dividendos, rendimentos de propriedade directa das empresas) aumentou em detrimento dos investimentos e dos rendimentos do trabalho. Para manter a competitividade do país, as empresas tem negligenciado o investimento no ramo imobiliário e privilegiado o investimento em meios de produção em sentido estrito. Os rendimentos do trabalho sofreram uma contracção do seu rendimento e mais forte ainda do que os dos benefícios indirectos.
Formamos a hipótese de que há um questionamento profundo do modelo de economia social de mercado, e isto desde a década de 2000. É o social que é “passado para passado”. Por outro lado, pode-se sentir claramente essa situação pois há vários sinais de que a elite económica beneficiou com estes desenvolvimentos. Os fluxos líquidos de capital têm sido cada vez mais dominados pelas aplicações financeiras, e os investimentos directos estrangeiros (o IDE) são cada vez menos importantes.
Defendemos a ideia de que se trata de uma financeirização por procuração permitindo às famílias e às empresas alemãs de se pouparem e não terem que desenvolver um mercado financeiro massivo e de endividamento generalizado que a este acompanha, ao mesmo tempo que capturam alguns dos frutos de investimentos no exterior (saldo líquido de juros, lucros e dividendos entre a Alemanha e o resto do mundo).
Nesta perspectiva, o enriquecimento crescente dos decis superiores das famílias alemães é realizado por um mecanismo interno e externo: 1. a cadeia de valor da produção industrial funciona como um extractor de riqueza nos países produtores dos elementos montados na Alemanha, a maioria dos quais é capturado por uma pequena fracção das famílias dos percentis superiores, das famílias de topo, e a ligação da Alemanha ao mercado financeiro mundial tem também essa mesma função. 2. A nível nacional, os sinais da pressão do enriquecimento das famílias mais ricas sobre a afectação dos recursos são a lógica do investimento produtivo, a falha do investimento nacional em infra-estruturas, o declínio da participação da indústria nacional no PIB (o peso do made by e não tanto do made in Germany) e as mudanças no emprego industrial, as exportações de capital financeiro em detrimento dos IDE, características que são estabelecidas pela financeirização por procuração.
Também defendemos a ideia de que este processo de declínio à escala em menos de uma geração terá sido suspenso pela crise. Vamos por conseguinte estudar a evolução dos rendimentos dos alemães para determinar se esta janela de declínio existe realmente. Se a nossa tese for verdadeira, uma polarização muito forte dos rendimentos ir-se-á produzir do momento em que se põe em marcha a Agenda 2010. E esta polarização deve ser vista como uma aceleração de um processo que teve, aliás, lapsos de tempo mais importantes. Não se trata de falar de um declínio efectivo da economia alemã mas dos elementos que nos permitem levar a poder falar de um fenómeno ainda in nuce.
(continua)
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