CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – COM JESUS NÃO É NADA ASSIM – por Mário de Oliveira

quotidiano1

 

O que o país pôde ver ontem no funeral do cadáver de Manoel de Oliveira, o cineasta-menino que brinca com a vida e com a morte, como só os seres humanos consciência são capazes, deixou-me profundamente ofendido, triste. Depois de Jesus, o filho de Maria, nenhum cadáver de ser humano deve ser tratado assim, no novíssimo momento em que é acolhido pela terra, numa reiterada operação de humanização cósmica, que havemos de acompanhar com serenidade, silêncio-escuta, pão-vinho repartido, dança-canto-beijo-abraço. Em momento algum, os seres humanos o são tanto, como no novíssimo momento, em que a vida-consciência que somos se torna definitivamente vivente, por isso, definitivamente invisível aos olhos dos demais. A obscena presença do chefe de estado, do presidente do conselho de ministros, da presidente da AR – o pleno do poder nacional – com seus carros oficiais, seus seguranças, seus guarda-costas, a juntar ao templo da paróquia de “Cristo-Rei”, para onde levaram o cadáver, constituiu, no seu todo, uma escusada agressão a Manoel de Oliveira e, nele, a todos os seres humanos. O Institucional Estado, bem como os templos aonde continuam a ser levados os cadáveres de seres humanos, definitivamente viventes, têm o terrível condão de tornar ainda mais pequenas as populações. Para cúmulo, os canais de tv correram a plantar-se no local, com o manifesto propósito de matar a privacidade/intimidade que nos faz humanos. Assim, o que deveria ser o novíssimo momento de comunhão-sem-ocaso com o pleno ser-viver de Manoel de Oliveira, tornou-se um longuíssimo momento de tortura, de massacre, de inferno. Com Jesus, o pleno do Humano, não é nada assim. O seu ser-viver-actuar-falar longe dos templos, dos palácios, deixa aos papéis os agentes históricos do poder que os frequentam/habitam. Decidem, depressa, desfazer-se dele. Mostram bem o que são – mentirosos, ladrões, assassinos. Eis o que a Páscoa de Jesus põe a nu, duma vez por todas. Ousemos acolher a revelação, viver em conformidade.

4 Abril 2015 .

 

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